A situação financeira nos primeiros anos de Mozart em Viena

Mozart em Viena
Mozarthaus em Viena

É de amplo conhecimento a grave situação financeira na qual se encontrava Mozart no último ano de sua vida. O difundido fato do compositor ter sido enterrado em vala comum contribui ainda mais para adotarmos uma visão negativa das suas finanças, ofuscando muitas vezes o sucesso dos primeiros anos de Mozart em Viena. O fato é que seus primeiros anos na capital foram, mesmo com altos e baixos, financeiramente bem sucedidos.

Segundo Andrew Steptoe (Landon, 1996, p. 142-4), em um artigo para um compêndio acerca de Mozart editado pelo musicólogo Robbins Landon, as principais fontes de renda de Mozart em Viena eram quatro. A primeira se constituía dos ganhos obtidos tocando nos concertos e palácios da nobreza. Outra renda provinha das aulas de piano e de composição que ministrava e proporcionava uma espécie de renda fixa, diferentemente da renda flutuante das apresentações. Nos primeiros anos de Mozart em Viena, o compositor chegou a ter de três ou quatro alunos fixos que vinham da nobreza ou de burgueses extremamente abastados. O pagamento por suas composições representavam sua terceira fonte de renda, sendo a quarta o pagamento que recebia pelo cargo de músico de câmara da corte imperial que assumiu a partir de 1787.

Como aponta o biógrafo Maynard Solomon, mesmo em 1781, seu primeiro ano na capital austríaca, Mozart pôde obter um bom rendimento, chegando a soma de seus ganhos naquele ano alcançarem a faixa de 1000 florins, mais que o dobro de seu salário em Salzburg. Tal soma era suficiente para se viver com conforto em Viena, mesmo sendo o custo de vida nesta cidade muito maior que o de sua cidade natal. Já nos dois próximos anos, seus ganhos dobraram, alcançando a soma de 2000 florins ao ano e, em 1784 e 1785, alcançaram a casa de 3000 florins anuais (Solomon, 1996, p. 298).

Seus gastos, no entanto, eram igualmente grandiosos. Em 1784, mesmo triunfante no mercado musical, Mozart provou não saber administrar suas finanças de maneira adequada, vivendo além dos seus ganhos. Neste ano, por exemplo, Mozart e Constanze mudam-se para um imóvel muito mais luxuoso que o anterior, fazendo saltar seus gastos com aluguel de 150 a 460 florins anuais. Leopold Mozart, por uma casa com sete quartos em Salzburg, pagava 90 florins. No entanto, seus gastos exorbitantes não paravam por aí: nesta época chegou a adquirir um pianoforte por 900 florins e uma mesa de bilhar por 300. Ele ainda possuía sua própria carruagem e mantinha um cavalo para recreação, além de grandes gastos com roupas e alimentação (Solomon, 1996, p. 298).

Mozart, tocando espineta.
Mozart, tocando espineta.

Solomon ainda nos aponta que apesar da comprovada capacidade de se aproveitar do mercado musical vienense, Mozart ainda possuía algumas ideias distorcidas com relação ao mesmo, não antecipando viradas bruscas de ânimo do público de Viena quanto ao gosto e às práticas musicais. Alertado por seu amigo, Conde Arco, sobre as disposições voláteis do gosto vienense, Mozart teria respondido: “É puramente verdade que o público vienense é sujeito a mudanças bruscas com relação aos seus afetos, mas isso acontece somente no teatro; além disso, meu nicho é profundamente popular permitindo-me sustentar-me. Viena é, certamente, a terra do piano! Ainda que eles se cansem de mim, isso não acontecerá senão em muitos anos, e não antes. Por enquanto, vou acumulando honrarias e dinheiro” (Solomon, 1996, p. 299). No entanto, infelizmente, Mozart não pôde prever as profundas mudanças nas práticas e gostos que se operaram rapidamente na última década do século XVIII. Como veremos posteriormente, pautado numa realidade ultrapassada, Mozart encontrará profundos e sérios problemas para empreender suas atividades musicais em seus últimos anos.

Os primeiros anos de Mozart em Viena, no entanto, passaram-se sem maiores dificuldades de ordem financeira. Por quatro ou cinco anos o compositor pôde disfrutar de uma vida de sucesso como empreendedor musical. Como vimos ao longo destes textos, muitas de suas grandes obras devem sua existência à iniciativa de Mozart de buscar o sucesso simbólico e material em empreendimentos independentes. Ao longo desses anos, Mozart construiu uma carreira que explorou desde as possibilidades como compositor até as suas qualidades como intérprete e seu empreendedorismo no mercado editorial. Certamente tivesse Mozart ficado em Salzburg, não teria encontrado campo para desenvolver as obras que desenvolveu, marcando definitivamente seu lugar na história da música.

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Referências

LANDON, R. Mozart: um compêndio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996

SOLOMON, M. Mozart, A life. New York: Harper Perennial, 1996

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É o idealizador, criador e proprietário do Música e Sociedade, resultado de uma ampla e densa pesquisa acerca do universo musical pelo prisma da sociedade. Estudou licenciatura em música no Instituto de Artes da UNESP. É também professor nas áreas de composição, piano, história da música e trilha sonora, ministrando uma série de cursos e palestras nestas áreas. É autor de dezenas de trilhas sonoras para as mais diversas mídias, tais como teatro, cinema e dança, além de compositor de música de concerto em uma extensa variedade de gêneros.