Leopold Mozart, sua vida e sua relação com o filho

O compositor Leopold Mozart
Leopold Mozart

É importante observar a vida de Leopold Mozart, pai de Wolfgang Amadeus Mozart, pois ela nos apresenta questões importantes que alimentarão a construção da relação familiar, relação esta fundamental para o desenvolvimento da carreira musical de Mozart. Como observa o biógrafo Maynard Solomon, é possível notar que, em certo grau, profundos e intrincados motes moldaram duas vidas que se apresentam em paralelo, onde certos comportamentos e atitudes são reproduzidos de pai para filho, moldando uma estrutura familiar complexa que possui ação direta na carreira de Wolfgang (1996, p. 211).

É curioso observar que tanto Leopold Mozart quanto filho construíram uma história onde ambos negaram as vontades de seus progenitores. Ambos tinham o desejo de ser um músico independente longe da cidade dos pais e apresentaram ao longo da vida atitudes rebeldes que eram reprovadas pela família. A vida dos dois é preenchida de sentimentos contraditórios em relação com os seus e ambos apresentam reflexos claros desta relação na vida profissional.

Leopold cresceu numa família de artesãos que viviam há gerações na pequena cidade de Augsburg. Seu pai, Johann Georg Mozart, era encadernador e sua mãe, Anna Maria Sulzer, filha de tecelão. Johann vinha de uma família profundamente católica, criando seus filhos sob a doutrina cristã. É provável que Leopold Mozart estivesse destinado a ser padre, como seu avô, e esse pode ser um dos motivos pelo qual se tornou quando criança corista dos monastérios locais (1996, p. 22). Seus estudos iniciais tiveram uma ampla gama humanista, tendo contato na universidade com os estudos da lógica, ciência, teologia e retórica. Seus estudos se procrastinaram por longos anos, provavelmente devido ao fato de resistir à carreira religiosa. Largando a universidade de St. Salvador, matricula-se na universidade beneditina de Salzburg para estudar jurisprudência e filosofia tendo sido expulso da instituição após três anos.

Anna Maria Pertl Mozart, mãe de Wolfgnan Amadeus Mozart
Anna Maria Pertl Mozart, mãe de Wolfgnan Amadeus Mozart

Tendo estudado música e sendo um bom violinista – Leopold Mozart chegou a participar como instrumentista nas celebrações anuais da universidade – ele obtém o cargo de músico de câmara de um proeminente conde de Salzburg. Isso marca o início de sua carreira profissional como músico, o que desagradou sobremaneira sua mãe, sobretudo após a morte recente do marido. A crise agrava-se quando Leopold casa-se com Anna Maria Pertl, filha de família pobre. São curiosas as estratégias que Leopold adota para casar-se, incluindo convencer sua mãe que ele retornaria à cidade natal, bem como elaborar uma petição completamente mentirosa à corte de Augsburg, pedindo o reconhecimento de sua cidadania. Sem o auxílio de Leopold, a família, no entanto, prospera com seus dois irmãos seguindo a carreira do pai e principalmente após sua mãe receber uma herança. Mesmo assim, questões financeiras entre mãe e filho são extremamente conturbadas, fato que Leopold Mozart irá reproduzir na sua relação com Wolfgang. Tendo sua mãe falecido em 1766, sua relação com ela permaneceu conturbada até o fim. Anna não chegou sequer a conhecer sua nora e netos.

Em Salzburg, a carreira de Leopold Mozart se desenvolve de maneira um tanto modesta. Após dois anos, ele abandona o cargo de músico de câmara do conde Thurn-Valsassina, ingressando como músico empregado do príncipe-arcebispo de Salzburg e dando aulas para aumentar os seus pequenos ganhos. Fato importante, Leopold jamais atingiu o cargo de Mestre de Capela. Solomon aponta que tal fato se deve muito mais à sua personalidade que seu talento como músico (1996, p. 28). Leopold era incapaz de esconder totalmente seu desprezo pelos poderosos, apesar de suas maneiras controladas e refinadas. Seu rancor era tanto que transpareceu inclusive em passagens diversas de seu famoso tratado de violino. Num dos trechos, citado por Solomon, podemos ver traços desta sua característica:

“O violino – quem acreditaria? – é uma vítima do universal engano da aparência externa. Aquele que valora um pássaro por suas penas, um cavalo pela sua trivialidade também inevitavelmente julgará o violino por sua polidez e a cor do verniz… Isso acontece com todos que julgam com os olhos, não com a mente. (…) Por conta disto, quantos violinos não são valorizados por conta de sua aparência, e o quanto isso não acontece também no fato da vestimenta, do dinheiro, da pompa e especialmente pela peruca encaracolada serem os responsáveis por tornarem um homem um cientista, um conselheiro ou um doutor?” (1996, p. 28).

Antigo edifício da Universidade Beneditina de Salzburg, hoje a Festspielhaus
Antigo edifício da Universidade Beneditina de Salzburg, hoje a Festspielhaus

O sociólogo Norbert Elias, em seu estudo inacabado sobre Mozart, aponta que muitas das características que costumam cercar as relações entre os estabelecidos e os outsiders pontuam a psique de Wolfgang (1995, p. 39). Através da biografia de Solomon, somos informados que o pai também era nutrido por sentimentos relacionados à questão. Membros de uma classe serviçal, Mozart e Leopold tinham que lidar com condições estamentais bem delineadas. Como aponta o sociólogo, “pessoas com posição de outsider em relação a certos grupos estabelecidos, mas que se sentem iguais ou mesmo superiores, às vezes reagem rancorosamente às humilhações que são expostas. (…) Enquanto o poder do establishment permanecer intacto, tanto ele como seu padrão de comportamento e sentimento podem exercer uma atração muito forte sobre os outsiders. O desejo de reconhecimento do outsider faz com que tal objetivo se transforme no foco de seus atos e desejos” (1995, p. 39). É profundamente significativa uma passagem da infância de Mozart onde o pai, em sua companhia, ao passar por uma estalagem em Frankfurt, deixa uma mensagem no vidro de uma janela no qual se lê “Mozart, kapellmeister, da corte de Salzburg, com sua família, aos 12 de agosto de 1763” (1996, p. 62). O rancor produzido pelo fracasso de um desejo (pois, como dito, Leopold jamais chegou a ser mestre de capela) alia-se ao triunfo da turnê de seu pequeno filho, disparando uma combustão de sentimentos reprimidos que são externalizados numa fantasia.

O outsider vivencia afetivamente sua “inferioridade”(2000, p.28), tornando este afeto a mola propulsora tanto do desenvolvimento pessoal em alguns grupos ou indivíduos que rejeitam o estigma, quanto, no extremo oposto, razão de uma estagnação que aceita como legítima a dominação. Pai e filho são mergulhados nesta condição por toda a vida, refletindo-se, é verdade, de maneira diversa em ambos. Se é verdade que certa resignação tomou conta de Leopold Mozart a partir de determinado período da carreira, o sentimento de humilhação foi uma das principais causas de sua obsessão com a carreira do filho (1996, p. 32-33). O pai, prenhe de sentimentos construídos ao longo de sua vida social, projeta-se no filho na esperança de, mesmo de maneira indireta, por fim triunfar sobre seus opressores.

A partir desta complexa teia de sentimentos provenientes de decepções e condições de classe, estabelece-se o fio condutor que unirá as questões sociais, os afetos produzidos no seio dessas relações e o desenvolvimento da relação perturbada entre o pai e o filho, justificada na música, corroborando na construção daquele que é considerado um dos maiores compositores da história.

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Demais textos sobre Mozart

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Referências

ELIAS, N. Mozart: sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995

ELIAS, N & SCOTSON, L. Os estabelecidos e os Outsiders. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000

SOLOMON, M. Mozart: a life. New York: Harper Perennial, 1995

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É o idealizador, criador e proprietário do Música e Sociedade, resultado de uma ampla e densa pesquisa acerca do universo musical pelo prisma da sociedade. Estudou licenciatura em música no Instituto de Artes da UNESP. É também professor nas áreas de composição, piano, história da música e trilha sonora, ministrando uma série de cursos e palestras nestas áreas. É autor de dezenas de trilhas sonoras para as mais diversas mídias, tais como teatro, cinema e dança, além de compositor de música de concerto em uma extensa variedade de gêneros.