Crônicas multidisciplinares: história, jazz e música brasileira no XII ENECULT – BA

Aconteceu na cidade de Salvador entre os dias 15 e 18 de Novembro o XII ENECULT, Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, na Universidade Federal da Bahia. Na oportunidade, o evento promovido pelo Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura da UFBA, contou com quatorze eixos temáticos e diversos grupos de trabalho, entre eles “Culturas e América Latina”, “Culturas e Mídia” e “Culturas e Artes”. Este último contou com apresentações de pesquisadores oriundos de diferentes lugares do Brasil, proporcionando questionamentos e discussões de extrema relevância acerca da MPB e sobre o jazz no Brasil. Pela diversidade das abordagens, o leitor pode estar se perguntando: seria mesmo possível estabelecer tal ponte entre esses dois fenômenos tão importantes e, ao mesmo tempo, tão singulares para a música contemporânea?

Polifonia discursiva sobre MPB e Jazz

“Polifonia discursiva” talvez seja o melhor termo para o que sucedeu no evento, quando as apresentações do grupo “Culturas e Artes” aconteceram. Para começarmos a entender a questão, vale citar o debate acerca da música popular brasileira suscitado pela pesquisadora, cantora e compositora Larissa Caldeira. Em termos biográficos, Larissa morou uma temporada em Dublin, Irlanda, onde estudou harmonia musical no Waltons Music of School, além de ter estudado no Dublin Cultural Institute e participado do projeto Music Matters, com o qual se apresentou conjuntamente no Axis Theather Dublin. Atualmente, cursa mestrado pelo programa de Comunicação e Cultura Contemporânea do Pós-Com, tendo como ênfase os estudos de música, mídia e experiência estética, na Universidade Federal da Bahia (UFBA), localizada na cidade de Salvador-BA, onde hoje reside.

Estudando o sambaA pesquisadora abordou os pontos principais de seu artigo “Estudando o Samba e seus horizontes estéticos”. A respeito da proposta e metodologia de seu trabalho ela disse que “a análise do efeito estético do disco Estudando o Samba de 1976, produzido pelo músico e compositor Tom Zé, remete a uma mudança de horizonte da percepção estética dentro do período de sua produção, década de 70, e nos dias atuais. Assim eu procurei entender como a mídia, a crítica de produtos midiáticos influi nessa percepção, aceitação, atribuição de valor artístico e estético ao disco nos diferentes períodos problematizados. Bem como, busquei compreender como a desconstrução sociocultural e musical do disco remete as experiências estéticas e auditivas nos diferentes públicos e momentos históricos estudados nesse projeto de pesquisa. Neste ponto de ampliação empírica, nota-se Tom Zé para além de tão somente um ‘fabricador de sons’ e perceptivas estéticas, hoje, valorizadas na análise do Estudando o Samba, mas também como um agitador social e cultural a partir da sua descanção e das letras do disco de 1976 como forma crítica e inovadora ao modo de compô-las e ao conceito de que o Samba naquele dado período estava morto enquanto ritmo popular e produto midiático”.

Depois, a apresentação ficou por conta de Alyne Serzedello Vilaça, natural de Rio Claro/SP que atualmente reside em Aracaju. Alyne atua como professora do Curso de Licenciatura em Dança da UFS e faz parte da comissão coordenadora do Projeto de Extensão Aldeia Mangue-UFS. Está concluindo mestrado no Programa de Relações Étnico-raciais do CEFET/RJ e é idealizadora e diretora da Cia JazzcomJazz, criada em 2009 em Viçosa/MG.

Jazz & CoAlyne adentrou nos debates sobre jazz, iniciando sua fala com uma interessante performance à capela da música “Feeling good”, da cantora e musicista Nina Simone. Com o artigo intitulado “Canto de Ossanha diz, jazz é dança”, Alyne enfatizou o uso desse gênero nascido da intersecção entre brancos e negros como ferramenta de empoderamento do negro, atualmente. O uso do que chamou de “corpo e ancestralidade” tendo o jazz como trilha sonora e as diversas imagens de seus projetos abrilhantaram ainda mais o debate. Seu trabalho, em resumo, buscou introduzir reflexões sobre religiosidade, fundamentadas em uma cosmovisão africana contidas na composição coreográfica inspirada na música “Canto de Ossanha” de Baden Powell e Vinícius de Moraes, presente na cena “Voodoo de Tigresa” do espetáculo “Diz!!! Jazz é Dança”, produzido pela Cia JazzcomJazz, vinculada à UFV/MG.

Ainda, representando o empreendimento cultural Música e Sociedade, os trabalhos seguiram através da comunicação oral do músico, escritor e historiador maranhense Tonny Araújo. Vinculado ao Programa de Pós-graduação em Cultura e Sociedade (mestrado interdisciplinar) da Universidade Federal do Maranhão e com o auxílio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Desenvolvimento Científico do Maranhão (FAPEMA), Tonny desenvolve atualmente a dissertação de mestrado intitulada “Do bebop ao bim bom: o jazz híbrido e a modernização da música popular brasileira” e é autor dos livros O lugar do jazz na construção da música popular brasileira: uma análise de discursos na Revista da Música Popular 1950-1956 (Novas Edições Acadêmicas, 2016) e no campo literário O suicida (Editora Aquarela, 2015). Baseado em seu artigo “Balanço do jazz e outras: uma breve análise das primeiras publicações de jazz nacionais (1950-1953)”, o pesquisador enfatizou o crescente interesse de estudiosos no Brasil e no mundo em pesquisar sobre o trânsito do jazz e seus impactos culturais e políticos.

O historiador, nesse sentido, logo de início, defendeu a necessidade de uma análise historiográfica sobre o jazz no Brasil. Para isso, citou o trabalho de pesquisadores no cenário internacional como o historiador americano Daniel Hardie; o trabalho do historiador português João Moreira e a pesquisadora Berenice Corti. No cenário nacional, o pesquisador mencionou grandes estudiosos como Marília Giller, André Egg, Carlos Calado, Jair Labres Filho, Francisco Rocha, entre outros.

Parte do conteúdo discutido, aliás, dialoga com esses pesquisadores no que diz respeito à apresentação das primeiras jazz bands nacionais e das Orquestras da Era do Rádio, representadas no trabalho do historiador, respectivamente, pela Jazz Band Bico Doce e pela Orquestra Sul-americana Brasileira, conhecida anteriormente como Jazz Band Sul-americana Romeu Silva, um dos conjuntos mais importantes quando se trata do intercâmbio cultural promovido pela Política de Boa Vizinhança.

Para fechar o recorte musical que engloba o momento de escrita das primeiras obras nacionais de jazz (principal foco do trabalho), isto é, no começo dos anos 50, Tonny Araújo falou também do samba-jazz, lembrando importantes composições como a versão feita pelo violonista Laurindo de Almeida em conjunto com Bud Shank da canção “Inquietação” de Ary Barroso, bem como a contribuição dos pré-bossanovistas Dick Farney e Johnny Alf e a importância do álbum Braziliance (1967) de Marcos Valle.

Pequena história do Jazz Sergio PortoPara finalizar, se discutiu sobre as semelhanças e as diferenças dos discursos apresentados nas obras sobre jazz analisadas. São elas: Pequena História do Jazz (1953), de Sérgio Porto; Jazz Panorama (1953/1959 – ano da primeira e da segunda edição) de Jorge Guinle e, curiosamente, um livro que saiu em 2013 reunindo artigos sobre jazz do poeta e compositor Vinícius de Moraes, intitulado Jazz & co., tendo organização de Eucanaã Ferreira. Tonny defendeu que, se sob vários aspectos, os autores brasileiros buscaram pensar o jazz como os autores franceses e norte-americanos, há contribuições históricas significativas nessa historiografia do jazz, desde a informação acerca da primeira banda de jazz americana que tocou no Brasil, a Gordon Stretton Jazz Band em 1919 (GUINLE, 2002, p. 90; GILLER, 2014), passando pela militância a favor de que se difundisse ainda mais o jazz no Brasil e até mesmo sua comparação com o samba, prefigurando a noção de uma origem comum aos dois gêneros musicais de raízes negras.

Por fim, a última fala foi de Alexandre Santos de Azevedo, Violonista e professor de música, Graduado em Música pela Universidade Federal de Sergipe Mestrando em Etnomusicologia pela Universidade Federal da Bahia, com o artigo intitulado “A cena do choro em Aracaju”, uma pesquisa inicial que traça um interessante panorama repleto de imagens sobre diferentes bandas e estilos de execução do choro em Aracaju.

Os palestrantes do evento
Os palestrantes do evento

A respeito das impressões deixadas pelo evento e pelos debates ocorridos, Larissa Caldeira disse ter “a certeza de que o Enecult é um dos encontros mais importantes do Brasil no que se refere à pesquisa relacionada à Cultura. O grupo de trabalho de Música popular brasileira foi inovador dentro do encontro, haja vista que foi primeira vez que teve um desse tipo no Enecult. De forma que, para mim foi um privilégio fazer parte do GT, devido às abordagens e temáticas inter-relacionadas e que efetivamente geraram boas discussões e reflexões sobre Jazz e música popular brasileira. Possibilitando uma abordagem histórico, sociocultural, e até mesmo, ligada a experiência estética dos produtos, como a performance e as possibilidades de pensar a Música sobre um viés empírico, mas não-hermenêutico… como uma partilha do sensível e como produção de uma materialidade, ou produção de sentido”. Já Alyne Serzedelo, na ocasião, afirma que considerou “o Enecult um evento importantíssimo para o universo acadêmico, para os fazedores/criadores e consumidores de Cultura e Arte. O GT que tivemos o prazer de partilhar evidenciou a potência das Artes para sofisticar, complexificar e sensibilizar as discussões, observações e análises dos contextos políticos-raciais-culturais e econômicos que estamos inseridos e em que as obras foram construídas. Acredito que três pontos cruciais ficaram ausentes e/ou pouco visibilizados do evento, e não deveriam em tempos de crise parlamentar: primeiro, um posicionamento mais radical contra os golpes vigentes; segundo, no mês da consciência negra e na década do Afrodescendente, observei o pouco incentivo em protagonizar a luta negra, dos movimentos sociais negros que sempre foram culturais. E, a ausência do debate acerca do Genocídio da juventude negra. Debates que em um país em que as Artes e a Cultura são majoritariamente afro-parentes, deveriam ter protagonizado o evento”. Como se pode desprender ao longo dessa crônica, estabeleceu-se um debate sério e enriquecedor sobre jazz e MPB, percebendo que o universo musical é palco de disputas simbólicas, de imaginários, afinidades eletivas, memórias e, sobretudo, historicidade.

Bônus

Acesse aqui os artigos descritos acima.

Referências

GILLER, Marília. Gordon Stretton: Trajetos do Jazz na América Latina – 1920. (Artigo apresentado no XI Congresso da Associação Internacional para o Estudo da Música Popular Seção Latino-americana), Salvador, 2014.

GUINLE, Jorge. Jazz Panorama. 3ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 200