Alex Ross do clássico ao pop: Música sem fronteiras

alex ross

Em 2007, Alex Ross sacudiu o mundo da música com seu livro “O resto é ruído”, por meio do qual pretendia contar, de maneira leve e ágil, uma espécie de história cultural da música no século XX. Esta obra conquistou admiradores e críticos apaixonados ao longo dos anos. Vencedora de diversos prêmios de crítica, incluindo os da revista Time e do jornal New York Times, esta obra encontrou espaço ao tocar em alguns pontos nevrálgicos do mundo da música de concerto, do jazz e do pop. De fato, o barulho não foi pouco quando Alex Ross buscou em The rest is noise uma história da música do século XX que superasse questões de fronteira entre o erudito e o popular, indo mais além das habituais divisões entre gêneros e estilos.

O crítico musical Alex Ross

Esta questão é apresentada logo no primeiro parágrafo do prefácio, onde Ross nos brinda com uma espécie de anedota acerca de um encontro inusitado entre dois compositores que marcaram, cada um a sua maneira, a história da música deste século: o discípulo de Schoenberg, Alban Berg, e o músico norte americano George Gershwin. Conta o autor que em 1928, Gershwin empreendeu um tour pela Europa, encontrando alguns dos principais compositores em atividade naquele continente. Em uma destas visitas, tomou contato com Alban Berg que, para recepcioná-lo, apresentou para o norte americano uma versão de sua suíte lírica para quarteto de cordas. Depois da apresentação, Gershwin encaminhou-se para o piano para apresentar também algumas de suas obras a seu colega europeu. Porém, o norte americano se sentiu acanhado por ter de apresentar suas peças, tidas como leves, populares e ligeiras, após ter ouvido a complexa composição de Alban Berg. Percebendo o acanhamento de Gershwin e buscando romper qualquer constrangimento, Berg se aproximou do piano e disse ao norte americano: “Senhor Gershwin, música é música” (Ross, 2007, p. XV).

Verdadeiro ou não, este episódio marca com precisão alguns dos principais pontos que permeiam o pensamento musical de Alex Ross: ao contar esta história, o autor nos chama a atenção para as barreiras erguidas historicamente acerca do repertório clássico e popular, um dos pontos focais de sua obra, cuja intenção é, até certo ponto, questionar essas fronteiras, desconstruí-las e entender suas engrenagens.

Esta intenção surge das percepções do autor acerca da construção de um discurso sobre a música de concerto que, tendo suas origens no século XIX, ainda encontra vozes em pleno século XXI: um discurso que pode ser identificado como advogado de uma certa hierarquia entre os gostos musicais superiores e inferiores, entre a boa música e a má, entre a obra de arte musical, eterna e imutável, e a música popular – muitas vezes de cunho comercial – ligeira, passageira, inferior e mundana. Para Ross, este discurso é prejudicial à própria música de concerto – aqui entendida sob o conceito de música clássica – pois a isola do universo vivo, pulsante e transformador do resto do universo musical.

Neste sentido, Ross não está sozinho. Esta preocupação é encontrada, por exemplo, em musicólogos do quilate de Richard Taruskin, como podemos perceber em um de seus livros, “The danger of music”. Lá o musicólogo aponta que a autonomia do campo da música, que resguardou o objeto musical das forças reificantes, mecanizadas e impessoais advindas do processo de modernização da sociedade europeia durante o século XIX, é justamente o que hoje condena a música de concerto a seu isolamento, condenando-a a uma espécie de limbo cultural na sociedade (Taruskin, 2010, p. XVI). Da mesma maneira, podemos encontrar argumentos semelhantes na obra de outros pensadores, como a filósofa Lydia Goehr, o historiador William Weber, entre outros.

Edição em inglês do livro de Alex Ross

Um dos aspectos, no entanto, que faz destacar a obra de Ross, tanto para o bem quanto para o mal, reside na escrita jornalística do crítico musical que permite a Ross dialogar com uma ampla parcela do público que não costuma frequentar as discussões sobre o assunto que tomam lugar no ambiente acadêmico. Dotado de uma escrita ágil e agradável, Ross é capaz de cativar o leitor de maneira mais imediata – de fato, algumas passagens de seus escritos estão dotados de uma verve praticamente literária, rara de se encontrar nos escritos acerca de música. Por outro lado, ao se ausentar do rigor acadêmico, Ross perde em profundidade e metodologia, chegando a cometer, por exemplo, algumas generalizações que dificilmente passariam incólumes no campo acadêmico.

Nada disso, no entanto, tira o prazer de tomar contato com sua escrita e não diminui o valor e a legitimidade de algumas questões fundamentais de seu pensamento musical. Pelo contrário, ao adotar um estilo leve, Ross foi capaz de ampliar a discussão e, principalmente, angariar novo público para o universo da música de concerto e, em especial, o da música contemporânea. Ao ousar, por exemplo, tecer em seu livro “Escuta só: do clássico ao pop” um artigo chamado “Chacona, lamento, walking blues: linhas de baixo da história da música”, em que pretende narrar apontamentos acerca da história das linhas de baixo indo desde chaconas renascentistas espanholas até os baixos de Dazed and confused do Led Zepelin, Ross é capaz de cativar um público completamente novo para o universo tanto da chamada “Música Clássica” quanto o do Rock. Em outras palavras, ao tratar os fenômenos musicais para além de suas fronteiras de gênero e estilo, Ross abre caminho para encontrar pontos de contato, citações e variações em obras tão distantes tanto no gosto quanto no tempo.

Livro de Alex Ross

Esses pontos de contato tornam-se essenciais em um mundo onde somos bombardeados por diversas referências culturais que nos alcançam a todo momento, sem distinção. Em um de seus melhores achados, Alex Ross compara o gosto musical dos jovens ao Ipod. O autor lembra que quando adquiriu o aparelho, costumava deixá-lo na função shuffle, ou seja, em ordem aleatória, através da qual, ao sabor do acaso, o aparelho caprichosamente misturava um movimento orquestral de Stravinsky com uma obra de Louis Armstrong. Nas palavras do autor, “A pequena máquina derrubava barreiras de estilos de uma forma que mudou o modo como eu ouvia música” (Ross, 2007, p. 36). Em um exercício aparente intuitivo, Ross vai além ao afirmar que “muitos ouvintes jovens parecem pensar do modo como o Ipod pensa”. Acontece que, ao invés de condenar a prática ao conhecido limbo reservado às ameaças ao civilizado mundo da música, Ross busca ver nessas experiências uma possibilidade nova, um novo caminho – algo muito diferente dos conhecidos discursos acerca da decadência dos gostos musicais. Para Ross, é preciso pensar além. A música para ele está além dos discursos de preservação da grande tradição, é um objeto vivo em constante transformação.

Desta maneira, vemos no já citado livro “Escuta só: do clássico ao pop”, uma tentativa de colocar os pés neste novo mundo, um convite para trazer o universo da música de concerto para além dos discursos e entendê-la não como uma peça de museu, mas como uma cultura atuante no cenário musical contemporâneo.

O livro de Alex Ross virou um festival de música e debates que aconteceu na Inglaterra em 2013.

É importante ressaltar que este ensejo de Alex Ross de buscar vias de atuação da música de concerto –em especial a moderna e contemporânea – no cenário musical saiu do papel e ganhou contornos práticos com a edição de um festival de música intitulado The rest is Noise, que contou com a presença de importantes  regentes e intérpretes e foi conduzido pela Orquestra Filarmônica de Londres durante o ano de 2013. Durante o ano foram realizados uma série de concertos, mesas de debates, palestras e diversas atividades musicais que trouxeram, na palavra de seus organizadores “o livro à vida” – uma prova de que é possível unir a música às discussões sociais em amplas esferas sem perder, com isso, o compromisso com o fazer musical mais puro e dedicado.

Por último, é importante finalizar apontando que, não por acaso, este artigo abre o ano de 2017 no Música e Sociedade. Neste ano, buscaremos apresentar aos nossos leitores um leque ainda mais amplo de gêneros musicais, sem abandonar jamais a seriedade de pesquisa que marcam nossos artigos e sem abandonar também os gêneros já abordados até aqui. Não se trata de uma mudança no caminho traçado e sim de trazer ainda mais conteúdos musicais para o leitor. Neste ano, pretendemos levar ao leitor uma pesquisa séria relacionada aos diversos gêneros e estilos. Para isso, o Música e Sociedade está ampliando sua equipe de colaboradores, o que fará, com o tempo, aumentar nossa produção e oferecer um amplo espectro do fazer musical e suas relações com o meio social. Cremos que, para além dos estilos e gêneros, o objeto musical deve ser tratado com igual seriedade e respeito. Este é o nosso compromisso com todos aqueles que acompanham nosso trabalho.

Referências

TARUSKIN, R. The danger of music and other anti utopians essays. Los Angeles: University of California Press, 2010

ROSS, A. The rest is noise: listening to the twentieth century. Nova York: Picador, 2007

ROSS, A. Escuta só: do clássico ao pop. São Paulo: Companhia das Letras, 2011

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