Ler história da música. Mas qual delas?

História da música

As grandes narrativas da história da música

O interesse por história da música é muito presente entre vários admiradores, profissionais e pesquisadores. Para os interessados, seja através de biografias, compêndios ou livros de história geral da música, esta leitura será sempre estimulante e, muitas vezes, reveladora. Porém, mesmo dentre as várias opções de leitura, muitos de nós estamos acostumados com uma história da música voltada principalmente para dois eixos principais: a obra musical e seu criador, o compositor. Não é raro encontrarmos narrativas que se atenham à história da evolução da linguagem, dos gêneros e das formas musicais. É assim que dentro do universo da chamada música erudita, por exemplo, muitos de nós aprendemos que, após séculos de evolução da polifonia entre a Ars Antiqua e o final da renascença, o Barroco e o advento da ópera trouxeram o domínio da linguagem homofônica e o surgimento do baixo contínuo. De fato, nada disto está errado. Uma narrativa que propõe a discorrer acerca da história da linguagem musical é legítima. O  importante é saber que estas abordagens não são as únicas. Neste artigo, nossa proposta é introduzir algumas narrativas exploradas pelos historiadores da música. Estas narrativas costumam estar na base de alguns dos principais discursos acerca da história da música, servindo como paradigmas na construção de um olhar específico acerca desta. Para isto, baseamo-nos principalmente em um artigo do musicólogo norte americano Ralph P. Locke, recentemente traduzido para o português pelos musicólogos Paulo Castagna e Jetro M. de Oliveira.

History of musical style, livro de R. Crocker
History of musical style, livro de R. Crocker

Como mostra o musicólogo, a primeira grande narrativa acerca da história da música é justamente aquela que diz respeito à evolução da linguagem musical (Locke, 2015, p. 24). Esta história, profundamente influenciada por uma visão positivista da História, busca encontrar elementos que comprovem o progresso alcançado pelos mais diversos fenômenos musicais ao longo dos tempos. Assim, a partir desta perspectiva, é possível descrever, por exemplo, o papel das sonatas de Haydn no amadurecimento da forma-sonata bem como a posterior evolução desta forma nas sonatas de Beethoven. Assim, comparando o papel assumido pelo desenvolvimento temático, textura musical, harmonia, entre outros elementos, através das sonatas de ambos compositores, pode-se chegar a espécies de provas de um evidente ganho em complexidade nas sonatas beethovenianas, legitimando o discurso da evolução desta forma musical.

Um simples exemplo deste tipo de narrativa pode ser encontrado no livro “A history of musical style”. Neste, o autor Richard L. Crocker, ao explorar algumas das inovações da terceira sinfonia de Beethoven, a Eroica, diz que “com a terceira sinfonia, (…) Beethoven pareceu romper com as formas de Haydn, principalmente na longa coda que aponta o clímax do primeiro movimento. De fato, foi o controle tonal da forma de Haydn que possibilitou Beethoven a desenvolver o surpreendente rítmico momentum desta coda” (Crocker, 1986, p. 416).

O musicólogo Ralph P. Locke
O musicólogo Ralph P. Locke

Um fator interessante a ser apontado com relação a esta narrativa é o fato de que ela nos permite ver o grau de autonomia que o campo da música alcançou. Como mostra o sociólogo Pierre Bourdieu, um dos maiores indícios da autonomia de um campo artístico é a produção de sua história pura, onde apenas os elementos concernentes a este fazer artístico são levados em conta (Bourdieu, 1996, p. 340). Esta progressiva independência do fazer artístico propicia, assim, não somente a possibilidade do surgimento de uma linguagem especializada – no caso da música, utilizar-se de termos como textura musical, harmonia, contraponto, timbre, como pudemos observar no trecho do livro de R. Crocker citado acima – como também de uma história autônoma, alheia aos fatores sociais que possam ingerir na produção musical por mais independente que esta seja.

Uma segunda tendência dentre as grandes narrativas apontadas por Locke é aquela que ele vai chamar “doutrina romântica do grande homem” (Locke, 2015, p. 25). Esta narrativa está no cerne da produção de muitas das biografias de compositores, principalmente aquelas cujos discursos possuem um tom romantizado.  Esta forma de narrativa está profundamente conectada com um discurso idealista do mito criador. Este discurso geralmente idealiza a figura do compositor e busca formar a ideia de um artista em tempo integral, interpretando basicamente qualquer ação tomada pela personagem analisada como um caminho único e evidente que levará o artista à criação de suas “grandes obras primas”. Desta maneira, muitas dessas biografias costumam reforçar o que se chama de comportamento de artista: independente, resoluto, cuja vida é consagrada unicamente à arte. Este discurso, em sua forma mais incisiva, tende a minimizar ou mesmo ignorar, tomadas de posição (ações) que pareçam contradizer a narrativa desta espécie de herói destinado aos grandes feitos. Assim, para utilizar uma expressão cunhada por Pierre Bourdieu, estas narrativas que cercam o mito criador tendem a criar uma espécie de ilusão retrospectiva, justificando toda e qualquer ação do compositor como indícios de suas criações futuras.

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Biografia de Emil Ludwig

Como exemplo, basta observar uma passagem da biografia escrita por Emil Ludwig acerca de Beethoven. Esta biografia possui fortes traços idealistas e diversos momentos onde a referida ilusão retrospectiva se faz presente. Numa passagem referente à infância de Beethoven, diz o biógrafo que “cedo se gerou (em Beethoven) a contradição, o começo da revolta interior que o devia isolar do mundo. Perante tais experiências o seu orgulho indomável e a necessidade de independência revoltaram-se. Insurgiu-se ainda contra o espírito de obediência e de submissão da sua família (…) O amor a liberdade, que caracterizou mais tarde sua vida e sua obra, nasceu dos sofrimentos e das humilhações da infância” (Ludwig, P. 18).

À esta narrativa do grande homem agrega-se, como lembra o musicólogo Locke, uma terceira narrativa, a que limita a análise musical a uma sucessão de obras consagradas (Locke, 2015, p. 26). Neste ponto é importante salientar que tanto a narrativa que enfoca no cânone musical, quanto aquelas relacionadas à evolução da linguagem musical e a  do compositor-criador estão fortemente conectadas à ideia de autonomia, já citada anteriormente. Todas estas narrativas buscam, de certa maneira, isolar sua análise do contexto social que cerca a produção da obra musical e a vida do compositor.

Rumo a outras histórias da música

Theodor Adorno e a sociologia da música
Theodor Adorno e a sociologia da música

No entanto, ao longo do século XX, a musicologia viu surgir uma série de outras abordagens da história da música que buscaram aproximar os contextos sociais da análise musical. Em um primeiro estágio, muitas destas abordagens sociais recorriam a teorias de fundo marxista para construir a análise da produção musical. Theodor Adorno, um dos nomes mais significativos da Escola e Frankfurt, exerceu uma profunda influência em musicólogos que buscavam analisar o fenômeno musical a partir de seu contexto social. Uma grande referência para estes musicólogos foi, por exemplo, o livro “Introdução à sociologia da música”, onde pode-se encontrar, dentre outras questões, a formulação do conceito de indústria cultural que é até hoje profundamente discutido.

Já a partir de 1970 uma série de inovadoras análises tomam corpo dentro da musicologia histórica. Excetuando-se exemplos como o de Adorno, é  principalmente a partir deste período que a musicologia histórica buscará em outras áreas do conhecimento humano ferramentas para a análise do fenômeno musical. Assim, pensadores de diversas áreas como Norbert Elias, Michel Foucault, Pierre Bourdieu, Erwin Panofsky, dentre muitos outros, passaram a influenciar a musicologia. A partir de então, um dos conflitos mais marcantes dentro da musicologia histórica é justamente o questionamento das grandes narrativas históricas. Como lembra o musicólogo Fidel Rodriguez Legende, o impacto de obras de sociólogos como Jean-François Lyotard e seu livro “a condição pós moderna” põe em cheque a própria verdade do conhecimento produzida pelas grandes narrativas (Legendre, 2003, p. 34). É o momento onde uma série de novos métodos de análise são propostos por várias esferas do conhecimento. Esta espécie de crise reflete-se também na própria musicologia que abre espaço para outros campos do conhecimento.

Capa do livro "Cultivating Music", de David Gramit
Capa do livro “Cultivating Music”, de David Gramit

Assim, uma série de paradigmas são colocados em xeque. Para ficarmos apenas em reduzidos exemplos, uma das grandes narrativas adotadas durante longos anos por musicólogos, o que podemos chamar de germanocentrismo da música, passa por uma profunda revisão. Esta narrativa passa a ser reconsiderada em paralelo ao ganho de importância que outras pesquisas acerca de outras regiões do globo e sua música adquirem. A ideia da superioridade musical alemã, fruto em grande parte de uma musicologia que é germinada e sistematizada em território alemão, passa a ser confrontada com uma musicologia que atenta para fenômenos musicais exteriores. Assim, a narrativa germanocentrista da história da música passa a ser entendida, por parte dos musicólogos, como uma narrativa que também possui seus interesses ao centrar a Alemanha e a Áustria como  a tradição máxima musical, pelo menos a partir do classicismo. Esta visão, que leva em grande parte a ideia de que existe a música alemã e à parte dela, nacionalismos diversos com suas diversas excentricidades passa a ser entendida por outros prismas. Estudos como, por exemplo, o de David Gramit, chamado “Cultivating Music: the aspirations, interests and limits of german musical culture” buscam entender a formulação histórica da ideia de uma Alemanha como pátria da música ao mesmo tempo que buscam estudar os interesses por detrás de tais discursos.

A filosofa Lydia Goehr
A filosofa Lydia Goehr

A questão vai além. Não é somente a ideia deste germanocentrismo que é reavaliada. A própria ideia de cânone musical é fruto de estudos diversos. A filósofa norte americana Lydia Goehr foi responsável por um dos melhores estudos acerca da ideia de obra de arte musical e da formação de seu cânone. Seu livro “The imaginary museum of musical Works” propõe ler a ideia de obra de arte musical a partir de um contexto histórico, observando sua gênese e ideologia.

Um outro aspecto a ganhar corpo nas últimas décadas é o estudo da música popular. Durante muito tempo, este estudo esteve relegado à segundo plano, sendo considerado inferior às pesquisas relacionadas à “grande arte musical”. Na esteira desta profunda revisão do conhecimento musicológico, pesquisas relacionadas à música popular vem ganhando cada vez mais força. No Brasil, hoje em dia, já não é incomum ver pesquisadores dedicarem seus estudos à análise social e cultural de fenômenos musicais populares e brasileiros. E mesmo no exterior, uma própria história da música popular vem sendo alimentada com importantes estudos, como é o caso do livro “The sounds of the metropolis” do musicólogo  D. Scott.

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Os estudos acerca do papel da mulher na música são cada vez mais numerosos.

A profusão de estudos que hoje em dia são produzidos é imensa é fogem em muito os limites deste artigo. Por último, no entanto, é importante salientar mais uma área de pesquisa que vem se tornando cada vez mais importante. Trata-se das questões relacionadas ao gênero. Muitos estudos tem dado ênfase no papel da mulher ao longo da história da música. O resgate de compositoras, a análise da importância das mulheres como musicistas profissionais já no século XIX, dentre outros aspectos, são hoje motivo de importantes e imprescindíveis debates ao ponto de podermos dizer, sem exageros, que esta área de pesquisa é um dos maiores ganhos da musicologia nos últimos anos.

Enfim, pesquisar, escrever e ler história da música são atividades que comportam uma série de análises que hoje ultrapassam consideravelmente as antigas metodologias. É importante salientar que cada uma destas novas áreas de pesquisa produz também seus desdobramentos e seus críticos que, muitas vezes, acrescentam pontos importantes a serem levados em consideração. A história não é mais um universo fechado, inerte, um quadro pronto a ser narrado. É cada vez mais relevante a percepção que entre o objeto histórico de estudo e o pesquisador, existem formulações, pensamentos e ideologias que constantemente reformulam e reinterpretam o passado. Como lembra a já citada filósofa Lydia Goehr, muitos historiadores da música hoje concebem o conhecimento como um processo que une o conhecedor (pesquisador) e o conhecido (objeto) através de interpretações que possuem interesses e valores próprios (Goehr, 1992, p.183).

Assim, vale lembrar uma espécie de provérbio que diz: a história é um outro lugar: lá eles fazem as coisas de maneiras diferentes.

BOURDIEU, P. As regras da arte. São Paulo: Companhia das Letras, 1996

CROCKER, R. A history of musical Style. New York: Dover Publications, 1986

LOCKE, R. Musicologia e/como preocupação social. Per Musi, Belo Horizonte, n.32, 2015 p.8-52

LUDWIG, E. Beethoven. Lisboa: Editorial Aster, 1962

GOEHR, L. Writing History of music. History and Theory, Middletown, V. 31, n.2, 1992

LEGENDRE. F. De la história de la música a la historia cultural de la musica. Revista de la sociedade venezolana de musicologia, Caracas, n.4, 2003

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É o idealizador, criador e proprietário do Música e Sociedade, resultado de uma ampla e densa pesquisa acerca do universo musical pelo prisma da sociedade. Estudou licenciatura em música no Instituto de Artes da UNESP. É também professor nas áreas de composição, piano, história da música e trilha sonora, ministrando uma série de cursos e palestras nestas áreas. É autor de dezenas de trilhas sonoras para as mais diversas mídias, tais como teatro, cinema e dança, além de compositor de música de concerto em uma extensa variedade de gêneros.