A sinfonia e os gostos musicais

Orquestra, sinfonia

Ao lado do quarteto de cordas, a sinfonia foi o gênero que mais contribuiu para a hierarquização dos gostos musicais no início do século XIX. Foram nesses dois gêneros em que um cânone primeiramente se estabeleceu e onde primeiramente foi desenhado a sacralização da idealizada “Primeira Escola de Viena”, sob a tríade de Haydn, Mozart e Beethoven. O papel da obra sinfônica para a distinção dos gostos na primeira metade do século XIX foi primordial, estabelecendo-se como paradigma de um gosto idealizado como “elevado” frente a gostos “menores” como, por exemplo, as apresentações virtuosísticas e a ópera. No entanto, para melhor compreendermos as questões sociais imbricadas no gosto pela música séria sinfônica é importante primeiro olharmos algumas questões estéticas.

Enquanto discurso, a hierarquização dos gostos na música está ligada a certas proposições filosóficas e estéticas advindas do idealismo alemão. Um dos princípios que a música empresta dos idealistas é o princípio separativo: nas artes, tal princípio aparece como divisor daquilo que é arte do que é natural e daquilo que é “civilizado” do que é “popular” (Goehr, 2007, p. 165). Para o idealista, a civilidade está ligada à artificialidade sendo esta última um princípio de separação entre a grande arte e o mundano, que viam como artisticamente não civilizado. A estética idealista trabalha como um regulador separando o artificial e elevado daquilo que é natural e não possui civilidade.

Com a sua linguagem então puramente instrumental, apartada da música funcional como, por exemplo, a suíte de danças, a sinfonia pôde ser o arquétipo perfeito da música absoluta, que nada significa fora dela mesma, que não transcende sua existência, fechada do mundo social como um todo – isolada, pôde representar o ideal estético com perfeição. Como aponta a filósofa e musicóloga Lydia Goehr, a ligação da música sinfônica com o idealismo romântico liberta os instrumentos para serem apreciados em termos puramente musicais (Goehr, 2007, p. 165).

Burgtheater em Viena
O Burgtheater em Viena

Se a questão estética é de fundamental importância, não menos importante são seus efeitos na sociedade. É neste terreno que podemos observar as ligações entre a arte, a estética e o social. A apreciação puramente estética da sinfonia, ou seja, desinteressada de outras questões que não as musicais, exige um capital cultural cultivado para que possa existir. Tal capital cultural elevado para crítica da grande arte, adquirido pela educação escolar ou herdado pela família, torna-se assim um divisor entre uma apreciação estética “desinteressada”, puramente formal, e uma apreciação comum (Bourdieu, 2006, p. 45). A apreensão estética neutraliza os interesses afetivos em relação aos objetos de arte, evidenciando a forma em detrimento ao conteúdo. Em uma pesquisa de campo relatada pelo sociólogo Pierre Bourdieu, a apreciação de uma fotografia que mostrava as mãos de uma senhora idosa diferia conforme a classe, ligada diretamente ao capital escolar e familiar. Membros da classe trabalhadora como operários se solidarizavam numa “cumplicidade ética” com as mãos reproduzidas pela fotografia, enquanto depoimentos mais abstratos apareciam com uma frequência cada vez maior à medida que se ascendia na hierarquia social (Bourdieu, 2006, p. 47), explicitando as relações estreitas que ligam as práticas culturais ao capital escolar e ao capital herdado pela origem social.

Indo além, o sociólogo apresenta ainda como uma apreciação desinteressada da arte está ligada, antes de tudo, às classes cujas necessidades financeiras não se apresentam como uma questão fundamental. Diz Bourdieu que a “capacidade generalizada de neutralizar as urgências habituais e suspender as finalidades práticas, inclinação e aptidão duradouras para uma prática sem função prática, a disposição estética consegue constituir-se apenas em uma experiência de mundo desembaraçada da urgência” (Bourdieu, 2006 p. 55).

Signo de uma distinção construída por razões externas às questões puramente artísticas, não é de se surpreender, portanto, que será entre os burgueses que a sinfonia será acolhida no século XIX, embora frações de classe possam ser percebidas no público. A ligação da música séria, tendo na sinfonia sua representação arquetípica com o mundo burguês, adquiria ainda outras nuances. Como mostra o musicólogo e historiador William Weber, além do orgulho cívico e nacional trazido pela ideologia do gosto elevado, figuras eminentes do mundo musical, como o crítico Eduard Hanslick, definiam os termos sociais e estéticos sob os quais a música séria deveria ser entendida, estabelecendo uma estreita relação entre a boa música com questões morais (Weber, 2011, p. 256).

Gustav Mahler regendo a filarmônica de Viena. Max Oppenheimer (1885-1954)
Gustav Mahler regendo a filarmônica de Viena. Max Oppenheimer (1885-1954)

Foi neste cenário que a sinfonia tornou-se o grande gênero orquestral por excelência e representante do “gosto superior”. Os efeitos práticos deste discurso pode ser sentido na Europa de modo crescente ao longo do século XIX. Como exemplo, basta lembrar que é no século XIX que o formato que conhecemos até hoje na programação dos concertos ganha forma. No século XVIII, a sinfonia, já agregada no repertório de concertos públicos, dividia espaço com diversos outros gêneros, desde instrumentais até demais gêneros vocais (Weber, 2011, p. 60) O termo sinfonia, até em meados da década de 1740, possuía sinônimos como “divertimento”, “scherzando”, “serenata”, “notturno” e “cassatione” e ainda não apresentava as características formais que veremos bem estabelecidas na primeira escola de Viena e nem estava ainda completamente independente da italiana “sinfonia avanti l’opera”, peças que se utilizavam como abertura de ópera. Com a ausência do conceito de obra de arte musical, não havia o problema de se separar movimentos para serem executados isoladamente dentro de um concerto.

Num universo musical onde as hierarquias de gosto eram limitadas (Weber, 2011, p. 43), a sinfonia é somente mais uma obra entre tantas. É necessária a construção dessas identidades hierárquicas através de discursos embasados nos argumentos estéticos apresentados acima, bem como o mencionado surgimento do conceito de obra de arte musical, para que o processo atinja sua maturidade. A estrada para a sua consagração, portanto, é longa. Seu processo de estetização e hierarquização dura várias décadas do século XIX, pois esta se converte em um gênero exclusivo somente por volta de 1830 (Weber, 2011, p. 259). Outros efeitos puderam ser ainda observados: com a hierarquização dos gostos, o gênero sinfônico foi apartando-se dos concertos populares, como os “Concertos Promenades”, realizados em parques ao ar livre na França que faziam uso de peças sinfônicas nos seus concertos seguindo a forma da miscelânea na preparação dos programas (Weber, 2011, p. 259). Com uma clivagem cada vez mais profunda entre o ligeiro e o sério, a sinfonia foi se concentrando cada vez mais na programação das salas de concerto da elite intelectualizada europeia, enquanto outros gêneros como a canção, a ária de ópera, as danças e as exibições virtuosísticas se voltavam cada vez mais para um público mais popular.

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Referências

BOURDIEU, P. A distinção: crítica social do julgamento. Porto Alegre: Zouk, 2013

GOEHR, L. The immaginary museum of musical Works. An essay in the philosophy of music. New York: Oxford university press, 2007

WEBER, W. La gran Transformación en el gusto musical: la programación de conciertos de Haydn a Brahms. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2011

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É o idealizador, criador e proprietário do Música e Sociedade, resultado de uma ampla e densa pesquisa acerca do universo musical pelo prisma da sociedade. Estudou licenciatura em música no Instituto de Artes da UNESP. É também professor nas áreas de composição, piano, história da música e trilha sonora, ministrando uma série de cursos e palestras nestas áreas. É autor de dezenas de trilhas sonoras para as mais diversas mídias, tais como teatro, cinema e dança, além de compositor de música de concerto em uma extensa variedade de gêneros.