A música no Papiro de Hibeh: contra Platão e Aristóteles

Os bustos de Aristóteles e Platão. Ao fundo, um detalhe do Papiro de Hibeh. Arte: Música e Sociedade.

Platão e Aristóteles ficaram as bases de duas das mais importantes vertentes da filosofia da música. Enquanto Platão via na música como um processo educativo por transmitir a tradição e ter um efeito moralizante, Aristóteles além de assimilar esta concepção sobre a música, defendia a necessidade do ócio com a música para um bom desenvolvimento do cidadão. No entanto, esta discussão sobre a relação entre música e a pólis continuou efervescente. Uma das descobertas mais interessantes sobre esse debate foi o fragmento 13 do Papiro de Hibeh. Este papiro, descoberto em 1902, de autor desconhecido e escrito antes do Séc IV a.C, questiona a teoria do éthos, a qual propõe que a música influencia a alma dos ouvintes.

Platão e Aristóteles
Detalhe de Platão e Aristóteles retirado da obra A Escola de Atenas de Rafael Sanzio.

A obra de Platão sobreviveu a Antiguidade, o que é uma exceção. Grande parte do que sabemos da produção helênica vêm da análise ou de fragmentos de texto citados por outros autores, ou por comentários de sobre teorias antigas por outros autores, ou ainda de fragmentos de documentos que sobreviveram as intempéries do tempo. O conjunto denominado Papiros de Hibeh foram fragmentos de papiros encontrados em Hibeh, no Egito. Não são um conjunto homogêneo de textos, mas fragmentos de textos diversos. O papiro de número 13 discute sobre música, sendo datado do século IV a.C.

O fragmento deste Papiro de Hibeh foi escrito por um ateniense contra o pensamento de Damon, do qual Platão apreendeu a teoria do éthos musical. Primeiramente, ele fora atribuído ao sofista Hípias, o qual também é personagem de dois diálogos platônico, porém, com o tempo essa tese enfraqueceu. Independente de autoria, o pequeno trecho de três parágrafos indica um contexto de discussões mais ricas em torno da música e da teoria do éthos.

Os papiro de Hibeh foram primeiramente, de modo errôneo, atribuídos ao sofista Hípias de Élis.

Na primeira parte do texto, o autor se diz surpreso com os músicos práticos que se consideram conhecedores da música, enquanto suas colocações sobre a teoria musical demonstram ignorância sobre esta. É um início para abrir a temática que será discutida em seguida, a qual ataca não o conhecimento de alguma tradição sobre música, mas que suas colocações não condizem com a realidade.

Posteriormente, na segunda parte do texto, o autor ataca a teoria do éthos, a qual defende a ideia que determinados modos musicais influem sobre o comportamento, gerando valentia ou covardia, por exemplo, nos ouvintes. Contra essa proposição, ele assevera que os povos próximos a Termópilas utilizam a escala diatônica e são mais bravos que os trágicos que utilizam a escala enarmônica – é importante ter em mente que o termo diatônico e enarmônico tem um sentido diferente do utilizado por nós hoje. Em seguida, afirma que a escala enarmônica nem torna os homens mais bravos, como a escala cromática não os torna covardes.

Fragmento dos Papiro de Hibeh.

O conceito de mousiké para os gregos abrangia tanto a música como a literatura, como outros aspectos. Como aponta Reinach (2011), nesse contexto a música instrumental ganhava relevo e não era bem aceita, havendo uma série de críticas sobre a prática de competições como seus processos de composição musical. A crítica do autor do papiro parece ser de alguém que conhece a prática instrumental, pois se dá na associação dos modos com o éthos. Se eu concebo a mousiké em um sentido mais amplo, o modo é algo além de uma escala musical, pois abrange o modo de pronunciar algumas palavras, alguns aspectos rítmicos e o próprio conteúdo cantado. Contudo, o texto do papiro trata o modo como uma escala musical, efetivamente, sugerindo que o autor trate a mousiké em um sentido estritamente instrumental, como aponta Tomás (2007), e mais próximo de nosso uso do termo.

A terceira parte contradiz a ideia de que a divisão da corda em proporções exatas, como defendiam os pitagóricos, permite a correta afinação, já que para o autor do papiro esse processo não condiz com fenômeno sonoro. Ele também critica a própria carência teórica das práticas musicais dos que estão sendo criticados pelo autor, pois sua própria prática seria deficiente devido à falta de base teórica robusta.

O conceito de mousiké para os gregos abrangia tanto a música como a literatura, como outros aspectos.

Esta parte ao criticar a efetividade das teorias criticadas, é um processo de evidenciar a falta de contato com a própria prática musical. É curioso anteceder os escritos de Aristóxeno, exatamente por também apontar as deficiências da afinação pitagórica e da teoria do éthos. Mesmo sendo um trecho curto, ele nos mostra um ambiente ateniense mais rico em proposições sobre música, já que a contra argumentação é voltada a Damon, provavelmente. As relações entre a música e a pólis em Platão e Aristóteles tem como base o pensamento pitagórico e o de Damon, porém, quando o papiro aponta uma outra significação para a música, visando o fenômeno instrumental e sonoro, leva-nos a pensar o quanto precisamos ter clareza do que concebemos enquanto música ao pensar seus efeitos sobre a sociedade.

Referências

BARKER, Andrew (Org.). Greek Musical Writings: The Musician and his Art. Vol. I. Cambridge: Cambridge University Press, 1984.

GRENFELL, B. P.; HUNT, A. S. The Hibeh Papyri. Vol. London: s/e, 1906. 

LIPPMAN, Edward. Musical Thought in Ancient Greece. Nova York: Columbia University Press, 1964.

REINACH, Theodore. A música grega. Tradução Newton Cunha. São Paulo: Perspectiva, 2011.

TOMÁS, Lia. Vozes dissonantes: precursores da autonomia da música na Antiguidade In: DUARTE, Rodrigo; SAFATLE, Vladimir (Org). Ensaios sobre música e filosofia. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2007. p. 147-157.

Livro “A Música Grega” na Amazon.br!