Beethoven, política e a aristocracia: seus ideais e comportamentos políticos

Beethoven, política
Beethoven, 1804

A busca pelo homem Beethoven e suas relações com a sociedade passa por uma série de obstáculos. O primeiro deles é a desconstrução da imagem do herói romantizado que chegou até nós. O heroísmo beethoveniano foi uma construção social. Se de fato podemos corroborar em partes com a imagem do homem intempestivo, determinado, misantropo, comprometido com os ideais revolucionários, é importante sublinharmos que muitas das leituras acerca de suas atitudes são comprometidas com uma visão de uma burguesia então em construção. O assim chamado gênio beethoveniano é muito mais complexo, contraditório e, em certo sentido, fascinante.

O filósofo Immanuel Kant. O conhecimento de Beethoven acerca do Aufklärung possuia muitos lugares comuns.
O filósofo Immanuel Kant. O conhecimento de Beethoven acerca do Aufklärung possuia muitos lugares comuns.

Tomemos como base os ideais políticos de Beethoven. A imagem do homem em eterna luta contra o ancién regime pode distorcer fatos importantes da carreira de um músico provinciano que chegou ao sucesso máximo na capital mundial da música, Viena. Se é fato que Beethoven possuía um certo sentimento burguês, antenado à ideologia construída pelo aufklärung, é também fato que a sua concepção dos ideais burgueses era um tanto contraditória. Como bem aponta o biógrafo Maynard Solomon em sua biografia do compositor, o comportamento do jovem Beethoven em Bonn era de um jovem músico de corte exemplar, um servidor zeloso do eleitorado (1987, p. 65). O compositor desafiador da elite aristocrática, respondão e desdenhoso, existiu de certa maneira mas deve ser compreendido à luz de um homem que, considerando ele mesmo por mérito próprio pertencente a uma casta de homens superiores (1987, p. 132), poderia alimentar essa ilusão com este comportamento. Dono, no entanto, de um senso perspicaz dos limites de sua autonomia, sabia quando recuar e como se fazer amado pela aristocracia (1987, p. 94).

Tendo mantido relações amigáveis com a aristocracia até o fim da vida, onde moraria, portanto, a imagem do homem revolucionário que hoje alimentamos? O iluminismo de Beethoven era, de fato, curiosamente contraditório. Se seu conceito de Aufklärung se desenvolveu em torno de amizades envolvidas profundamente na “causa iluminista”, como seus amigos conterrâneos da Ordem dos Iluminados (ordem que surgiu ao ser suprimida a ordem maçônica por decreto da imperatriz Maria Tereza), é também fato que Beethoven era fruto de uma sociedade que participava destes ideais travestidos pelo eleitor Max Franz, à maneira do iluminismo cultivado pelos “déspotas esclarecidos”. Solomon ainda aponta que a concepção de aufklärung que Beethoven possuía foi concebida dentro de uma visão superficial do assunto, através de leituras de livros populares que simplificavam as ideias de filósofos como Kant (1987, p. 67). O biógrafo ainda cita que Beethoven absorveu muito do que sabia acerca do tema através de conversas informais com amigos ligados à questão, tendo criado sua visão do Auflkärung através de simples frases feitas (1987, p. 68).

Maximilian Franz
Maximilian Franz

O que, no entanto, mais interessa na concepção filosófico-política de Beethoven é que o culto iluminista do compositor pouco possuía de um verdadeiro ímpeto revolucionário, ou mesmo um certo jacobinismo que determinadas leituras da vida de Beethoven insistem em exagerar. Até mesmo sua simpatia com a revolução francesa não assumiu o caráter ideologizado que temos hoje dela. Beethoven não deixou de condenar as consequências da revolução. Mesmo o heroísmo que ele concebia se assemelhava, ainda segundo Solomon (1987, p. 71), ao culto de heróis aristocratas que lutavam contra a opressão, uma espécie de príncipe salvador, ou seja, um déspota esclarecido. O espírito revolucionário de Beethoven respondia muito mais ao desejo de se livrar de determinadas figuras específicas, determinados déspotas, do que varrer a aristocracia da Europa. Tudo isso, contraditoriamente, permanecendo fiel aos seus ideais de liberdade e justiça.

Isso nos ajuda a esclarecer determinados comportamentos contraditórios de Beethoven, geralmente apagados da sua imagem mais burguesamente ideologizada. Beethoven jamais rompeu completamente com o círculo aristocrático. Pelo contrário, como já citamos, continuou em contato com seus membros mais próximos, muitos antigos mecenas, mesmo quando a situação financeira e o poder político destes homens já haviam decaído. O livre mercado musical, que os compositores foram lançados com a progressiva perda de poder da aristocracia vienense, trazia insegurança a Beethoven que, apesar dos ganhos em liberdades enquanto artista livre, teve que se haver por toda a sua vida com as exigências comerciais do mercado (1987, p. 101). Beethoven jamais abandonou a esperança de conseguir um cargo estável em alguma corte, como mostra uma carta do compositor citada por Solomon, datada de 1823 endereçada ao Conde Moritz Dietrichstein, quando soube da morte do compositor da corte:

“Tomei conhecimento de que o cargo de Real e Imperial Compositor de Música e de Câmara, o qual era ocupado por Teyber, vai ser novamente preenchido e me apraz concorrer ao mesmo, particularmente se, como imagino, um dos requisitos é fornecer ocasionalmente composições para a Corte Imperial” (1987, p. 364).

Como podemos ver, fruto de uma época em profunda transformação, Beethoven carregava em si as contradições do período. Visto sob a aura de suas criações e de sua figura, muito da vida, carreira e pretensões do compositor se apaga. É somente restituindo Beethoven à sociedade e à história, ao invés de adotar somente uma visão estética e ideológica, que podemos alcançar a profundidade máxima deste personagem tão paradigmático para o universo musical.

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Referência

SOLOMON, M. Beethoven. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987.

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