Entre o absoluto musical e a perspectiva histórica e social: apontamentos acerca da filosofia da música de Lydia Goehr

A filósofa Lydia Goehr

Nas últimas décadas, a filosofia da música da inglesa Lydia Goehr vem contribuindo enormemente para algumas das discussões mais importantes da musicologia contemporânea. Professora titular da Universidade de Columbia e professora adjunta da universidade de Berkeley, Goehr tem como um de seus focos de pesquisa a relação entre o objeto musical, sua autonomia e suas perspectivas históricas e sociais. Neste campo, sua contribuição se dá em diversos tópicos que vão desde a construção histórica do conceito de obra de arte musical e sua estética,  até as implicações políticas da música absoluta.

Os diversos aspectos de seu pensamento devem ser, contudo, analisados separadamente. Para isso, este artigo busca fazer uma pequena introdução a cada um destes aspectos através de diferentes escritos da filósofa.

The Imaginary Museum of Musical Works, livro onde a filósofa Lydia Goehr discorre sobre o conceito de obra de arte musical.
The Imaginary Museum of Musical Works, livro onde a filósofa Lydia Goehr discorre sobre o conceito de obra de arte musical.

Em relação ao primeiro ponto, seu livro “O museu imaginário das obras musicais” (The immaginary museum of musical Works) busca apontar as relações históricas na construção de uma estética que separa o objeto artístico, a chamada obra musical, de seu contexto social. Goehr busca escapar da análise puramente teórica e filosófica do objeto artístico ao apontar as limitações que cada definição deste objeto possui. Ao longo da primeira parte do livro, a filósofa nos apresenta uma série de teorias acerca da obra de arte musical encontrando em seus discursos os limites e as contradições inerentes de cada uma das teses. Ao apresentar a insuficiência da análise teórica do objeto musical, Lydia Goehr aponta a necessidade da compreensão tanto da historicidade de tais conceitos, quanto do momento específico em que a emergência de tal autonomia torna-se o ponto focal das práticas musicais: o século XIX.

Lydia nos mostra que o conceito de obra musical passa a regular as práticas musicais ao longo deste século. O respeito à obra de arte musical, às intenções do compositor e mesmo a intenção de se preservar tal obra são, para a filósofa, aspectos práticos e ideológicos de um discurso onde o objeto artístico passa a regular as atividades do campo musical como um todo. Lydia Goehr nos convida assim a analisarmos as profundas diferenças entre uma era em que as atividades do campo musical eram reguladas a partir de sua função social e outro momento histórico, que foca nas propriedades intrínsecas da música sua única razão, seu fim em si mesmo.

No entanto, a preocupação com tais propriedades intrínsecas da música também permeiam outros escritos da filósofa. É o que nos mostra seu artigo chamado “Escrevendo história da música” (Writing music history). Neste artigo, Goehr analisa três obras de três importantes musicólogos da segunda metade do século XX: Carl Dalhaus, Leo Treitler e Leonard Meyer. Sua análise é pautada novamente na insuficiência das lógicas que permeiam o discurso de autonomia musical e a separação entre o objeto artístico e seu meio social.

Goehr
Lydia Goehr

Goehr aponta novamente que a divisão entre a obra e seu entorno não pode ser totalmente resolvida dentro da estética. Neste artigo, no entanto, a filósofa aponta que a prioridade dada ao objeto musical tende a ver as propriedades intrínsecas da música como a sua própria essência e essa essência é observada a partir das propriedades formalistas e estruturais da música. Acontece que todas as visões formalistas da música pressupõem a existência de um “centro específico” do objeto musical e a determinação do que seria este centro é problemática. A separação entre o que pertence ou não a tal centro específico é determinada a partir de um contexto e este contexto, por sua vez, só pode ser observado, novamente, através de sua dimensão histórica e social.

A questão histórica aqui assume, no entanto, uma outra dimensão. Goehr nos mostra que estes musicólogos não partem de um pressuposto que encontra a história como um objeto fechado, pronto a ser redescoberto pelo historiador. Ao contrário: para estes musicólogos existe a consciência de que a história é interpretada a partir do intérprete e essa interpretação está condicionada a interesses e valores (estéticos, políticos e sociais) específicos. A história não é, portanto, um quadro pronto, absoluto, identificável, mas antes, um fruto da própria análise.

Esta análise, no entanto, ao eleger um objeto de interesse, delimita  o que deve ou não deve ser levado em conta na análise do fenômeno observado. A questão se estende até o ponto, portanto, do que se deve levar em conta quando analisamos um objeto musical ou um momento específico da história musical. Assim, a filósofa nos mostra como tais musicólogos encontraram soluções ao mesmo tempo semelhantes e diversas para a questão. O que demonstra Goehr é que suas análises concordam quanto à importância de tomar em conta tanto fenômenos puramente estéticos quanto suas implicações sociais. Tanto a separação completa do objeto artístico do seu meio social quanto a completa imersão deste objeto em uma análise puramente sociológica podem apresentar problemas.

Conclusão semelhante pode ser encontrada em outro artigo da filósofa “Música política e políticas da música” (Political music and politics of music), que desta vez leva em consideração as relações entre o objeto musical e suas implicações políticas no mundo social. Aqui, Goehr parte de algumas importantes questões: pode ser a música absoluta um fenômeno, em si mesmo, político? Quais as relações que este objeto, a princípio independente, guarda com os fenômenos políticos? Goehr nos mostra que esta resposta pode ser encontrada em duas soluções: uma “bruta” e outra “crítica”.

Na primeira solução, ou a música é autônoma ou ela é política. Não existe reconciliação possível. Esta solução está, para a filósofa, profundamente arraigada em uma filosofia romântica que pretendia separar a arte e seu contexto social, filosofia esta que é objeto também de análise nos dois escritos da filósofa mencionados anteriormente. Para esta filosofia, não há discurso possível que possa abraçar tanto o mundano quanto o objeto artístico sem enumerar uma série de contradições aparentemente insolúveis. Assim, a música se encontra antagonicamente posicionada em relação ao universo da política.

Goehr nos mostra que este pensamento “bruto” está arraigado em uma visão do fenômeno musical que encontrou, no século XX, um discurso que apontava que somente na livre sociedade ocidental e seus sistemas econômicos e políticos a música poderia ser, de fato, também livre. Por outro lado, esta visão do fenômeno musical também estava presente em determinados aspectos da visão musical do outro lado da cortina de ferro, onde se condenava parte da produção musical por ser formalista, por não abraçar justamente o conteúdo político dos fenômenos artísticos.

A filosofa Lydia Goehr
A filosofa Lydia Goehr

Residindo em pólo oposto, encontra-se a resposta que a filósofa vai chamar de “solução crítica”. Esta solução abraça justamente as contradições da separação entre os dois universos, o musical e o social, e busca encontrar uma espécie de “meio termo”. Neste sentido, o político não é observado da mesma maneira que a solução “bruta”. De maneira reveladora, a solução crítica enxerga que a música absoluta é, em si, um fenômeno político. A solução crítica enxerga, tal como a bruta, a separação entre o político e o objeto musical, mas, diferentemente da primeira, os ideais que regulam a separação entre música e política não devem ser separados um do outro. Assim, a solução crítica vê as diferenças, mas evita a completa separação. Para esta solução, a autonomia musical possui duas faces, ela é pura e política sem se contradizer: é justamente aquilo que não é social na música autônoma que revela o aspecto social da mesma, pois a música só pode se definir “em relação a” e esta relação é justamente o contexto político e social.

Logo, chegamos num aspecto do pensamento de Lydia Goehr que engloba os amplos fenômenos analisados ao longo de sua obra. Por um lado, a definição do objeto artístico só pode encontrar uma resposta adequada levando-se em consideração a análise da construção do discurso de autonomia musical. Esta é a análise majoritariamente presente em “O museu imaginário das obras musicais”. Por outro lado, a eleição do que deve ou não deve ser analisado dentro do contexto do fenômeno musical é objeto de interesse de seu artigo “escrevendo história da música”. Por fim, nenhuma destas questões podem ser suficientemente tomadas em conta sem se considerar as relações do objeto artístico com o meio político e social.

Concordando-se ou não com o pensamento de Lydia Goehr, um fato  é inegável: não é possível sair de suas análises do objeto musical e sua autonomia sem ampliar significativamente o escopo de nossas análises e a profundidade de nossas próprias intenções.

Referências

GOEHR, L. Writing History of music. History and Theory, Middletown, V. 31, n.2, 1992

– Political music and politics of music, The journal of Aesthetics of art and Criticism, V. 51 n.1, 1994

– The immaginary museum of musical Works. An essay in the philosophy of music. New York: Oxford university press, 2007

Bônus

“Música não é um mistério” Entrevista com Lydia Goehr (Em inglês)

Lydia Goehr
Lydia Goehr