A indústria fonográfica está em declínio?

Embora esta seja uma pergunta frequente, a resposta é mais complexa do que uma simples afirmativa ou negativa. Ainda que esteja havendo uma lenta e gradual diminuição da receita das gravadoras desde a década de 1990, as palavras mais apropriadas para caracterizar a situação atual da indústria fonográfica são “transformação” e “adequação” (talvez também “acomodação”), em lugar de “declínio”, ou mesmo de “crise”, como às vezes aparece nos noticiários sobre o assunto.

Dados sobre essa questão foram publicados no “Global Music Report 2016”, da IFPI (International Federation of the Phonographic Industry), com destaque para o gráfico de receita da indústria fonográfica global nos anos de 2005 a 2015, a seguir reproduzido (o gráfico foi desenhado com as linhas horizontais um pouco abaixo de onde deveriam estar, mas os números e o tamanho das barras estão corretos):

Gráfico de receita da indústria fonográfica global nos anos de 2005 a 2015. IFPI
Gráfico de receita da indústria fonográfica global nos anos de 2005 a 2015. IFPI

O que esse gráfico demonstra é que, de fato, nos últimos 10 anos, a receita das gravadoras internacionais caiu de 20 para 15 bilhões de dólares americanos (e já havia caído bastante na década de 1990), o que representa uma acomodação aos novos tempos: a indústria fonográfica está deixando de ser o império da segunda metade do século XX, para se tornar um setor industrial ainda forte, mas de proporções menos monumentais. Um dos principais motivos dessa queda foi a enorme simplificação da cópia e transmissão não autorizada de música, que fez com que uma grande parte da população (cerca de metade, no caso brasileiro) deixou de obter música por vias autorizadas e passou a optar também pelas não autorizadas.

Paralelamente, o gráfico exibe a grande transformação da indústria fonográfica da era midiática: a produção e consumo dos itens físicos (CD, DVD, Blu-Ray) está em vertiginosa queda (praticamente diminuindo sua arrecadação pela metade a cada 5 anos), enquanto a vendagem de música em formato digital (cores laranja e vermelha no gráfico) está em franca expansão, tendo ultrapassado a venda de itens físicos em 2014. A arrecadação de direitos autorais também aumentou nesse período, por conta do desenvolvimento do mercado da música digital.

O futuro próximo da indústria fonográfica está, portanto, no grande aumento da distribuição digital (por MP3, sincronização e outros formatos), com a drástica redução da vendagem de itens físicos para um nível mínimo nos próximos 5 a 10 anos. Como declarou a Associação Brasileira dos Produtores de Discos em 2007, “as gravadoras vêm se transformando gradualmente em verdadeiras companhias digitais”. Veremos, nestes próximos 10 anos, uma mudança semelhante à que assistimos há 10 anos atrás, quando o vídeo VHS foi substituído pelo DVD e pelo Blu-Ray, e também semelhante à que assistimos há 20 anos atrás, quando o LP foi substituído pelo CD.

Para ler

LEBRECHT, Norman. Maestros, obras-primas e loucura; tradução Rafael Sando. São Paulo: Record, 2008. 350p. ISBN: 85-010-7763-1. ISBN-13: 978-85-010-7763-9.

Links

Íntegra do “Global Music Report 2016”, da International Federation of the Phonographic Industry

Dados da Associação Brasileira dos Produtores de Discos

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Professor e pesquisador do Instituto de Artes da UNESP desde 1994, coordenador dos projetos musicológicos do Museu da Música de Mariana desde 2001 e pesquisador do CNPq desde 2007, tendo sido um dos coordenadores dos Simpósios Latino-Americanos de Musicologia (1997-2000), coordenador dos Encontros de Musicologia Histórica de Juiz de Fora (2000-2008) e coordenador do XXIV Congresso da ANPPOM em São Paulo. Maiores informações: Wikipedia https://pt.wikipedia.org/wiki/Paulo_Castagna Lattes http://lattes.cnpq.br/5890524829425382