O piano e o estabelecimento dos gostos musicais

Venda de piano
Anúncio de venda de pianos em uma publicação parisiense.

Dentro da esfera dos instrumentos musicais, o piano ocupa um lugar de evidente destaque. Seu papel no universo musical é tão incontestável que praticamente nos causa uma ilusão histórica, como se o instrumento, afastado das construções sociais e das regras impostas socialmente na construção dos gostos, pudesse ter edificado sua consagração sem barreiras, hegemonicamente predestinado à gloria. Um olhar mais profundo para o final do século XVIII, no entanto, contará para nós uma história um tanto quanto diferente. Em primeiro lugar, é importantíssimo frisar que o piano foi um instrumento extremamente ligado à intensificação do processo de industrialização que acometeu a Europa no final do século XVIII para o XIX. A venda de pianos cresceu drasticamente, em especial na Inglaterra, fincando espaço no crescente mercado musical cada vez mais.

Anúncio de venda de pianos da Casa Erard - Inglaterra
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A autonomia do campo musical tem como uma das suas regras fundamentais o discurso da denegação da economia e da separação completa da arte com o mundano. Sendo tal autonomia processo importantíssimo para entendermos as transformações dos gostos musicais no início do século XIX, separando o artístico do frívolo, o formal do conteúdo, a apreciação desinteressada da apreciação moralizante, seria mais que natural que a condição profundamente mercadológica do piano operasse para classificá-lo de maneira sócio-cultural.

Tal fenômeno encontra sua prova concreta ao analisarmos o papel social do piano em duas cidades que no início do século XX possuíam um cenário social extremamente diverso: Londres e Viena. Berço da revolução industrial, a Inglaterra vivia o seu período de maior expansão econômica e o triunfo da burguesia e do liberalismo econômico impulsionavam profundas mudanças sociais; enquanto a Áustria, ameaçada pelos ecos da revolução francesa, símbolo da resistência do antigo regime, possuía um mercado de circulação de capital inúmeras vezes menos expressivo. Tal fenômeno reflete claramente no mercado musical e não é de se espantar que terá um profundo impacto no mercado de pianos e na consequente posição social que este encontrará.

Como aponta a musicóloga Tia DeNora, o piano inglês, de sonoridade mais encorpada e pesada, estava adaptado a um mercado musical amadurecido: os concertos com piano estavam comercialmente emergindo e o pianista virtuoso faz da Inglaterra seu primeiro lar (DeNora, 1995, p. 172). Com um grande número de vendas, o piano estava socialmente identificado como um instrumento das classes médias e altas da burguesia. Nesta condição, era um instrumento rechaçado pela aristocracia inglesa. Para muitos aristocratas, o piano estava profundamente identificado com valores mercadológicos para ser socialmente aceito por homens de bom gosto. Seu caminho de consagração como um instrumento socialmente destacável será estabelecido somente através de um longo processo. Enquanto isso, o piano tinha um papel popular muito maior, inclusive cumprindo uma função social de transmitir um vasto repertório a uma ampla camada da sociedade – o seu repertório próprio ainda não havia se estabelecido (Zank, 2002, p. 185). Ainda no século XVIII, durante muito tempo na Inglaterra, o piano esteve também identificado como um instrumento presente nos “concertos de taverna”, concertos esses que aconteciam nesses improváveis cenários e que foi palco de apresentações virtuosísticas do infante Mozart e dos concertos para piano de Johann Cristian Bach, o “Bach de Londres”. As grandes salas de concerto, ligadas a um público dito mais cultivado, só serão erguidas mais tarde, como o Hannover Square Room, que abre suas portas em 1767. Enquanto isso, o piano continua a desenvolver um papel fundamental em concertos mais populares na Inglaterra, como os que aconteciam ao céu aberto.

Em Viena, o papel público do piano foi muito mais tímido durante esses anos. Naquela cidade, o piano foi adotado como símbolo de distinção social pela aristocracia vienense. Como exemplo, vale notar que Mozart lá se apresentou ao piano para públicos reservados no interior dos salões aristocráticos. Foi certamente sua experiência com os concertos públicos londrinos que seguramente o incentivou a empreender uma série de concertos para piano para o grande público.

O musicólogo Stephan Zank nota que o fato de Mozart ter que transportar seu próprio piano de uma sala de concerto a outra, é uma evidência de que tal instrumento ainda não havia sido aceito completamente pela sociedade vienense (Zank, 2002, p. 188). Seu papel aristocrático deixava poucas possibilidades de empreendimentos comerciais para compositores e intérpretes. Como comparação, Tia DeNora aponta que enquanto na Inglaterra uma fábrica de pianos produzia por volta de 400 pianos ao ano, a mais bem sucedida fábrica de pianos Vienenses produzia por volta de 50 (DeNora, 1995, p. 172).

Mas os complexos mecanismos sociais envolvidos no processo de hierarquização dos gostos ainda operariam outros significativos papéis que tem no piano um personagem de destaque. Não é somente o instrumento que encontra obstáculos frente à consagração cultural, senão o intérprete que também encontra suas barreiras rumo ao reconhecimento.

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Referências

ZANK, S. Piano Roles. New Haven: Yale University Press, 2002

DENORA, Tia. Beethoven and the construction of genius. Musical politics in Vienna, 1792-1803. Los Angeles: University of California press, 1995

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É o idealizador, criador e proprietário do Música e Sociedade, resultado de uma ampla e densa pesquisa acerca do universo musical pelo prisma da sociedade. Estudou licenciatura em música no Instituto de Artes da UNESP. É também professor nas áreas de composição, piano, história da música e trilha sonora, ministrando uma série de cursos e palestras nestas áreas. É autor de dezenas de trilhas sonoras para as mais diversas mídias, tais como teatro, cinema e dança, além de compositor de música de concerto em uma extensa variedade de gêneros.