As batalhas pelo significado dos conceitos musicais

Ilustração francesa, "Jardin de l'Harmonie".

“O artista é aquele de quem os artistas dizem que é um artista”

Pierre Bourdieu, em “Questões sobre arte a partir de um escola questionada”

(Bourdieu, 2010, p. 25)

O que é, pois, música? O que define os conceitos musicais?

Conceitos como música, obra de arte, arte, entre tantos outros, podem parecer extremamente complexos de serem respondidos. O que gera tal complexidade? O sociólogo francês Pierre Bourdieu pode nos ajudar a entender a questão. Para tanto, devemos conhecer alguns de seus conceitos e terminologias.

Bourdieu trabalha com o conceito de campos sociais. O que seria isto? Um campo, para o sociólogo, é um espaço de luta onde existe um interesse específico em jogo, em que agentes duelam através destes jogos internos cujas regras são definidas pelas leis inerentes a cada campo e são conhecidas por todos dispostos a participar deste jogo. Cada campo possui suas próprias regras, suas possibilidades de ação. A arte é um campo. A música em si é também um campo. O que isso quer dizer?

Significa que, no campo musical, os agentes internos duelam pela hegemonia da definição do que é música. Os produtores musicais posicionam-se dentro do campo, onde a posição é também a defesa de um discurso e de uma definição do conceito de música, de determinadas obras de arte.

Pierre Bourdieu
Pierre Bourdieu

Tomemos como exemplo a chamada “guerra dos românticos”. Um dos capítulos mais importante desta batalha é a querela entre os wagnerianos, defensores do drama musical, e os defensores da música pura, que viam esta como legítima somente se fosse completamente independente do drama e do texto. Podemos enxergar aqui uma querela acerca da legitimidade dos produtos musicais (composições) onde cada compositor se alinhavava a um discurso. Conhecemos como uma série de lutas internas foram travadas entre aqueles que se consideravam wagnerianos e aqueles que defendiam a pureza total da obra musical, a exemplo de Schumann ou Brahms. Quais acusações desferiam ambos os lados? Através da negação, consideravam que o que o outro fazia não era música. Defendiam uma posição no campo onde a hegemonia seria daqueles que consideravam música legitimamente verdadeira o drama musical. Por outro lado, os defensores da música pura acusavam os wagnerianos de blasfêmia. Em torno desta luta central, jornais musicais, críticos, compositores e públicos tomavam posição.

A filosofa Lydia Goehr
A filosofa Lydia Goehr

O fato desta luta haver sido empreendida com tanto afinco pelos dois lados resultou na fortificação cada vez maior da música em si e da crença que ela gerava enquanto um fator importante, digno de ser duelado – um objeto sagrado. Bourdieu coloca que as apostas dentro do campo da arte são ao mesmo tempo o produto e a produção da crença de que esses objetos têm, em si, valor (Bourdieu, 1996, 198). A obra de arte musical, enquanto objeto e conceito, é um dos fenômenos que são produzidos e produzem a luta. Se ninguém acreditasse no valor das apostas, que jogo existiria? Se não existisse o jogo, que obra de arte existiria? A musicóloga e filósofa Lydia Goehr é contundente em afirmar que parte das batalhas pelas definições de conceitos musicais no século XIX era produto de uma tentativa (mesmo inconsciente) de convencer as classes superiores da importância que tinha a música (Goehr, 2007, p. 70). Este também é o argumento do musicólogo David Gramit que acrescenta que mesmo sem atentar para isso de forma consciente, todo o campo musical dependia disto para manter sua sobrevivência, inclusive da negada economia (Gramit, 2002, p. 17).

Roger Chartier
Roger Chartier

Mas o que diferencia tanto o século XIX dos séculos anteriores na questão do campo musical? A resposta pode ser encontrada se observarmos que, numa época onde a aristocracia e a instituição religiosa impunham por si o valor da obra de arte (inclusive o valor material desta), a luta não poderia existir, pelo menos da mesma maneira. A existência do mecenato, por exemplo, era uma instituição externa que, por si só, outorgava valor à obra. O historiador Roger Chartier, um dos divulgadores do trabalho de Pierre Bourdieu para os historiadores, chega inclusive a colocar a questão de que o termo “campo” dificilmente pode ser empregado antes do século XIX. Chartier prefere chamar este fenômeno de “espaços” (Chartier, 2012, p.117). Para Bourdieu, um campo só atingiria seu pleno funcionamento, por assim dizer, quando atingisse sua autonomia, ou seja, quando fosse independente de fatores externos ao seu próprio campo. Uma aristocracia que ditasse as regras do que era ou não produzido, do que tinha ou não tinha valor, impedia as artes de atingir sua autonomia. Somente com a queda da aristocracia, levando junto consigo suas instituições, entre elas as de consagração da arte, como o já mencionado mecenato, é que a arte se torna independente. Portanto, se antes eram regras externas que definiam o que era ou não arte, o que definiria agora, que elas não mais existem, o que seria ou não digno desta consagração? A resposta: a luta pela definição da hegemonia do conceito já citada anteriormente, que ocupa espaço do vazio de um pensamento hegemônico deixado pela queda do ancién regime. Curiosamente, a sociedade economicamente liberal que se seguiu à queda da aristocracia, em suas ferozes batalhas econômicas, gerou também ferozes batalhas na economia simbólica dentro do campo artístico. O compositor era, agora, empreendedor de si mesmo e a arte entra no campo da livre-troca.

Na construção dessas batalhas, novas instituições surgem com o poder de consagrar o que seria ou não arte. Um exemplo são os estetas, outro, os críticos: ambos verdadeiros arautos que em defesa da “arte verdadeira” produziam entre si batalhas que eram homólogas às batalhas produzidas pelos compositores que defendiam. Outra instituição é a escola e o ensino de arte, que ensina uma “maneira correta” de se produzir e apreciar arte. Outras instituições ou conceitos surgiam para sacramentar a independência da arte em relação ao todo social. Os textos anteriores, que discorreram sobre as gêneses da prática e conceitos de arte no século XIX ajudam a entender esse processo.

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Referências

BOURDIEU, P. El sentido social del gusto. Elementos para una sociología de la cultura. Buenos Aires: Siglo veintiuno editores, 2010

BOURDIEU, P. As regras da arte. São Paulo: Companhia das Letras, 1996

BOURDIEU, P. & CHARTIER, R. O sociólogo e o historiador. São Paulo: Autêntica, 2012

GOEHR, L. The immaginary museum of musical Works. An essay in the philosophy of music. New York: Oxford university press, 2007

GRAMIT, D. Cultivating music. The aspirations, interests and limits of geman musical culture, 1770-1848. Los Angeles: University of California Press, 2002

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