Aristóteles e a música: entre a disciplina e o ócio

Aristóteles e a música
A pintura Escola de Atenas, de Rafael Sanzio. Ao centro, Aristóteles e Platão

Aristóteles é um dos filósofos mais influentes da história. Diferente de seu mestre Platão, Aristóteles nasceu em Estagira, uma pólis helênica no território da Macedônia, daí ser conhecido como ‘o filósofo de Estagira’, ou como ‘o estagirita’. Estudou na Academia de Platão e, posteriormente, foi preceptor de Alexandre o Grande, o qual transformou o mundo através de seu grande império. Da mesma maneira que Platão escreveu sobre tudo, Aristóteles tem uma obra gigantesca, na qual estabeleceu bases teóricas ainda influentes, de certa forma, em nossos dias: como na biologia, na gramática, na epistemologia, na política, na estética, entre outras. A música também foi alvo de suas reflexões, assimilando a concepção formativa e disciplinadora desta, como proposta por Platão, porém, valorizando-a como parte do ócio, do entretenimento e do prazer. Contudo, antes de explorar a concepção aristotélica de música, convém discutirmos algumas diferenças essenciais entre Platão e Aristóteles.

Platão e Aristóteles
Detalhe de Platão e Aristóteles retirado da obra de Sanzio.

Ao analisarmos o afresco ‘Escola de Atenas’ de Rafael Sanzio, veremos no centro Platão e Aristóteles. Ao olhar a obra com mais cuidado, vemos Platão sob a ponta dos pés e apontando ao alto, enquanto Aristóteles, além de estar com os pés bem fincados no chão, está com mão aberta e a palma apontada para o chão. A gravura indica essa tendência de Aristóteles com o concreto e sua valorização da experiência empírica, enquanto Platão visa às matemáticas e o Mundo das Ideias. Diógenes Laértios conta que devido ao costume de Aristóteles ensinar caminhando, sua escola fora apelidada de peripatética, no entanto, podemos interpretar essa anedota como sua tendência de pensar com os pés nos chão, tendo o mundo sensível como ponto de partida da reflexão (LAÉRTIOS, 2008, p. 229).

Na obra A Política, Aristóteles vai discutir sobre o que se deve estudar para formar bons cidadãos, e recomenda o que denomina de disciplinas liberais, aquelas que desenvolvem no homem livre a prática das qualidades morais; sendo consideradas vulgares as disciplinas em que seu estudo é um fim em si mesmo. Considera quatro ramos principais: gramática, ginástica, música e desenho (ARISTÓTELES, 1337b). O autor aponta a existência de dúvidas sobre o uso da música, apontando que esta é nobre nobreza devido a sua relação com o prazer, com o ócio. Leiamos o próprio Aristóteles sobre o tema:

Busto de Aristóteles

“(…) A própria natureza atua no sentido de sermos não somente capazes de ocupar-nos eficientemente dos negócios, mas também de nos dedicarmos nobremente ao lazer, pois – voltando mais uma vez ao assunto – este é princípio de todas as coisas. De fato, se ambos são necessários, o lazer é mais desejável que os negócios, e é o objetivo destes; temos portanto de nos perguntar: como devemos fruir nosso lazer? (…) ao introduzir as diversões em nossa cidade devemos discernir os momentos favoráveis para as usarmos, pois as empregamos como se fossem remédios; a sensação que elas criam na alma é relaxante para a mesma, e é relaxante por ser agradável.” (ARISTÓTELES, A Política, 1337b-1338a)

Podemos entender o lazer como o ócio, tão valorizado pelos gregos, mas infelizmente, construído através de uma sociedade escravocrata, para que os cidadãos livres do trabalho pesado pudessem exercê-lo. Porém, a necessidade do lazer é imperativa as próprias atividades necessárias à sobrevivência, como Aristóteles expõe. Dessa maneira, a prática musical funciona como lazer, como atividade do ócio. Quantos de nós não buscamos exercer nosso trabalho dignamente para poder ter nossos momentos de lazer? De certa forma, somos aristotélicos na busca do lazer, quiçá ao considerarmos a própria música enquanto lazer.

O filósofo de Estagira, mais a frente, descreve como o lazer implica em prazer, o qual se relaciona com a felicidade. Aristóteles refere-se à felicidade com o termo grego eudaimonia (εὐδαιμονία). O autor esclarece, na obra Ética a Nicômaco, que esta é o supremo bem, o maior a ser adquirido entre todos os bens, consistindo na prática das virtudes, a areté grega, e na prática contemplativa, além de alguns outros sentidos (WOLF, 2010, p. 20-21). Dessa forma, como a música produz prazer, propicia eudaimonia tanto no ócio que propicia como também devido à teoria do éthos.

A teoria do éthos vai dizer que a Música propiciaria a mímesis (hμίμησις) dos diversos afetos, ou seja, ela imita afetos como bravura, doçura, entre outros; de forma que a fruição musical além de gerar o prazer no ócio, no lazer, imita estes afetos no ouvinte, propiciando uma disciplina moral. A educação, para Aristóteles, se dá através do hábito, por isso a prática musical ao habituar o ouvinte com os afetos nobres, tem uma importante função disciplinadora. Posteriormente, na obra Poética, Aristóteles vai falar da catarse, do grego katársis (κάϑαρσις), nas tragédias – nas quais o coro era cantado –, a qual possibilita a vivência de emoções diversas que permitem ao ouvinte aprender a lidar tanto com emoções nobres, como com as negativas, ao mesmo tempo em que assimila suas funestas consequências. Portanto, habituar-se às emoções nobres ao mesmo tempo em que se sente prazer com a música, torna-a importante na formação dos membros da pólis.

Estagira
Detalhe das ruínas da antiga cidade de Estagira

Contudo, Aristóteles não recomenda a sua dedicação em excesso, pois a música não é um fim, e sim um dos meios. O excesso de sua prática levaria a tornar-se um músico profissional, afastando dos objetivos de formar um homem livre, no sentido helênico dos principais cidadãos da cidade. A prática de música instrumental também não é bem vista por Aristóteles, pois na época, a música instrumental explorava outras possibilidades de estruturas musicais. Ao assimilar as críticas de Platão novas práticas musicais de sua época, o estagirita recomenda a prática do canto de maneira tradicional, somente visando à boa formação ética. Ao conceber uma relação direta entre as estruturas musicais e efeitos éticos específicos, em um contexto em que a democracia ateniense está em queda, depois sendo dominada pelo Império de Alexandre da Macedônia, é natural associar as inovações nas práticas musicais como elementos importantes dessa queda que tanto Platão como Aristóteles percebem.

Por isso o peripatético recomenda o canto e o aprendizado da teoria musical, pois com a primeira evitam-se os perigos das novas práticas; e com a segunda aprende-se a julgar a música executada por outros. Para Aristóteles, a fruição musical é maior quando se conhece mais sobre os processos intrínsecos a música. Em nossos dias, quando ouvintes de música erudita buscam estudar algum instrumento, formas musicais, entre outros, ou ouvintes de Jazz vão ler sobre sua estrutura, sua história, e mesmo aprendendo a tocar um instrumento, seguem a diretriz aristotélica de aprender um pouco mais sobre música, já que o conhecimento teórico desta potencializa a fruição estética, ao associar o prazer dos sentidos à contemplação intelectual.

Entre nós, ainda buscamos o prazer, o ócio, como forma de felicitar-nos com a música. Quando pensamos as funções da música em nossa sociedade, Aristóteles ainda pode nos ajudar a refletir sobre a necessidade do ócio, inclusive para nossas atividades profissionais, as quais têm grande importância, porém, nem algum descanso, sem ócio, além de não se efetivarem, não propiciam uma vida digna. Criar condições de existência da música em nossa sociedade passa por compreendermos que o lazer, o ócio, é tão necessário a existência quanto o trabalho. Não podemos cair no erro dos gregos de fundar as relações de trabalho sobre estruturas escravocratas, mas compreender a necessidade do ócio, do lazer, do respiro, em nossa sociedade é essencial para a continuidade da presença da música.

Referências

ARISTÓTELES. A Política. Tradução Roberto Leal Ferreira. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

______. Ética a Nicômaco. Tradução António de Castro Caeiro. São Paulo: Atlas, 2009.

______. Poética. Tradução Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2011.

FUBINI, Enrico. La estética musical desde la Antigüedad hasta el siglo XX. Tradução Carlos Guillermo Pérez de Aranda. Madrid: Alianza Edittorial, 2005.

LAÉRTIOS, Diógenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Tradução Mário da Gama. 2. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008.

LIPPMAN, Edward. Musical Thought in Ancient Greece. Nova York: Columbia University Press, 1964.

WOLF, Ursula. A Ética a Nicômaco de Aristóteles. Tradução Enio Paulo Giachini. São Paulo: Edições Loyola, 2010.