O papel da imprensa musical na consagração da imagem de Beethoven

Imprensa musical
Exemplar da Allegemeine Musikasliche Zeitung

No começo do séc. XIX, um dos principais meios de propagação da ideologia da “música séria” ficou a cargo da imprensa musical, através das publicações de jornais e revistas voltadas para o mundo do música. Não existia um amante desta música que não dedicava atenção às críticas e ensaios publicados pelas revistas musicais. Como aponta William Weber, “durante a primeira metade do século XIX, na crítica, na educação musical e na organização de concertos, surgiu uma Intelligentsia que assumiu um papel amplo na articulação dos valores musicais e a interpretação dos clássicos. (…) Durante o século XIX, o público começou a acatar a autoridade intelectual superior do crítico e do musicólogo a depender do caso” (2011, p. 136).

Pierre Bourdieu nos mostra que uma das principais apostas do campo da arte está na luta pelo monopólio da definição do conceito do que é arte e, por consequência, de quem é ou não é artista (1996, p. 254). Nesta luta, as instâncias de consagração (os críticos, os estetas, a escola, os museus…) assumem uma função central. A elas cabe delimitar o campo do que deve e o que não deve ser considerado arte, delegando aos eleitos o direito legitimo de assumir uma posição no campo da arte e excluindo os indesejados do círculo dos consagrados. Como mostra o sociólogo, tais instâncias operam homologamente às funções que a Igreja possui no campo religioso. Citando uma passagem da sociologia das religiões de Max Weber, Bourdieu lembra que uma instância de consagração como, por exemplo, a escola, deve “defender (a fé) contra os ataques proféticos, estabelecer o que tem ou não tem valor de sagrado, e fazê-lo penetrar na fé dos leigos” (1996, p. 169).

Verdadeira profecia de fé na arte musical, os periódicos musicais forneciam uma espécie de lei sagrada quanto ao que deve e não deve ser observado na apreciação da obra musical, no que deve ou não deve ser considerado música séria, na definição própria do que seria este conceito de música séria e quais seriam os músicos que a professariam. Um dos pilares da imprensa musical, bíblia dos fiéis da música, foi a revista Allgemeine Musikasliche Zeitung (AMZ). Nesta revista passaram os maiores defensores em língua alemã do cânone musical e da ideologia da música séria, entre eles Robert Schumann que escreveu ensaios e críticas para a publicação que até hoje são centrais na discussão da questão.

Beethoven e seus íntimos, de Graefle. Uma obra que deixa explícita a ideologia criada em torno do compositor.
Beethoven e seus íntimos, de Graefle. Uma obra que deixa explícita a ideologia criada em torno do compositor.

O maior paradigma eleito pela revista acerca da figura do compositor foi a imagem de Ludwig Van Beethoven. O ideário em torno do compositor forneceu para a revista muita munição na defesa de seus princípios estéticos. Beethoven tornou-se uma referência arquetípica, medida a ser tomada quanto ao que era ou não artisticamente relevante no mundo musical. No entanto, a posição da revista frente à obra de Beethoven nem sempre foi assim. Houve um tempo em que o compositor era seriamente criticado pela publicação.

Na década de 1790, Beethoven foi abordado de maneira pouco lisonjeira pela revista. A primeira menção ao compositor foi em 1799 e foi dedicada à crítica de dois conjuntos de variações para piano. Como cita a musicóloga Tia DeNora, o crítico questionou certas “asperezas em modulações harmônicas” e ponderou que ainda não era possível saber se Beethoven tinha alguma habilidade como compositor ou como pianista (1995, p. 180). No mesmo ano, uma crítica acerca das sonatas para violino e piano op. 12 dizia que a música de Beethoven era percebida como caótica, como um fardo ao leitor e, fato de extrema importância, como uma peça “muito culta”. O autor da crítica compara o exercício de ouvir a sonata ao “trabalho extenuante de um homem que esperava fazer uma caminhada pela floresta com um amigo genial e se viu acuado a cada minuto por barreiras inimigas, retornando finalmente exausto e sem ter obtido prazer algum” (1995. p. 180).

O fato de ambos os críticos haverem realçado a dificuldade frente a uma peça muito complexa e não terem encontrado “prazer algum” nos diz coisas extremamente importantes sobre o gosto musical predominante em Viena no final do séc. XVIII. Este ainda era caracterizado pela valorização do prazer sensual da audição musical e em função do seu papel como entretenimento. Para a imensa maioria dos amantes da música, seriedade era algo a ser evitado, algo cansativo: música deveria ser um deleite. Rotular um compositor e sua música como cultos era extremamente pejorativo. Foi somente na primeira década do séc. XIX que a ideologia da música séria começa a despontar como uma realidade social mais estruturada e presente na imprensa musical, mas mesmo assim, ainda concernente a setores muito estritos da sociedade, a dizer, a fração mais alta da sociedade aristocrática.

Edição da Breitkopf und Härtel da partitura para viola da segunda sinfonia de Beethoven.
Edição da Breitkopf und Härtel da partitura para viola da segunda sinfonia de Beethoven.

No entanto, algo na opinião musical da revista muda drástica e repentinamente em 1799. Em apenas quatro meses, a revista sai de uma opinião negativa acerca de uma série de variações para piano WoO 73 para dedicar quase uma página inteira de elogios às três sonatas para piano opus 10. Poderia se argumentar que isso nada tem de estranho já que era de se esperar uma crítica mais elogiosa a uma obra mais importante do repertório do que essas já esquecidas variações. No entanto, isso seria ignorar questões históricas. Não podemos avaliar essas obras pelos critérios que utilizamos hoje na seleção de grandes obras. Como dito, os valores musicais da AMZ eram outros. Em quatro meses, Beethoven deixou de ser criticado por ser um compositor difícil, acusado de “harmonias ásperas”, para passar a ser elogiado por essas mesmas questões. Na crítica das sonatas op. 10, o autor diz que “não deve ser negado que Hr. v. B. é um homem de gênio, possuidor de originalidade e que segue seu próprio caminho” (1995, p. 181). Ou seja, Beethoven passou a ser elogiado pelos mesmos motivos por que era criticado. Pôr que?

Robert Schumann exerceu a função de crítico no Allgemeine Musikalische Zeitung
Robert Schumann exerceu a função de crítico no Allgemeine Musikalische Zeitung

A Allgemeine Musikalische Zeitung foi mantida em seus primeiros anos com o apoio da alta aristocracia. Isso era extremamente importante, já que a imprensa musical do período ainda não contava com o público que viria a desfrutar nas próximas décadas do século XIX. Pierre Bourdieu aponta que existe uma homologia da posição do crítico no campo intelectual e a de seu público no campo do poder (1996, p. 188). Para o sociólogo, o crítico tem influência sobre seu público na medida em que estes lhe concedem o poder, porque estão estruturalmente de apoio com ele em sua visão do mundo social e em seu gosto: entre o público e o crítico se estabelece uma relação de cumplicidade (1996, p. 191). Uma das hipóteses levantadas pela musicóloga Tia DeNora é que a revista percebeu o apoio cada vez maior que os círculos aristocráticos davam à obra de Beethoven. Para manter a cumplicidade, portanto, era preciso se adequar à nova realidade (1995, p. 182). A mudança do gosto aristocrático em direção à música séria e o crescente círculo de apoio ao compositor vindo justamente dos mantenedores da publicação são assim indicativos da interferência das questões materiais no campo da arte pura e autônoma. Ainda mais, a AMZ era editada pela Breitkopf und Härtel, que buscou a aproximação de Beethoven por volta de 1800 passando a publicar suas obras. Nada faria mais sentido que alinhavar o discurso em busca de um interesse mútuo. DeNora lembra que Beethoven não se furtou em usar tal oportunidade para fazer notar seu desgosto com relação às críticas a ele dirigidas pela revista: negando numa carta a possibilidade da publicação das peças propostas pela editora, ao mesmo tempo que deixava aberto o caminho para futuras encomendas de obras que esta pudesse solicitar, Beethoven inclui um comentário sobre as críticas dizendo para a revista advertir “seus críticos a serem mais circunspectos e inteligentes, particularmente ao que concerne à produção de jovens compositores. (…) Eu deveria dar pouca atenção a isso, permanecendo calmo e lembrando que ‘eles não sabem nada de música” (1995, p. 184).

Nos anos seguintes, o apoio à música séria passou a ser a tônica de grande parte da imprensa musical, tornando-se pedra fundamental da AMZ, que transformou-se na maior referência enquanto crítica musical de toda a Europa. Não havia mais um sério ouvinte de língua alemã de música séria que não levasse em alta conta a autoridade da revista. O caso das críticas musicais da revista em relação a Beethoven são um excelente exemplo da interferência da sociedade, de fatores externos ao campo musical e na produção mesma da ideologia da independência das relações artísticas às exigências desta mesma sociedade.

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Referências

BOURDIEU, P. As regras da arte. São Paulo: Companhia das Letras, 1996

DENORA, Tia. Beethoven and the construction of genius. Musical politics in Vienna, 1792-1803. Los Angeles: University of California press, 1995

WEBER, W. La gran Transformación en el gusto musical: la programación de conciertos de Haydn a Brahms. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2011

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