1976: Movimento Black Rio… O som, o sangue, o suor e a raça

A revolta e o swing

“O que é um homem revoltado? Um homem que diz não. Mas, se ele recusa, não renuncia: é também um homem que diz sim, desde seu primeiro movimento. […]. O movimento de revolta o leva além do ponto em que estava com a simples recusa. Ultrapassa até mesmo o limite que fixava para o adversário, exigindo agora ser tratado como igual” (CAMUS, 2017, pp. 23-25).

Olhos e roupas multicoloridas. Cabeleiras justapostas no meio do salão. Abolição em ebulição. Alto-falantes tremulando, luzes de neon. Orgulho de si e do Outro. Corpos (livres?) em movimento… Em prol do Movimento. Há som, sangue, suor e raça.

O Black Power chegava ao Brasil.

Reportagem sobre o movimento no Jornal do Brasil

A obra 1976: Movimento Black Rio (2016), de autoria de Luiz Felipe de Lima Peixoto e Zé Octávio Sebadelhe, oferece mais do que a apresentação de imagens históricas de conjuntos musicais, casas de shows, público e outros artistas. É claro que tudo isso foi possível em meio ao clima de efervescência cultural e musical fomentado, sobretudo, pelo movimento de direitos civis nos Estados Unidos e pela influência de nomes como James Brown, o famoso Mr. Dynamite. Porém, constata-se que o livro consegue ir além.

Por meio da obra se percebe que enquanto nas radiolas dos porões da ditadura o ritmo seguia a cadência do “sangue, suor e lágrimas”, surgiam nos anos de 1970 conjuntos musicais brasileiros que vibravam ao som do soul/funk, tentando substituir a palavra “lágrimas” por “raça” e “som”.

Assim, a violência do Ato Institucional número 5 insistia em confrontar o suingue dos blacks e browns brasileiros, mas nos bailes de soul music “o couro comia” de forma harmoniosa, principalmente porque a discotecagem propagava a filosofia black is beautiful através das músicas de artistas negros norte-americanos.

Mas, por que especificamente o ano de 1976?

A escolha de Luiz Felipe e Zé Octávio se deu pelo fato de, nesse ano, ter sido publicada uma reportagem sobre o movimento que se espalhava pelo Rio de Janeiro e outros centros urbanos. O texto, intitulado “Black Rio – O orgulho (importado) de ser negro no Brasil”, assinado pela jornalista Lena Farias batizava finalmente o movimento que já embalava multidões. Além disso, a reportagem (publicada no Jornal do Brasil, periódico de grande circulação nacional) abria as portas para os debates polêmicos que envolveriam a nova cena musical que insurgia.

“1976” é, portanto, um livro mais do que fundamental para todos aqueles que se interessam pelos silêncios que assolam a história da música popular brasileira (principalmente, a com letras maiúsculas). “1976” é também um livro sobre o racismo à brasileira que se apresenta sobre várias facetas: boicotes, repressão dos militares, críticas da imprensa musical, ataques da própria intelligentsia afeita ao discurso da mistura racial e cultural. Os autores afirmam que o racismo desponta como mais um, entre outros fatores, que influenciam as disputas dentro de nossa memória cultural, como denota a passagem:

“A história do Movimento Black Rio se encaixa, de certa maneira, numa situação muito parecida com os escassos registros históricos da cultura negra nacional, nesse contexto de costumes e valores pouco registrados, obliterados pela amnésia reinante da memória imaterial, característica comum desse país. Pouco se sabe, ou se recolheu e guardou de forma conveniente, sobre o que foi a influência do soul americano no subúrbio do Rio de Janeiro no início dos anos 1970. Alguns afirmam não ter sido um movimento autêntico, organizado.” (SEBADELHE; PEIXOTO, 2016, p. 11).

Wilson simonal e James Brown se encontram.

Assim, pelo menos o fizeram muitos jornalistas culturais, músicos e críticos musicais à esquerda da classe média, receosos pela perda da “autenticidade” da música brasileira. Os negros, afinal, podiam ir muito mais além dos pandeiros e cavaquinhos. No entanto, houve também “a opinião de que foi um movimento de identidade racial, veiculado por uma identidade musical, o soul de James Brown”. Além disso, alertam os autores que “vale ressaltar que, o soul, ainda no seu surgimento, foi cultuado e projetado como um forte instrumento de libertação do negro americano. I’m black and I’m proud!” (SEBADELHE; PEIXOTO, 2016, p. 12). Por isso, como o leitor poderá constatar, tais disputas simbólicas e embates discursivos apenas corroboraram para tornar o objeto de estudo em questão ainda mais interessante e instigante.

Memória, revolta e anti-melancolia

Ademais, no livro, ao retrilhar a trajetória do Movimento Black Rio, os autores escavam memórias valiosíssimas de consumidores e músicos brasileiros negros que queriam um lugar no mercado musical, até então com pouquíssimos artistas negros atuantes.

Tem-se contato com canções que a memória  – ou seria, uma certa narrativa da história? – embaçou, como Tributo a Martin Luther King: “Sei, sou um homem de cor/Meu irmão de minha cor/O que eu te peço é luta/ sim, luta mais/Para sermos iguais”. A canção foi composta por Wilson Simonal e Ronaldo Bôscoli e gravada ao vivo, em 1967.

Vale frisar que a própria fala do cantor Wilson Simonal em 67 (proferida para milhares de pessoas em seu programa “Show em Si… Monal” que era exibido pela TV Record) representa bem o burburinho político e a luta antissegregacionista que chegou até o Brasil e foi veiculada em bailes de soul e canções populares:

 “– Eu compus uma música em parceria com o meu amigo Ronaldo Boscôli e intitulei Tributo a Martin Luther King. Martin Luther King é um negro norte-americano. O mérito maior de Martin Luther King é lutar cada vez mais pela igualdade de direito entre as raças. Essa música, eu peço permissão a vocês, eu dediquei ao meu filho, esperando que no futuro, ele não encontre nunca aqueles problemas que eu encontrei (e tenho, às vezes, encontrado), apesar de me chamar Wilson Simonal de Castro”.

A pesquisadora Santuza Cambraia Naves (2010, p. 129) afirma que os indícios dos posicionamentos políticos na cultura soul à brasileira residiam justamente nas questões estéticas e não nas letras, diferentes das protest songs norte-americanas e da “canção engajada” brasileira. Assim, segundo ela, as canções-soul se caracterizavam “de maneira diferente, pelo ritmo dançante e pelas letras cujo teor festivo, na maioria das vezes, [passava] longe da reflexão política”.

Mais uma reportagem da época.

Entretanto, se pode ver o teor engajado bastante presente nas letras de músicas como na de Wilson Simonal, anteriormente citada e “Se Jesus fosse um homem de cor” (Deus Negro), regravada pelo cantor Toni Tornado e posteriormente também pela cantora Elis Regina: “Minha pergunta necessita uma resposta/será que alguém pode me dar?/você teria por ele esse mesmo amor/se Jesus fosse um homem de cor?”.

Para além da irreverência aliada ao culto da beleza negra e ao engajamento, o movimento também enriqueceu a música instrumental brasileira, o que se pode comprovar na escuta de discos como Maria Fumaça (1977), Gafieira Universal (1978) Saci Pererê (1980), da banda Black Rio e nos discos da banda de jazz-funk brasileira Azymuth.

Essas são apenas algumas das inúmeras possibilidades que o debate oferece e que deverão ser trabalhadas em textos futuros. Pode-se dizer em virtude do que foi exposto nessa sugestão de leitura, que “1976” é um livro no qual o leitor irá saborear mais um episódio do impacto diaspórico da cultura negra africana no Brasil, vislumbrará a territorialização do soul-funk e seu encontro com o samba e com o jazz; irá entrar pela porta da frente das boates e dos bailes black, ao som das equipes de som como a “Black Power”, a “Furacão 2000”, a “Curti-som”, a “Brazilian Soul”, a “Soul Grand Prix”, a “Dynamic Soul” etc. Conhecerá mediadores culturais como Mister Funky Santos, Big Boy, o maranhense Monsieur Limá, Dom Filó e Ademir Lemos e encontrará grandes artistas como Gerson King Combo, Dom Salvador e Grupo Abolição, Toni Tornado, Oberdan Magalhães, a banda Black Rio, Toni Tornado, Erlon Chaves, Wilson Simonal, Cassiano, Lady Zu, Carlos Dafé, o conjunto instrumental Som, Sangue e Raça, entre outros que viriam a compor a chamada MPBlack, como Sandra de Sá, Jorge Bem Jor, Tim Maia e o recentemente falecido Luiz Melodia.

“1976: Movimento Black Rio”, é definitivamente um livro para se deliciar, para se conscientizar e para se orgulhar.

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Referências

CAMUS, Albert. O homem revoltado. Tradução: Valerie Rumjanek. 1ª edição. Rio de Janeiro: BestBolso, 2017.

NAVES, Santuza Cambraia. Canção Popular no Brasil: a canção crítica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

SEBADELHE, Zé Octávio; PEIXOTO, Luiz Felipe de Lima. 1976: Movimento Black Rio. 1. Ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2016.

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Colaborador do Música e Sociedade. Mestrando no Programa de Pós-graduação em Cultura e Sociedade (Mestrado Interdisciplinar - UFMA) onde elabora dissertação a respeito do jazz no Brasil nos anos 60. É autor do livro "O lugar do jazz na construção da música popular brasileira (1950-1956)", graduado em História pela Universidade Estadual do Maranhão, baterista e escritor.