A distinção dos gostos musicais e o surgimento da música popular na visão de William Weber

Música popular. Music Hall
Programa de Music Hall

A separação do universo da música popular e da música erudita é um processo que ganha relevância no século XIX à medida que os gostos musicais vão passando por um processo de hierarquização ao longo das décadas. Os gostos musicais mais diversos conviviam lado a lado nas salas de concerto no século XVIII. Uma programação de concertos adotava um padrão conhecido como miscelânea, onde diversos gêneros musicais mesclavam-se ao longo da programação de um único concerto. A homogeneização do concerto público é um processo longo que dependerá de uma série de fatores, como o estabelecimento de um discurso idealista de música, da institucionalização do conceito de obra de arte musical como um conceito regulador das práticas musicais e também da consagração de um repertório canonizado, o universo da música clássica que hoje conhecemos. Este processo, levado ao longo das décadas do século XIX, acabou por provocar uma cisão definitiva entre os gostos musicais em nichos específicos que passaram a conviver cada vez menos quanto mais o século avançava. O espaço comum dividido pelo apreciador da música séria e pelo amante da música ligeira torna-se cada vez mais uma coisa do passado e a hierarquia dos gostos, baseada no discurso idealista dos defensores da “música séria”, passa a estruturar cada vez mais o campo da música como um todo.

A rejeição ao comércio da música e o discurso de decadência musical entram em cena neste período (Weber, 2011, p. 132). A retórica contra os modismos musicais tomam forma ao longo do século e, quanto mais este avançava, mais se transformava em pecado se dedicar a escrever música para o grande público: a era que tolerava os minuetos e canções de Mozart e Beethoven e as peças populares de Mendelsohn ficara para trás.

Neste cenário, o concerto público pago passa por um período de intensa transformação. A era que vai de 1800 a 1848 é uma era identificada por William Weber como um período de crise e experimentação de repertório dentro dos concertos. No longo processo de hierarquização dos gostos, as casas de espetáculos e concertos passam a atuar cada vez mais especificamente para um nicho do gosto musical. É a era em que a sinfonia e o quarteto de cordas emergem como os grandes arquétipos do bom gosto musical, enquanto a ópera passava por uma profunda crise interna dividida entre os modismos, a popularização e a lenta canonização. Os concertos com piano passam a ocupar também um papel especial na discussão da hierarquia dos gostos, onde os recitais ao estilo dos conduzidos por Clara Schumann na segunda metade do século representam o que há de refinamento de gosto com relação ao instrumento, e os concertos virtuoses com improvisos e fantasias sobre temas de ópera são abraçados pelo grande público em geral.

Relacionando-se cada vez mais com o grande público, alguns espaços de concerto e apresentações musicais ganham destaque no século XIX. Entre os principais estão o music-hall, o café-concert e o concert-promenade. Este último gozou de imensa popularidade na França e na Inglaterra com seu repertório dedicado a pot-pourris de árias de ópera e danças populares. Enquanto o cafe-concert e o music-hall, comprometidos com a música popular, se distanciavam cada vez mais do repertório clássico, os concert-promenade se posicionavam no meio entre o profundamente popular e o repertório clássico (Weber, 2011, p. 304). O concert-promenade era um espetáculo visual. Levado a cabo por agentes-empresários, esses concertos aconteciam em amplos espaços públicos como os jardins públicos. A atração visual era tão importante quanto a musical na conquista do público. Abraçando uma profusão de gêneros e adotando gêneros abandonados por outros músicos como a fantasia-improviso ao piano, o encanto era um fator que não poderia faltar. A decoração imitando cenários luxuosos e a iluminação brilhante era obrigatória. Foi neste ambiente criado como uma espécie de conto de fadas que triunfaram orquestras lideradas por nomes como Johann Strauss pai e Emile Waldteufel.

Degas - Cafe Concert at Les Ambassadeurs, 1875
Degas – Cafe Concert at Les Ambassadeurs, 1875

Paralelamente, o music-hall e o cafe-concert fizeram a glória da música popular vocal. Este gênero vai se tornando cada vez mais um assunto de profissionais especializados. Compositores dedicados a escrever para o mercado da música vocal popular é uma realidade lucrativa e bem disseminada por volta da década de 1840 (Weber, 2011, p. 233). Muitos fatores de ordem prática contribuíram também para a difusão da música popular vocal para solista acompanhado por piano. O principal se refere aos custos de manutenção de uma orquestra e toda a logística envolvida para a manutenção de um empreendimento deste porte. Não raro, muitos artistas encontraram nesta simples solução o caminho para carreiras extremamente lucrativas.

William Weber chega a pontuar que é a glória do music-hall e do cafe-concert que acaba cunhando o significado moderno de música popular, estabelecido, pelo menos na Inglaterra, como tal já na década de 1860 (Weber, 2011, p. 385). Por volta desta época, o termo “música popular” era usado pela imprensa dedicada ao discurso idealista da música de forma pejorativa. Dizer que o music-hall era “lotado de música popular” era uma ofensa.

Estabelecendo uma profunda divisão dos gostos musicais, o século XIX viu surgir novas formas de se apreciar e consumir música. A reação ao comercial, a elaboração de uma “apreciação correta” da música e o desenvolvimento de um cânone consagrado foram acompanhados da difusão em massa da música, das orquestras populares, das canções consagradas pelo grande público e dos ídolos eleitos ao gosto da moda. A divisão entre espaços distintos de apreciação e consumo musicais deu origem a uma rica história dos music-halls e dos cafe-concerts que merecem uma atenção adequada. No final do século, ambos os públicos, o da música popular e do erudito, encontravam-se em margens opostas. A glória e fortuna dos empresários que “cobravam em centavos” do grande público fazia frente ao discurso da decadência que os idealistas se aferravam cada vez mais, com maior medo do porvir. Mas o motor da história não cessa e o novo século que despontava guardava novas transformações e o fim de toda uma era para espanto do olhar do anjo da história.

Lembra a historiadora Barbara Tuchman, em seu livro “A torre do orgulho”, que “um ano antes de morrer, a rainha Vitória, voltando no seu iate de uma visita à Irlanda, sentira-se indisposta com o mar bravo. Depois de uma onda enorme ter batido contra o barco, chamou o médico que a assistia e disse-lhe, fazendo o eco de um grande antepassado: ‘Vá lá pra cima já, sir James, dê ao comandante meus cumprimentos e diga-lhe que isto não deve suceder de novo’. Mas as ondas não pararam”.

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Referências

WEBER, W. La gran Transformación en el gusto musical: la programación de conciertos de Haydn a Brahms. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2011

TUCHMAN, B. A torre do orgulho. Um retrato do mundo antes da guerra (1890-1914). São Paulo: Paz e Terra, 1990

Bônus

Rebello Alvarenga fala acerca da separação entre música séria e música ligeira no século XIX

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É o idealizador, criador e proprietário do Música e Sociedade, resultado de uma ampla e densa pesquisa acerca do universo musical pelo prisma da sociedade. Estudou licenciatura em música no Instituto de Artes da UNESP. É também professor nas áreas de composição, piano, história da música e trilha sonora, ministrando uma série de cursos e palestras nestas áreas. É autor de dezenas de trilhas sonoras para as mais diversas mídias, tais como teatro, cinema e dança, além de compositor de música de concerto em uma extensa variedade de gêneros.