Música e Política: a Nona Sinfonia de Beethoven, segundo o livro de Esteban Buch

Beethoven, por Max Klinger

Desde a primeira metade do século XIX, a nona sinfonia de Beethoven é uma das obras mais emblemáticas da história da música. Sua consagração ultrapassa fronteiras de gêneros e estilos, tornando-se uma das obras musicais mais conhecidas de toda a humanidade. De fato, há muito tempo, a nona sinfonia deixou de pertencer somente ao campo da música clássica de tal modo que podemos dizer que, nos dias atuais, o tema coral do último movimento pertence mais à cultura de massas do que às salas de concerto. Sendo ostensivamente interpretada e reinterpretada nas mais diversas leituras musicais possíveis, esta composição ultrapassou os interesses exclusivos ao campo musical: já no século XIX, a política descobriu nesta sinfonia funções as quais o próprio compositor jamais poderia imaginar. Completamente alheia às intenções originais de Beethoven, a nona foi e é utilizada como música política pelas mais diversas e contrastantes correntes ideológicas servindo assim aos mais surpreendentes propósitos. É justamente a história desta sua utilização política que o musicólogo argentino Esteban Buch desvenda em seu livro Música e Política: a Nona de Beethoven.

A Apoteose de Beethoven, Jean Paul Laurens
A Apoteose de Beethoven, Jean Paul Laurens

Buch desvenda as relações da música com o campo da política valendo-se de dois tópicos principais: no primeiro, analisa o surgimento do estilo heroico e da música de Estado moderna. Nesta parte da obra, somos apresentados à gênese da ideia de hino nacional passando pela criação do hino inglês God Save the King até o surgimento do Canto de Guerra para o Exército do Reno, que viria posteriormente a ser conhecida pelo nome de A Marselhesa. Atento às complexas movimentações do jogo político europeu no século XIX, Buch encontra na manipulação do estilo heroico pelo Estado, a instrumentalização da música como ferramenta que serve desde propósitos revolucionários até às reações conservadoras pela elite aristocrática europeia, antecipando a utilização da nona sinfonia pelos mais diversos espectros políticos.

O autor consegue esta proeza ao afastar do foco qualquer intenção de análise ontológica da sinfonia de Beethoven. Se neste livro Buch parte das concepções originais do compositor e do significado primeiro de sua obra, é somente para dimensionar as mais profundas metamorfoses que uma obra autônoma, criada no seio do campo musical, pode alcançar quando encontra objetivos alheios aos interesses puramente musicais.  Assim sendo, encontra-se aqui menos um estudo acerca da nona sinfonia e mais uma análise do papel da música enquanto ferramenta para o Estado.

Deixando claro que a intenção original da obra pode ser camuflada para os mais variados interesses políticos, Esteban Buch analisa na segunda parte do livro, a mais relevante da obra, a utilização da nona para diversos propósitos políticos. Assim, é interessante notar como esta composição de Beethoven assume um protagonismo tanto nas discussões acerca da identidade da comunidade europeia, buscando na nona sinfonia o que mais ela possuía de “europeu”, até sua utilização como ferramenta de doutrinação nacionalista na Alemanha de Hitler ou como um hino libertador do movimento contra o Apartheid. Desta maneira, podemos perceber claramente que as próprias disputas internas acerca dos significados musicais das mais diversas obras podem encontrar seu equivalente no seio do campo da política, basicamente abandonando seu sentido puramente musical para virar uma espécie de conceito no campo político.

Música e Política: Nona de Beethoven.
Música e Política: Nona de Beethoven.

Neste momento, é relevante lembrar o que diz o sociólogo Pierre Bourdieu no livro O sociólogo e o Historiador. Nesta obra Bourdieu afirma que “as próprias palavras que utilizamos para falar daquilo que falamos são alvo de interesses diferenciados, são utilizadas de maneira diferente pelos agentes políticos. Por exemplo, um dos princípios da luta política consiste em lutar pelas palavras comuns: quem é republicano? Todo o mundo é republicano; em período de eleição, falar-se-á em disciplina republicana, em solidariedade republicana, etc. Todo o mundo situa-se no centro… Em suma, há palavras que, sabe-se, adquirem seu valor na luta pelo fato de serem alvo da luta entre interesses diferenciados” (Bourdieu, 2011, p. 27). Se entendermos que a nona sinfonia foi e é utilizada como elemento-chave na luta entre diversos espectros ideológicos, podemos entender que é no seio dessas batalhas que se opera a significação política desta e das mais variadas obras musicais, independente da vontade primeira de seus criadores. Em outras palavras, longe de uma concepção única ou uma verdade absoluta, o significado da música para a política se encontra na própria luta que gera este significado.

Desta maneira, muito além dos interesses musicais específicos, este livro de Esteban Buch é uma excelente contribuição no entendimento de como opera no seio do campo do poder as transformações que podem culminar na utilização de um mesmo objeto musical, seja ele a sinfonia de Beethoven ou um hino nacional, para os mais diferentes propósitos políticos.

Referência

BOURDIEU, P. & CHARTIER, R. O sociólogo e o historiador. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012

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É o idealizador, criador e proprietário do Música e Sociedade, resultado de uma ampla e densa pesquisa acerca do universo musical pelo prisma da sociedade. Estudou licenciatura em música no Instituto de Artes da UNESP. É também professor nas áreas de composição, piano, história da música e trilha sonora, ministrando uma série de cursos e palestras nestas áreas. É autor de dezenas de trilhas sonoras para as mais diversas mídias, tais como teatro, cinema e dança, além de compositor de música de concerto em uma extensa variedade de gêneros.

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