As táticas de Mozart no mercado editorial

Mercado editorial
Concerto para piano K.503

Em seus primeiros anos em Viena, Mozart construiu uma carreira de sucesso, mostrando que embora existam análises que tenham como base a ausência de um mercado musical para um compositor freelance no século XVIII, possibilidades de empreendimento já eram postas em prática. Se as possibilidades se ampliaram sobremaneira no século XIX com a disseminação ampla do mercado editorial, revistas musicais e salas de concerto, atingindo um público em franca e acelerada expansão, a ideia de uma ausência praticamente total do mercado musical freelance no século XVIII é, sem dúvida, um exagero. Neste texto vamos explorar um pouco como Mozart elaborou suas estratégias de impressão e disseminação de sua obra, jogando luz em aspectos importantes da prática editorial de música no século XVIII bem como no desenvolvimento empresarial da carreira do compositor.

No século XVIII a proteção do compositor em relação aos direitos autorais era extremamente deficitária. Para que uma obra entrasse em circulação, a autorização do compositor era necessária. No entanto, tendo a obra sido publicada, nada se poderia fazer para evitar sua livre circulação, inclusive em edições piratas. Na imensa maioria dos casos, o lucro do compositor era obtido na primeira venda da obra, ficando as demais edições asseguradas como lucro total do editor. Neste cenário, diferentes táticas de publicação eram adotadas. Beethoven, por exemplo, empreendeu subterfúgios muitas vezes escusos para garantir seu sucesso no mercado editorial, como garantir que sua obra fosse publicada por várias editoras em diversas cidades ao mesmo tempo, de forma a assegurar um lucro multiplicado da composição. Não adotando práticas semelhantes, Mozart toma caminhos diferentes para garantir lucros maiores para suas composições.

A difusão pirata da música do compositor era uma das maiores preocupações da família Mozart na década de 1770, ainda em Salzburg. Para tanto, eles buscavam garantir que as cópias de suas músicas saíssem diretamente deles (Landon, 1996, p. 214). Leopold foi encarregado muitas vezes de copiar e difundir a obra do filho, tomando cuidado extra ao acompanhar as cópias executadas para que estas não contivessem erros. A difusão restrita das obras de Mozart neste período se deve muito a tais práticas de proteção da obra adotadas pela família. No entanto, a busca de publicar a obra de Mozart por grandes editoras musicais não era uma ideia abandonada por Leopold. Várias tentativas de publicar trios, sonatas e mesmo sinfonias foram empreendidas por ele como pode atestar sua carta de 7 de fevereiro de 1772 à editora Breitkopf und Haertel.

“Se desejar imprimir algo de meu filho (…) elas poderiam compreender composições para teclado ou trios para dois violinos e violoncelo, ou quartetos para dois violinos, viola e violoncelo, ou sinfonias (…) Em resumo, pode receber qualquer tipo de composição que lhe pareça proveitosa, ele fará qualquer coisa” (Landon, 1996, p.215).

Não é sem importância frisar que a editora, no entanto, recusou a publicação de suas obras na década de 1770. Em parte o problema pode ter se dado num erro de cálculo de Leopold, pois a Breitkopf não publicava na época obras de grande escala, como sinfonias. Segundo o musicólogo Cliff Eisen, a circulação dessas obras se dava através de cópias manuscritas (Landon, 1996, p. 216).

Detalhe de um manuscrito de W. A. Mozart
Detalhe de um manuscrito de W. A. Mozart

Foi somente em Viena que a propagação de edições de obras de Mozart começou a tomar corpo de maneira mais concreta. Ao chegar na cidade em 1781, Mozart estabeleceu prontamente contato com os principais editores musicais de Viena. A difusão no mercado editorial de sua música passa a ser cada vez maior. É notório o sucesso de “O rapto do Serralho”, que circulou por várias cidades europeias, obtendo estrondoso sucesso, por exemplo, em Praga e em Mannheim, circulando nestas cidades em cópias piratas, pois a publicação desta obra pela editora só se dá em 1788.

Muitas das obras de Mozart continuavam inacessíveis no mercado editorial comum, no entanto, circulando em cópias manuscritas de restrito acesso, sendo impossível encontrá-las, devido sua preocupação em manter sob controle a propagação de algumas de suas composições. Uma das táticas que adotou em Viena foi a cópia por subscrição, ou seja, uma cópia adquirida de antemão, garantindo o lucro seguro e a possibilidade de reproduzir em quantidade exata as cópias necessárias. No entanto, tal prática não foi bem sucedida todas as vezes, pois algumas composições chegavam a possuir pouquíssimas subscrições, inviabilizando a empreitada (Solomon, 1996, p. 291).

Outras vezes, no entanto, mesmo obras para um público muito restrito como os quartetos de cordas, obtiveram um sucesso muito significativo no mercado editorial em publicações editadas por casas especializadas. Como mostra Solomon, muitas das produções do compositor pareciam contar com um mercado certamente garantido e essas obras chegavam a impressionante marca de duas a três edições (Solomon, 1996, p. 294). Uma primeira edição circulava em cem cópias, que era padrão para a época, sendo as reimpressões feitas na base de vinte a trinta reproduções. Com o ciclo de quartetos de cordas dedicados a Haydn, Mozart consegue garantir para si um ganho impressionante para a época de 450 florins, o mesmo que geralmente se obtinha para compor uma ópera encomendada.

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Referências

LANDON, R. Mozart: um compêndio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996
SOLOMON, M. Mozart, A life. New York: Harper Perennial, 1996

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