O piano, Beethoven e o embate dos gostos “sério” e “frívolo”

Piano, Beethoven
Beethoven encontra Mozart, de Josef Borckmann. Idealização de um encontro jamais comprovado.

Os primeiros dez anos do compositor em Viena são marcados por profundas mudanças no gosto musical, em especial o gosto da alta aristocracia. Buscando novos símbolos distintivos numa sociedade em plena mudança, a aristocracia parecia interessada em promover eventos musicais que não se restringiam somente a concertos e salões, mas compreendiam também outros eventos públicos. Além disso, o apoio aristocrático parecia ir além do investimento financeiro de tais atividades sendo encontrado também no subsídio de edições musicais e, no suporte financeiro de edições de revistas de música. Num certo sentido, a aristocracia pode ser vista como uma espécie de empresária musical num campo onde ela não mais reinava isoladamente, tendo que duelar com outros setores da sociedade, indo até o ponto de apoiar empreendimentos freelancers de seus protegidos – tudo isso em busca de satisfazer, mesmo de maneira inconsciente, interesses próprios.

O perigo do anacronismo ao apontar tal comparação é grande. No entanto, é inegável que pelo menos uma parcela desta classe investia financeiramente na produção de eventos onde seus escolhidos poderiam provar seu valor musical. Beethoven, como o compositor mais destacado da alta aristocracia de Viena, pôde contar com um impulso extra de ajuda vindo de seus protetores, não somente no campo estético e simbólico, mas também no material. Podemos ver ao longo da carreira do compositor momentos específicos onde os interesses da aristocracia caminharam na mesma direção dos interesses privados de Beethoven.

Como aponta Bourdieu (Bourdieu 1996, p. 234), existe uma homologia no espaço ocupado pelo produtor artístico (no caso o pianista/compositor) e o espaço ocupado pelo seu público no campo do poder. Entre eles se estabelece uma cumplicidade que, embora não seja explicitada, estabelece lucros específicos a cada um. Em razão desta homologia, a maior parte das estratégias culturais é sobre-determinada e muita das escolhas tem dois alvos: são ao mesmo tempo estéticas e políticas, internas ao campo artístico e externas a ele. Um dos momentos em que essas disposições aparecem mais evidentes é no duelo pianístico, evento característico da música na época.

No século XVIII e em parte do século XIX, estava na moda eventos musicais conhecidos como duelos de piano. Uma espécie de esporte musical do período, esses duelos eram eventos onde dois virtuoses do piano combatiam em sessões alternadas de interpretação de peças musicais e improvisos. O caráter esportivo do evento era muito ressaltado e, na plateia, via-se divisão de torcidas entre cada participante. Como lembra a musicóloga Tia DeNora, tais duelos chegavam a “oferecer fóruns nos quais estilos rivais, tanto os composicionais quanto os pianísticos, podiam ser comparados” (DeNora, 1995, p. 150). Tais eventos aconteciam sob um clima de grande expectativa e informalidade. DeNora cita uma passagem das cartas de Mozart onde o espírito cultivado nessas apresentações pode ser bem medido:

“Após longa cerimônia, o imperador declarou que Clementi deveria começar… Ele então improvisou e tocou uma sonata. Então, o imperador virou-se para mim: ‘Allons, fogo!’. Eu improvisei e toquei variações. A Grã-duquesa introduziu algumas sonatas de Paisiello nas quais eu deveria tocar os Allegros e Clementi os Andantes e Rondós. Posteriormente, selecionamos um tema dentre eles e desenvolvemos conjuntamente em dois pianofortes” (DeNora, 1995, p. 150).

Nesses eventos, não somente duelavam os pianistas, mas também seus patrões. Nessa época, os competidores geralmente ainda não estavam estabelecidos em carreiras independentes e possuíam seus patrões que, por homologia, também duelavam simbolicamente com os demais das suas preferências estéticas e interpretativas. Um embate entre preferências musicais, entre gostos distintos e suas representações simbólicas, tomava corpo nesses eventos. Beethoven aporta em Viena num momento onde os duelos estavam em alta.

Beethoven, 1804
Beethoven em seus primeiros anos em Viena

Quando o jovem compositor chega em Viena, além dos salões ao qual é figura central, também se estabelece como um pianista virtuose, ou seja, como um competidor. Como lembra Solomon, ao chegar na cidade, muitos o viam ainda como um intérprete e um estudante de composição que ainda não terminara seus estudos (1987, Solomon, p.90). Para Beethoven, o duelo era compensador: um triunfo como intérprete poderia significar não somente ganhos simbólicos, mas também materiais. Em Viena, estima-se que à época haviam 300 pianistas em busca de emprego e um contingente de mais ou menos 6000 potenciais alunos (Solomon, 1987, p. 91). Triunfar neste terreno parecia ser caminho para uma estabilidade profissional mais garantida.

O status social do virtuose pianista não estava, no entanto, assegurado. Antes, é ainda vítima de um longo processo que ainda demorará décadas para chegar à consagração. Como lembra Solomon, “o virtuose era, de fato, considerado uma espécie de aberração da natureza e as feiras setecentistas nas principais cidades da Alemanha exibiam virtuoses e crianças prodígios musicais ao lado dos malabaristas e funâmbulos itinerantes” (1986, Solomon, p. 92). O mesmo autor, em uma biografia dedicada a Mozart, também nos mostra que, quando criança, Mozart tocou em eventos abertos em Londres e era anunciado basicamente como uma atração circense. Num jornal da época, Leopold Mozart, seu pai, promoveu o filho com as seguintes palavras: “O garoto tocará um concerto no violino, acompanhará sinfonias num cravo completamente coberto” (Solomon, 1996, p. 40).

O pianista Joseph Wölffl
O pianista Joseph Wölffl

Para Beethoven, no entanto, foi uma das primeiras oportunidades para aparecer para um público maior e, para os aristocratas, de impor suas preferências musicais como superiores. Num dos duelos mais marcantes do início de sua carreira vienense, estava o embate com o pianista . Entre eles não estava em disputa apenas uma habilidade específica, mas sim dois gostos específicos. Wölffl era discípulo de uma escola galante, um estilo mozartiano de interpretação, um estilo claro e equilibrado. Como aponta DeNora, Wölffl era o preferido do grande público, pois sua estética era voltada ao gosto leve e prazenteiro; já Beethoven era tido como um pianista difícil, de toque mais pesado, um pianista para um gosto exclusivo (DeNora, 1995, p. 156). O embate colocava em cena dois gostos, duas formas diferentes de se apreciar a música e duas classes sociais: o “frívolo e sensualista” de Wölffl e seus entusiastas da baixa aristocracia e da burguesia, contra o “sério e erudito” de Beethoven e a alta aristocracia.

Foi somente com o passar dos anos que Beethoven foi se tornando, em certa medida, um compositor também conhecido entre a burguesia. Em um período onde as classes médias ainda não haviam adotado o discurso da música séria, o duelo musical se apresenta como palco de embates entre gostos e determinados setores da sociedade sendo um dos principais exemplos de uma prática que, aparentemente desinteressada, possui camadas mais profundas de interesses específicos.

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Referências

BOURDIEU, P. As regras da arte. São Paulo: Companhia das Letras, 1996

DENORA, Tia. Beethoven and the construction of genius. Musical politics in Vienna, 1792-1803. Los Angeles: University of California press, 1995

SOLOMON, M. Beethoven. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987

SOLOMON, M. Mozart: a life. New York: Harper Perennial, 1986

 

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É o idealizador, criador e proprietário do Música e Sociedade, resultado de uma ampla e densa pesquisa acerca do universo musical pelo prisma da sociedade. Estudou licenciatura em música no Instituto de Artes da UNESP. É também professor nas áreas de composição, piano, história da música e trilha sonora, ministrando uma série de cursos e palestras nestas áreas. É autor de dezenas de trilhas sonoras para as mais diversas mídias, tais como teatro, cinema e dança, além de compositor de música de concerto em uma extensa variedade de gêneros.