Mozart e o mercado musical na Viena do século XVIII

O mercado musical
Quadro inacabado de Mozart pintado por Joseph Lange

Entre os estudiosos da vida de Mozart, em certo grau, é difundida a ideia de que ao compositor, morto em 1791, foi negado ver as possibilidades que se ampliaram consideravelmente para aqueles músicos que desejavam empreender carreiras individuais, lançando-se à competição do mercado freelance. Se é inegável que o século XIX descortina uma profusão de meios de empreender carreiras no mundo musical muito maior que o século anterior, não devemos, no entanto, exagerar o “fracasso” da tentativa de Mozart de construir uma carreira independente no século XVIII. Essa visão binária, que transita entre o sucesso e o fracasso, impede de lançar luz na carreira do compositor austríaco bem como no mercado musical do século XVIII. O que vemos ao longo do século é um crescente movimento em direção ao empreendimento freelance que só seria alcançado em meados do século XIX, ancorado nos efeitos da dupla revolução: a francesa e a industrial.

Viena em meados do século XVIII
Viena em meados do século XVIII

Muitos são os musicólogos e historiadores que colocam Mozart no ponto central entre a transição do antigo sistema para o livre mercado da música. Esta é, até certo ponto, a visão do sociólogo Norbert Elias. Seu argumento reside no fato de que Mozart buscou empreender uma carreira independente num tempo onde a estrutura social não estava totalmente preparada para oferecer tal possibilidade ao artista (Elias, 1995, p.31). O economista F. M. Scherer, no entanto, em seu livro “Quarter notes, Bank notes: the economics of music composition in the eighteenth and nineteenth centuries”, nos dá uma visão menos taxativa da transição rumo ao livre mercado musical que se opera durante os séculos XVIII e XIX. Segundo Scherer, “uma transição do sistema patronal (de financiamento) ao livre mercado da composição de fato ocorreu, mas esta foi muito mais gradual e evolucionária do que implica aquela que coloca o foco em Mozart como uma figura de transição” (Scherer, 2004, p. 2). De acordo com o economista, pode-se perceber antecedentes de um mercado freelance antes de Mozart, como também pode se ver a sobrevivência do antigo sistema após a morte do compositor. É esse enfoque que nos permite explorar os primeiros anos de Mozart em Viena numa perspectiva menos dualista, encontrando momentos de sucesso na carreira independente do compositor.

Segundo o biógrafo Maynard Solomon, Mozart, embora sem deixar de nutrir esperanças de conseguir um cargo na corte, aceitou o desafio de empreender sua carreira de maneira independente, atuando em uma série de atividades empresariais no mercado musical não somente como compositor, mas também em áreas que incluíam a impressão e publicação de diversos tipos de material, além de buscar espaço como intérprete. Solomon segue argumentando que, “no espaço de poucos anos, (Mozart) sucederia em alcançar amplos segmentos da sociedade, maiores, talvez do que aqueles alcançados por Haydn ou Beethoven, pois obteve o apoio do imperador Joseph II e a alta corte vienense” (Solomon, 1996, p. 285). Sem o propósito de adentrar em comparações, podemos apontar que Mozart conseguiu constituir uma vida confortável em seus primeiros anos em Viena devido sua disposição de abrir caminho no mercado musical.

Mozart
Mozart

Tendo focado sua carreira em performances públicas, ele pôde dedicar-se a produzir uma imensidão de peças musicais que, certamente, não estariam no repertório canonizado pela música clássica se Mozart não tivesse alcançado sucesso em seus empreendimentos, que exigiam sempre novidades para estar em evidência. Uma das maiores percepções empresariais de Mozart foi notar que o mercado musical vienense não era um mercado monolítico e sim um mercado social e musicalmente variado, abrindo possibilidades para a exploração de uma profusão de gêneros (Solomon, 1996, p. 286). Mozart, então, dedicou-se a criar obras musicais que pudessem atender a este amplo leque de gostos, aventurando-se nos mais diferentes estilos e gêneros. Lidando com uma ampla gama de gostos e classes, numa era em que ainda não era ideologicamente proibitivo se dedicar a amplos gêneros musicais e nem condenatório buscar o sucesso comercial com a arte, Mozart atingiu prestígio desde a alta corte vienense até frequentadores de concerto e salões de toda a espécie. Sua sede empresarial o levou a desenvolver, como veremos abaixo, uma série bem sucedida de concertos públicos, ao mesmo tempo que alimentava a ideia de empreender, por conta própria, a produção de suas óperas, tomando para si os riscos e os lucros. Como empreendimentos de tal escala exigiam uma larga soma de capital para o investimento prévio, Mozart foi atrás de parceiros que pudessem se interessar em produzir conjuntamente, por exemplo, uma série de concertos (Solomon, 1996, p. 290).

Para se ter uma ideia do alcance de tal relação entre a produtividade de Mozart e a demanda, é interessante olhar algumas das obras, hoje consagradas, que foram escritas em busca da conquista do mercado musical em seus primeiros anos em Viena. Nos primeiros nove meses de 1782, Mozart escreveu para o mercado as duas árias para soprano “Der Liebe himmlisches gefühl” K. 119/382h e “Nehmt meinen dank holden gönner” K. 383h, além de diversos cânones, minuetos para orquestra e peças variadas para piano. Dentre as produções mais significativas, encontram-se a sinfonia “Haffner” K. 385, a fantasia para piano em ré menor K. 397/385g e a serenata em Dó menor K. 388/384a.

Tal produtividade, como vimos, certamente abriu a possibilidade de marcar profunda presença em diversos gêneros, tornando-se referência até nossos dias. Tal argumento é validado ao olharmos, por exemplo, a produção orquestral de Mozart. Um dos efeitos maiores desta demanda de produtividade está na composição dos concertos para piano. Ainda mais, podemos afirmar, sem incorrer em exagero, que foi também através desta demanda, alimentando a prolífica produção de concertos, que permitiu ao gênero a consagração que hoje desfruta.

No mesmo ano de 1782, Mozart deu um concerto no qual ele apresentou seu concerto para piano em ré maior, K. 175. O sucesso estrondoso que alcançou abriu sua percepção para a possibilidade de encontrar no concerto para este instrumento um mercado promissor. Uma série de concertos foram escritos e apresentados com Mozart ao piano para esta finalidade. Em 1783, escreveu os concertos K.414/385p, K.413/387a, e K.415/387b para uma série de concertos de subscrição que promoveu no período. Como a competitividade pelo uso das salas de concerto imperiais era muito grande, Mozart, assim como os demais compositores, só obteve autorização de fazer um único concerto por subscrição ao ano. No entanto, diante da enorme demanda, ele encontrou alternativas pouco usuais, apresentando diversos outros concertos por subscrição em outros salões, como o Trattnerhof e o Mehlgrube (Solomon, 1996, p. 291). Basicamente sem precedentes, seu sucesso em tais concertos foi tão grande, que superou em muito a média de concertos da época empreendidos por um único compositor: em 1784, foram quatro; em 1785, dez e, mais quatro em 1786. Nos salões aristocráticos, apresentou-se por no mínimo dezoito vezes em 1785, um número extremamente impressionante.

Maynard Solomon
Maynard Solomon

É interessante notar em seus concertos para piano desta época a intrusão de questões materiais na estética e composição das obras. O sucesso de seus concertos atraíam uma diversidade grande de gostos, fato que fez Mozart contrabalancear sua música entre a arte e o comercial. Escrevendo a seu pai, Mozart aponta que “esses concertos são um meio próspero entre o ligeiro e o demasiadamente artístico; eles são muito brilhantes, agradando ao ouvido sem serem frívolos. Há passagens aqui e ali onde somente connoisseurs encontrarão satisfação, mas essas passagens são escritas de tal maneira que os menos eruditos não deixarão de se sentir satisfeitos, mesmo que não saibam o porquê” (Solomon, 1996, p. 293).

Transitando entre o ligeiro e o artístico, Mozart pôde encontrar um mercado ansioso por consumir música. Se sua carreira encontrou fortes abalos e terminou em franco declínio, fazendo surgir o discurso do fracasso mozartiano de seu último ano, não encontraremos, no entanto, na ausência de um mercado musical o motivo para tal acontecimento, como insistem algumas análises. Os últimos anos de Mozart devem ser analisados sob um espectro mais amplo que, envolvendo também o financeiro, não deixe de fora questões simbólicas como mudanças do gosto e de práticas musicais.

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Referências

ELIAS, N. Mozart: sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995

SCHERER, F. Quarter notes and Bank notes : the economics of music composition in the eighteenth and nineteenth centuries. New Jersey: Princeton University Press, 2004

SOLOMON, M. Mozart, A life. New York: Harper Perennial, 1996

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