O prazer musical: Epícuro e a filosofia de Filodemo de Gadara

A filosofia musical de Filodemo de Gadara
Arte Música e Sociedade

Filodemo de Gadara foi um filósofo helenístico e epicurista (ver conceitos abaixo) do século I a.C. Em seus escritos sobre música, vai aplicar os fundamentos epicuristas em uma crítica a concepção tradicional de músico e da teoria do éthos, ou seja, da influência da música sobre a alma do ouvinte influenciando-o eticamente. Contudo, antes de discutir sobre Filodemo é necessário verificar quais as consequências do helenismo à filosofia e o que é o epicurismo.

Helenismo, a pólis e a música.

O Helenismo é o período da filosofia após a conquista da Hélade, como os gregos chamavam a Grécia Antiga, e sua anexação ao império de Alexandre o Grande, e seguido com a dominação do território por Roma. Essa mudança em que as pólis (cidades-estados da Antiguidade) perderam sua autonomia política e passaram a ser parte de um estado maior e a decorrente mistura cultural, empreendida por Alexandre, gerou uma crise entre os helenos propiciando novas investigações filosóficas.

Pólis Grega
Representação artística da Pólis Grega. Fonte.

A pólis não era somente uma cidade com autonomia política, mas era uma unidade espiritual em que o cidadão se reconhece e participa, de forma que a pólis é parte do cidadão e este é parte da pólis. Enquanto nós, ainda modernos, pensamos as cidades como locais em que habitamos e nos quais temos experiências que nos formam, para os gregos a pólis é uma parte de si ao ponto de ser exilado, em Atenas por exemplo, era considerado uma pena pior que a morte, afinal, estar obrigatoriamente afastado daquilo que o torna alguém ao perder sua cidadania é uma completa perda de si mesmo, é estar vivo sem poder ser você mesmo. O próprio costume antigo de nomear-se com a pólis de origem advém dessa concepção intrínseca entre ela e a pessoa. No exemplo de Filodemo de Gadara, esta era uma pólis na região da atua Jordânia, diferente de nós que temos em nosso sobrenome familiar parte de nossa identidade.

Nessa concepção, perder a autonomia política e tornar-se parte de um estado maior já se configuraria como uma crise imensa de identidade. Contudo, o Império de Alexandre o Grande também mistura culturas muito diferentes, algo presente também no Império Romano. Dessa maneira, além de perder sua autonomia política passou-se a ser ver anexado a um império multicultural em que as culturas se misturam por ordem do próprio Alexandre. Soma-se a perda da unidade política a perda da unidade espiritual anterior. Como diz Henri-Irénée Marrou: “a cidade é apenas a pequena pátria; não é mais a categoria fundamental, a norma suprema do pensamento e da cultura” (1975, p. 157).

Ver-se como parte de um todo político e cultural maior leva a perguntas: O que sou dentro de um império gigantesco e com tantas culturas diferentes? Como ser grego mesmo não estando na Hélade e sim no Egito, ou na Babilônia, entre outros?

Filodemo de Gadara
Manuscrito de Filodemo de Gadara

Especificamente no campo musical, não se pode esquecer no contato com outras tradições e práticas musicais. Já havia trocas e diálogo antes do helenismo, contudo, ocorria como contato entre diferentes povos através do comércio. Com diversos povos e culturas anexadas em um Império que tem como prática a necessidade de mistura e mescla cultural, no caso de Alexandre principalmente, essas trocas ganham um novo significado. Como apontado ao discutirmos sobre Platão e Aristóteles, a música era pensada como processo formativo de transmissão da cultura tradicional. Nesse âmbito, a necessidade desta e contato com outras tradições e práticas musicais gera situações propícias a novas reflexões sobre música.

Pierre Hadot (1995, 2002, 2012a, 2012b) aponta que nesse contexto não há espaço para reflexão filosófica sobre como a pólis deveria ser, presente em Platão por exemplo, afinal, o que é a pessoa em meio a um grande império? O contexto possibilitou a separação do espaço público e do privado, principalmente em Roma, que antes era misto na pólis. A filosofia é praticada como uma reflexão sobre seu próprio espaço privado, buscando fundamentos na realidade para propor um método de bem viver que possibilite sua realização como pessoa, ou seja, sua felicidade (do gr. eudamonía), por isso Hadot propõe a filosofia enquanto modo de vida como chave de leitura para a produção filosófica do período. Em geral, os filósofos buscam inspiração no modo como Sócrates viveu para estabelecer como objetivo da filosofia.

A filosofia vai funcionar como uma espécie de medicamento (do gr. phármakon) para a alma, pois enquanto os medicamentos travam do corpo, era função dos filósofos cuidarem da alma ao propor modos de vida que alcancem a eudaimonía, a realização plena da pessoa.

Epicurismo

Epícuro, base para Filodemo de Gadara
Epícuro: filósofo fundamental para entender o pensamento musical de Filodemo de Gadara.

Antes de discutir sobre Filodemo de Gadara, é necessário discutir o epicurismo. Epicuro de Samos foi um filósofo helenista do século III a.C. o qual criou a Escola do Jardim, e sua obra a  Filosofia do Jardim. Tinha uma visão materialista do mundo, propondo uma física calcada em átomos movimentando-se no vazio, sendo que tudo que há é derivado do movimento mecânico destes últimos. O movimento dos átomos e seus choques levam a conglomerados que vão originando as diversas coisas existentes, contudo, o materialismo de Epicuro se aplica também aos deuses, por exemplo, os quais seriam compostos de átomos sutis, sendo os humanos compostos ao mesmo tempo de átomos sutis em sua alma e átomos pesados em seu corpo.

Nessa concepção de um mundo composto somente por átomos movimentando-se no vazio, a única possibilidade de um conhecimento verdadeiro é através das sensações puras. Dessa forma, Epicuro contrapõe-se a existência de um outro mundo além do sensível como em Platão, e da possibilidade de conhecer as essências das coisas em Aristóteles, afinal, a sensação impossibilita conhecer em profundidade os processos pelos quais conglomerados de átomos geram todas as coisas existentes.

Partindo de que a única certeza existe é as advindas das sensações, Epicuro propõe o prazer (do gr. hedoné) como objetivo e método de bem viver. Como por muito tempo conheceu-se a obra de Epicuro através das críticas de seus principais adversários, os estoicos, tendeu-se a compreender o epicurismo como uma forma de hedonismo e do prazer desmedido de viver.

No entanto, uma leitura mais acurada e papiros sendo descobertos em Herculano posteriormente, mostram o erro de interpretação. O prazer não é somente o fim, mas o próprio método epicurista. Por exemplo, ao sentir a sensação de fome eu como, porém, quando sentir a sensação de estar satisfeito, eu paro de comer para evitar a sensação de incômodo por ter comido em excesso. Dessa maneira, a hedoné epicurista é um meio de conseguir equilíbrio ao conseguir sanar os anseios e desejos, mas com a devida moderação para evitar a dor e o sofrimento causado pelos excessos. Essa busca por uma justa medida, equilíbrio ou temperança era chamado de sophrosýne pelos gregos antigos. Através da temperança possibilita pela própria sensação de prazer, a pessoa chega ao estado de ataraxia, que pode ser compreendido como tranquilidade da alma.

O prazer epicurista e a música em Filodemo de Gadara

Filodemo, como um epicurista, vai aplicar as ideias de Epicuro para pensar a música, sem necessariamente ser ortodoxo. O princípio de suas proposições é considerar a música não como algo advindo da influência dos deuses, mas uma invenção humana, como diz a Profa. Dra. Lia Tomás: “Para ele a música é um invento humano e não divino e, portanto, é o homem mesmo que controla a música” (2007, p. 153). É factível pensar que o contato de Filodemo de Gadara com outras práticas musicais, algo propiciado pelo contexto helenista, pode levá-lo a questionar a origem extra-humana da música ao se deparar com práticas diferentes, calcadas em teorias e tradições diferentes, somada a compreensão mecanicista dos próprios deuses pelo epicurismo.

Uma representação de performance musical na Grécia

Os efeitos da música sobre o ouvinte para Filodemo de Gadara têm uma explicação meramente sensorial. Para ele, ao escutarmos um som musical o seu efeito é neutro em si mesmo. Podemos utilizar o seguinte exemplo didático: a escuta do coro da Nona Sinfonia de Beethoven é igual para todos, na medida que todos escutam as mesmas sucessões de notas musicais, timbres, e tudo o mais, daí o que difere os efeitos desta sobre o ouvinte são ideias que o texto associa a música.

Ao compreender que o significado musical não derivado da música em si, e sim do texto e outros elementos associados a esta, a música deixa de ter aquele sentido amplo que inclui música, texto, entre outros, para ser mais próximo ao que chamamos de música. Por isso Filodemo vai comentar que:

“Pois deixo de lado que seu aprendizado e seu estudo, cujo objetivo é nosso prazer, são muito dolorosos e, ao mesmo tempo, porque eles sustentam o fosso entre as profissões capitais e [para alcançar] a felicidade, eles continuamente têm o fruto da <improvidência> para quem, como um adolescente, canta e toca a cítara como parte de seu trabalho!” (DELLATRE, 2001, p. 374)

No contexto da citação acima, Filodemo de Gadara discute a relação da música com o lógos, termo grego para razão, negando essa relação questiona a utilidade de estudar teoria musical, pois enquanto a música gera prazer, o estudo de teoria musical é doloroso e exige uma dedicação que tende a afastar o adolescente do desenvolvimento profissional.

Filodemo conclui que a antiga teoria do éthos, da influência da música sobre a alma, é derivada de uma concepção errada de música e mesmo de músico, pois os efeitos da música seriam de sua poesia e não da música em si mesma. Sua crítica tem como consequência que este conceito equivocado sobre música autores levou a erros grosseiros dos autores anteriores, de certa forma, dialogando com a crítica do Papiro de Hibeh. A própria função da música, para Filodemo de Gadara, torna-se estéril no processo formativo para a sociedade, pois a música é somente uma outra experiência como qualquer outra, e não um aspecto essencial da formação dos indivíduos como tradicionalmente era vista, não obstante, seria preciso valorizar o prazer que esta gera.

Por mais que esse último elemento aparente ser uma desvalorização da música, é curioso imaginar o que poderia ter ocorrido ao longo da história da música se ao invés de abraçar a concepção da música como elemento formativo de cunho ético, tendo a pesquisa de seus processos de expressão pessoal como enfoque, tivéssemos abraçado a concepção de Filodemo e tomar a música em sua experiência sonora como seu próprio objetivo. Nisso, Filodemo não somente aplica o epicurismo à música, mas faz uma leitura própria do epicurismo, já que seria possível outras interpretações epicuristas sobre a música. Como nos diz a Profa. Dra. Lia Tomás:

“Mesmo que as justificativas e o contexto de Filodemo sejam completamente distintos daquele no qual se inscreve a discussão sobre a autonomia da música na historiografia musical recente, não há como negar o ponto de vista inovador (para não dizer contemporâneo) de suas asserções. Cabe pensar ainda que, se parte de seus argumentos tivessem sido observados com maior interesse pelos estudiosos, a confusão entre expressão musical e expressão pessoal, ainda hoje tão cara ao senso comum sobre a música, poderia ter sido evitada, assim como a manutenção da falsa ideia de que o objetivo da música – como se houvesse uma relação de causa e efeito entre quem compõe, quem executa e quem escuta – é apenas a expressão dos sentimentos.” (2007, p. 155)

Referências Bibliográficas

AUVRAY-ASSAYAS, Clara; DELATTRE, Daniel (Org.). Cicéron et Philodème : La polémique en philosophie. Paris : Éditions Rue d´Ulm, 2001.

FUBINI, Enrico. La estética musical desde la Antigüedad hasta el siglo XX. Tradução Carlos Guillermo Pérez de Aranda. Madrid: Alianza Edittorial, 2005.

HADOT, Pierre. Elogia da filosofia antiga. Tradução Flávio Fontenelle Loque e Lorraine Oliveira. São Paulo: Edições Loyola, 2012a.

______. Elogio de Sócrates. Tradução Flávio Fontenelle Loque e Lorraine Oliveira. São Paulo: Edições Loyola, 2012b.

______. Exercices spirituels et philosophie antique. Paris: Éditions Albin Michel, 2002.

______. Qu’est-ce que la philosophie antique ? Paris: Éditions Gallimard, 1995.

LIPPMAN, Edward. Musical Thought in Ancient Greece. Nova York: Columbia University Press, 1964.

MARROU, Henri-Irénée. História da Educação na Antiguidade. 4. ed. Tradução Mário Leônidas Casanova. São Paulo: E.P.U., 1975.

TOMÁS, Lia. Vozes dissonantes: precursores da autonomia da música na Antiguidade In: DUARTE, Rodrigo; SAFATLE, Vladimir (Org). Ensaios sobre música e filosofia. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2007. p. 147-157. Link: https://www.academia.edu/6468935/Vozes_dissonantes_precursores_da_autonomia_da_m%C3%BAsica_na_Antiguidade

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Violonista clássico e filósofo. Fez a graduação em Filosofia pela UMESP. É mestrando no Pós-Graduação em Música do Instituto de Artes da Unesp, na área de Musicologia sob orientação da Profa. Dra. Lia Tomás, em que elabora a dissertação intitulada “Compendium Musicæ de Descartes: Possíveis fontes musicais”, com bolsa da Capes. É parte do Grupo de Pesquisa “DE MUSICA: Estética, Filosofia e História da Música” na Unesp.