O contrato de Haydn junto aos Esterházy: um músico no antigo regime

Contrato de Haydn
Arte sobre original do contrato de Haydn junto aos Esterházy

O contrato de Haydn: evidências da vida de um músico do século XVIII

Introdução do tradutor Rebello Alvarenga

Joseph Haydn, muitos anos depois
Joseph Haydn

O contrato de Haydn junto aos Esterházy, assinado em 1º de maio de 1761, representa um importante documento que apresenta muitas das condições de trabalho de um músico de corte durante o século XVIII, expondo de maneira contundente a posição social na qual este se encontrava. Salvo raríssimas exceções, antes da ascensão social da imagem do compositor no século XIX, o músico era tratado como mais um simples empregado, indigno de tratamentos especiais, ou ainda nas palavras do historiador Tim Blanning, as relações de trabalho que se estabeleciam se pareciam mais “na verdade, (…) como um laço feudal entre senhor e vassalo” (Blanning, 2001, p. 30). Embora houvesse casos e casos – e o de Joseph Haydn passa longe de ser um dos piores, pois, dentre outras coisas, este soube angariar em grande parte simpatia de seus empregadores – o universo que o contrato do compositor nos apresenta é completamente incompatível com a imagem de deferência na qual um artista é tratado por significativa parcela da sociedade a partir do século XIX. Como lembra o próprio Blanning, ao pensarmos em épocas anteriores a este século, não devemos confundir o prestígio da música com o prestigio do músico: “Enquanto a música permanecia parte da ordem divina imutável, seu servidor terrestre não era muito valorizado, fosse um membro anônimo de um grupo ou um compositor-intérprete individual” (Blanning, 2011, p. 26).

Como veremos a seguir, apesar de todo o talento individual e todo o reconhecimento contemporâneo que ultrapassou fronteiras, o contrato de Joseph Haydn nada deve a um contrato de um simples serviçal, com grande parte do peso recaindo nos ombros do contratado e todos os privilégios à disposição do contratante. Mesmo ciente de toda a complexa problemática envolvendo o uso de documentos como evidências absolutas da história, o autor desta tradução crê que podemos observar no contrato de Haydn muito das relações entre músicos e aristocratas. Para isso, baseia-se em apontamentos de musicólogos, historiadores e filósofos do porte de Lydia Goehr, do próprio Tim Blanning, Richard Taruskin e Karl Geirenger, entre outros que serão analisadas posteriormente (Ver observação ao final desta introdução).

O contrato de Haydn foi assinado no principado de Paul Anton
O contrato de Haydn foi assinado enquanto Paul Anton ainda era príncipe.

O contrato assinado por Joseph Haydn em 1º de maio de 1761 ainda contempla o compositor na posição de Vice-Mestre de Capela. O Mestre de Capela dos Esterházy desde o ano de 1728 era o compositor Gregorius J. Werner, que permaneceu no cargo até 1766, ano de sua morte. Quando Haydn assumiu o posto, a orquestra dos Esterházy era menor, porém já contava com nomes de peso, como o violinista italiano Luigi Tommasini (Geiringer, 1982, p. 52). O próprio repertório da orquestra, a cargo de Werner, era muito diferente do que se veria anos depois: a Gregorius Werner foi incumbido muito mais a composição de peças sacras e sua escrita possuía muito mais características polifônicas que as obras de seu sucessor. Além do mais, ao que tudo indica, o antigo mestre de capela via na sinfonia um sintoma de decadência musical. Por fim, até mesmo o príncipe Esterházy não era ainda aquele para o qual Haydn comporia várias de suas principais obras, a saber, o príncipe Nikolaus I. Em 1761, o príncipe em questão era Paul Anton, nascido em 1710. Anton iniciou seu reinado em 1734 até o ano de sua morte em 1762, um ano após o contrato de Haydn ser firmado. Foi Paul Anton, porém, que melhorou sobremaneira a condição da orquestra que viria, a cargo de Joseph Haydn, aprimorar ainda mais sua qualidade.

Como veremos, mesmo possuindo o cargo de Vice-Mestre de Capela, a quase totalidade das funções do cargo de Kapellmeister já recaía sobre os ombros de Joseph Haydn, que, segundo Geiringer, parece ter trabalhado para os Esterházy de maneira informal, mesmo antes do contrato ser finalmente assinado (Geiringer, 1982, p. 43). A idade avançada de Gregorius Werner, citada no próprio contrato de Haydn, o impedia de cumprir grande parte das obrigações que o cargo exigia. Mesmo assim, o compositor parece ter-se mantido em grande atividade composicional. No ano de sua morte, em 1766, ele compôs dezesseis Missas, cinco Salve Regina e mais outras oito obras sacras.

Nota sobre a tradução

A livro de Karl Geiringer foi uma das fontes para a tradução do contrato de Haydn
A biografia de Karl Geiringer foi uma das fontes para a tradução do contrato de Haydn

Para a tradução da íntegra do contrato de Haydn, utilizamos a biografia de Karl Geiringer chamada “Haydn, a creative life in music”, disponível em inglês pela Editora da Universidade da Califórnia. Para cotejo, foi empregado uma segunda versão em inglês, disponível aqui, e o original em alemão, editado no livro C. F. Pohl (Pohl, 1871, p. 391-394). As pontuações foram mantidas de acordo com a tradução de Karl Geiringer, que respeitou o fluxo do texto original. A grafia “Heyden” ou invés de “Haydn”, utilizada no documento para se referir ao compositor, também foi mantida.

Observação: na próxima semana, traremos uma análise dos pontos principais do contrato que segue abaixo, no intuito de clarificar determinados pontos e analisar histórica e socialmente este documento.

Os originais do contrato de Haydn
O manuscrito original do contrato de Haydn.

O contrato de Joseph Heyden junto a sua alteza, Paul Anton, príncipe do Santo Império Romano, de Esterhazy e Galantha.

“Nesta data (indicada ao final deste documento) Joseph Heyden, nativo de Rohrau na Austria, é aceito e apontado como Vice Mestre de Capela ao serviço de Sua Serena e Alteza Principesca, Senhor Paul Anton, Príncipe do Santo Império Romano, de Esterházy e Galantha, etc., sujeito às condições que ora se apresentam:

  1. Em razão do Mestre de Capela de Eisenstadt, de nome Gregorius Werner, tendo devotado tantos anos de verdadeiro e fiel serviço à casa principesca, se encontrar agora, devido a sua avançada idade e enfermidades, incapacitado para preencher os deveres incumbidos a sua pessoa, é a partir deste momento declarado que o referido Gregorius Werner, em consideração aos seus longos anos de serviço, deve manter o posto de Mestre de capela superior (Ober-Kapellmeister), e que o dito Joseph Heyden, no posto de vice mestre de capela de Eisenstadt deve, no que toca a música do coro, se subordinar ao mestre de capela e aceitar suas instruções. No entanto, em tudo o que concerne à prática musical e em tudo no que se refere à orquestra, o vice mestre de capela deve conduzir suas decisões de maneira exclusiva.
  1. O referido Joseph Heyden deve ser considerado e tratado como um membro serviçal da casa. Assim sendo, Sua Serena Alteza se encontra graciosamente satisfeito em delegar sua confiança aquele que se torna um honrado administrador de uma corte principesca. Ele deve ser comedido, não se mostrando arrogante diante de seus músicos, mas sim moderado e leniente, franco e sereno. Deve ser atentamente observado que quando a orquestra se reunir para se apresentar diante da audiência, o referido Vice Mestre de Capela e todos os músicos devem se exibir de uniforme, e o referido Joseph Heyden deve atentar que tanto ele quanto seus subordinados sigam as instruções dadas, e se apresentem de meias brancas, linho branco, empoados e com rabo de cabalo ou peruca; todos, no entanto, devem possuir aparência idêntica.
  1. Todas as vezes que os músicos solicitarem direcionamentos do Vice Mestre de Capela, este deve se impor cuidados para se comportar de maneira adequada para que assim seus subordinados sigam seu exemplo de boas maneiras; consequentemente, o referido Joseph Heyden deve se abster de tratá-los com efusiva familiaridade, em fazer refeições, beber ou possuir quaisquer outras formas de relações com eles, para que assim se mantenha e se preserve o respeito com a sua pessoa; pois tais subordinados devem sempre ter em mente seus respeitosos deveres e considerar o quão desagradáveis são as consequências que quaisquer desentendimentos ou controvérsias se apresentam para a Sua Alteza.
  1. O referido Vice Mestre de Capela deve compor músicas conforme a vontade de Sua Serena Alteza e não repassar tais composições para qualquer outra pessoa nem permitir que estas sejam copiadas, pois ele deve retê-las para uso exclusivo de Sua Alteza; também não deve compor para ninguém mais sem o conhecimento e a graciosa permissão de Sua Alteza.
  1. O referido Joseph Heyden deve comparecer diariamente (seja em Viena quanto em outras localidades) na antecâmara antes e após o meio-dia, e inquirir quando Sua Alteza gostaria de demandar uma apresentação orquestral. Ao receber as demandas, este deve comunicá-las aos demais músicos e tomar o devido cuidado para permanecer pontual frente ao horário demandado, e garantir também a pontualidade de seus subordinados, e tomar nota daqueles que se atrasarem ou se abstiverem.
  1. Caso, contrariando as expectativas, quaisquer querelas ou motivos de reclamação surgirem, o Vice Mestre de Capela deve conduzir para deixar tais questões resolvidas de maneira que Sua Serena Alteza não seja enfadado com disputas insignificantes; no entanto, caso quaisquer outras dificuldades mais graves ocorrerem, as quais o referido Joseph Heyden não seja capaz de manejá-las, é então sua obrigação colocar Sua Serena Alteza a par para que este decida a questão.
  1. O referido Vice Mestre de Capela deve estar a cargo de toda atividade musical e a manutenção dos instrumentos musicais, sendo o responsável por qualquer dano que possa ocorrer a eles devido ao mal uso ou negligência.
  1. O referido Joseph Heyden deve instruir as vozes femininas, de maneira que estas não se esqueçam em outros lugares aquilo que elas aprenderam de seu ofício com tantas dificuldades e de maneira tão custosa em Viena, e, como o Vice Mestre de Capela é versado em vários instrumentos, este deve ter atenção em praticar todos aqueles aos quais é familiarizado.
  1. Uma cópia desta Convenção de Regras e Comportamento deve ser entregue ao referido Vice Mestre de Capela e seus subordinados de forma que estejam aptos a manter as obrigações nela estabelecidas.
  1. É considerado desnecessário relatar os detalhes dos serviços requeridos ao referido Joseph Heyden, ainda mais que Sua Serena Majestade crê que este irá de sua própria vontade observar não somente tais questões, mas também quaisquer outras que possa aparecer de tempos em tempos vindas do Alto Mandatário, e que este irá dispor a orquestra em condição e em tal ordem que isto possa trazer honra à sua pessoa a ponto de merecer favores futuros do Príncipe, seu senhor, que deposita confiança em sua discrição e zelo.
  1. Um salário anual de quatrocentos florins (Rhinelandflorins), a ser recebido trimestralmente, é daqui em diante concedido por Sua Serena Majestade ao referido Vice Mestre de Capela.
  1. Quando dentro das propriedades de Seu Senhor, o referido Joseph Heyden deve alimentar-se à mesa dos oficiais ou receber meio florin (half gulden) por dia para seu custeio.
  1. Por fim, este contrato deve ser observado pelo menos durante os próximos três anos, a partir de 1º de maio de 1761, com a condição adicional de que ao fim do período, se o referido Joseph Heyden desejar deixar sua posição, este deve anunciar sua intenção seis meses antes à Sua Alteza.
  1. Sua Serena Alteza se encarrega de manter Joseph Heyden a seu serviço durante este período e, estando em completa satisfação com ele, este pode ser futuramente apontado como Mestre de Capela Superior (Oberkapellmeister). Isto, no entanto, não deve privar Sua Serena Majestade do direito de demitir o referido Joseph Heyden a qualquer momento, mesmo durante o período em questão, se assim Ele bem entender.

Cópias duplicadas deste documento devem ser preparadas e distribuídas.

Executado em Viena neste dia primeiro de maio, 1761

Ad Mandatum Celsissimi Principis¹,

Johann Stifftell, secretário.

Tradutor: Rebello Alvarenga

….

Nota

¹ “Por ordem de Seu Sereno Príncipe”, no original em Latim

Bibliografia

GEIRINGER, K. Haydn, a creative life in music. Los Angeles: California University Press, 1982

Pohl, C. F. Joseph Haydn. Berlim: Wiesbaden, M. Sändig, 1875

Agradecimentos especiais à Mestra em performance pianística pela Georgia State University, Camila Brioli e à advogada Dra. Carolina de Fátima Carvalho por sanar dúvidas que surgiram ao longo do processo desta tradução.

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