O aprendizado musical de Mozart

Aprendizado musical de Mozart por Leopold Mozart
Mozart quando criança

Dentre os vários conceitos desenvolvidos pelo sociólogo Pierre Bourdieu, o conceito de capital cultural é um dos mais importantes. Bourdieu mostra que para além do capital financeiro, do material, possibilitando a reprodução da sociedade e do sistema de classes, existe um outro capital igualmente importante, um capital simbólico que pode ser definido como um capital que dá acesso a privilégios culturais, “recursos raros, que são distribuídos desigualmente, do quais uns tem mais que os outros” (Carles, 2001, 10’55). Tal capital dá acesso a um conjunto de possibilidades distintas tão mais importantes quanto maior o capital cultural adquirido

Frente a ideologia dos gostos, há basicamente duas formas de se adquirir um capital cultural: uma delas diz respeito aquele herdado da família, uma espécie de “aprendizado total, precoce e insensível, efetuado desde a pequena infância no seio da família” (Bourdieu, 2013, p. 65), distinguindo-se daquele adquirido “tardiamente, de maneira metódica e acelerada”. A primeira forma de se adquirir tal capital distingue-se pela possibilidade de manter com relação à alta cultura uma relação íntima, naturalizada. Com a música, como não poderia deixar de ser, é percebido o peso que tal capital tem na reprodução social dos gostos e na formação dos assim chamados “talentos natos”. Com Mozart não foi diferente.

Salzburg, cidade natal de Mozart
Salzburg, cidade natal de Mozart

A relação de Mozart com a música se deu de forma extremamente precoce. Mozart tinha três anos quando sua irmã, com sete, começou os estudos de cravo com o pai, um grande educador musical. Como lembra o biógrafo Maynard Solomon, Mozart acostumou desde essa época a sentar-se durante horas diante do cravo e aos quatro já usava o “livro musical de Nannerl”, um conjunto de peças compostas pelo pai com dificuldades progressivas para ser usado na educação musical da irmã (Solomon, 1995, p. 38). Não é de se espantar que o contato extremamente precoce de Mozart o auxiliou sobremaneira a criar uma rara intimidade com a música.

Junto a este fato, Wolfgang possuiu desde a mais tenra infância um desejo exacerbado de ser amado. O trompetista da corte Andreas Schachtner nos dá uma boa dimensão desta necessidade ao lembrar que na infância Mozart “geralmente perguntava umas dez vezes por dia se eu o amava e, quando, por brincadeira, dizia às vezes que não, lágrimas brilhantes saltavam de seus olhos” (Solomon, 1995, p. 6). Tal desejo perpetuou-se através de toda a sua vida e teve um papel fundamental na sua infância. Como mostra Norbert Elias, tal pulsão encontrou na música sua sublimação: cada conquista musical adquirida por Mozart era recompensada com expressões de afeto e amor pelo pai (Elias, 1995, p. 77). Pode-se ver neste ponto da vida de Mozart o casamento perfeito das necessidades complementares de pai e filho. Enquanto Leopold depositava em seu filho a esperança de sucesso social e financeiro, incentivando seu filho constantemente em seus progressos musicais, Wolfgang via-se recompensado de afetos ao cumprir as vontades do pai.

O sociólogo Norbert Elias
O sociólogo Norbert Elias

Tal ciclo familiar gerou, apesar dos desgastes futuros, seu bônus na infância de Mozart. Norbert Elias aponta que desde cedo o compositor mostrou uma condição particularmente forte para transformar as energias instintivas através da sublimação (Elias, 1995, p. 59) e pôde concentrá-las, desde muito cedo, em processos específicos (Elias, 1995, p. 83). No momento que descobriu a música, seu interesse em outras ocupações morreram, até aqueles dedicados às brincadeiras infantis (Solomon, 1995, p. 39). Tendo sido o pai o único educador de Mozart na infância, focado em instruí-lo na sua profissão e não tendo este nenhum tutor particular nem frequentado qualquer escola, a criança canalizou através do projeto estipulado e estimulado pelo pai, a se dedicar praticamente de modo exclusivo à música sem nenhuma outra preocupação (Solomon, 1995, p. 40). Basicamente nenhuma atenção específica foi dada na educação da criança além da musical. O processo da construção da genialidade de Mozart é plantado na semente própria das necessidades e das relações de sua família.

Tais afirmações podem parecer chocantes, pois vão entram em choque com a ideologia do gênio. É necessário dedicar algumas palavras a tão importante embate. A ideologia do artista e do mito criador está profundamente arraigada no conceito de genialidade, principalmente sob o discurso plantado pelo romantismo. Como nos mostra Pierre Bourdieu, a ideologia do dom, da predestinação e do talento está intensamente conectada ao processo de autonomização do campo artístico que nega toda a relação entre a arte e o social (Bourdieu, 1996, p. 217). Este discurso toma forma na esteira de um sistema ideológico onde se insere “a concepção da criação como expressão irredutível da pessoa do artista” (Bourdieu, 2012, p. 185), perpetuando uma “relação encantada” entre o artista e sua obra que impede de encontrar as relações sociais objetivas das construções artísticas.

Mozart quando criança
Mozart quando criança

Norbert Elias acrescenta muito à discussão ao afirmar que o conceito de genialidade é um dos elementos que se coloca como mistério entre o artista e sua condição humana. Como atenta o sociólogo, tal conceito assume seu significado moderno na esteira do processo civilizatório que representa uma tentativa de pacificar os impulsos animais indomados através de impulsos compensatórios gerados socialmente, ou mesmo na tentativa de sublimar tais impulsos culturalmente (Elias, 1995, p. 55). Elias ainda elabora o argumento ao mostrar que o conceito de gênio pode estar ligado a um estágio não superado do processo civilizatório que tende a dividir a humanidade em duas categorias abstratas, como “natureza” e “cultura” ou “corpo” e “mente”, sem verificar a conexão entre os fenômenos que tais conceitos referem. Tornar humana a figura do artista contribui, portanto, para o entendimento do intrincado tecido que compõe nossas relações sociais historicamente construídas e nossas ações.

Investigar os fatores sociais e psicológicos do talento de Mozart é de maneira alguma uma tentativa de diminuir sua importância ou de desmerecer seus feitos. O que é importante é perceber aqui a raridade de situações únicas que propiciaram a expansão artística de Mozart a atingir alto grau de realização.

 

Referências

BOURDIEU, P. A distinção: crítica social do julgamento. Porto Alegre: Zouk, 2013

BOURDIEU, P. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2012

BOURDIEU, P. As regras da arte. São Paulo: Companhia das Letras, 1996

ELIAS, N. Mozart: sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995

SOLOMON, M. Mozart: a life. New York: Harper Perennial, 1995

 

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