O profeta superado – o processo do envelhecimento estético de um compositor e sua obra

envelhecimento estético

Um dos fenômenos mais importantes ocorridos no seio do campo musical é o processo pelo qual compositores, obras, gêneros e estilos surgem e caem no passado. Um compositor que fizera inovações em seu tempo é “superado” por seu sucessor; uma obra antes chocante perde sua capacidade de causar estupefação; um gênero profundamente explorado cai em desuso – a inevitável marcha da história não poupa os próprios produtores da história. Mas seria possível encontrar uma lógica, uma estrutura pela qual a história do campo opera? É justamente esta lógica imperante dentro do campo da produção artística o que buscaremos averiguar neste texto.

Todo mundo possui um ponto de vista em relação à música e todos nós sabemos o quanto podemos passar horas defendendo nossas preferências musicais. Aquele que gosta de Schumann e cai em debate com um wagneriano provavelmente possuirá uma série de argumentos em defesa de seu compositor, e vice-versa. Em uma discussão, certamente usará em defesa de seu ponto de vista argumentos estéticos e poderá exemplificá-los em alguma obra. Neste embate, ambos apresentarão marcas de distinção (como, por exemplo, certos usos da harmonia e orquestração) que diferem seu compositor do outro. É justamente neste ponto que encontraremos o caminho para evidenciar a lógica que opera as transformações do campo musical, determinando o envelhecimento de um compositor ou um estilo e o surgimento de outros.

Pierre Bourdieu
Pierre Bourdieu

O sociólogo Pierre Bourdieu nos diz que existir dentro de um campo é diferir (Bourdieu, 1996, p. 182). Somos capazes de observarmos de maneira exata uma tomada de posição no campo musical pelo que esta posição se difere da outra. Sabemos no que Brahms difere de Bruckner e o que estes possuem de diferente em relação a Mahler. Essas distinções, conforme apontado anteriormente, podem ser reconhecidas, por exemplo, no uso da harmonia e da orquestração mas também podem ser percebidas no próprio discurso do artista em defesa de sua obra. Acontece que esta luta que produz a distinção opera de maneira dialética, “empurrando” a história “para frente”, num movimento que lega compositores e obras à consagração ou ao esquecimento.

Isto acontece porque os novos ingressantes do campo musical não podem deixar de expulsar continuamente para o passado os compositores já consagrados. Se existir é diferir, para marcar época, o compositor deve explorar um novo espaço ainda inexplorado, buscando atrair o reconhecimento de seus pares, dos críticos e do público para o qual escreve aquela obra. Ao assumir uma posição legítima inexplorada, o compositor, essa espécie de profeta da boa nova musical, acaba introduzindo uma espécie de desiquilíbrio na economia simbólica do campo: por exemplo, o que havia de mais moderno em Wagner é “superado” pela novidade trazida por Schoenberg – ao acorde de Tristão wagneriano, segue o dodecafonismo de Schoenberg. Logo, compor tendo como base os cromatismos e harmonias wagnerianas terá um significado e um valor diferente, pois esta obra passa a ser valorizada e compreendida em relação a obra schoenberguiana e seu impacto dentro do campo musical. Assim, ao produzir sua obra, o compositor vanguardista, opera uma verdadeira reestruturação dentro da economia simbólica do campo, estabelecendo uma reorganização dos valores de todas as demais posições.

Arnold Schoenberg
Arnold Schoenberg – auto retrato

Assim, podemos perceber que o envelhecimento vem aos empreendimentos e autores que permanecem presos a modos de produção que, se marcaram época, passam a ser datados (Bourdieu, 1996, p. 179). Essa datação ocorre porque a contemporaneidade de um campo sincroniza tempos artísticos discordantes. Isso quer dizer que, voltando ao exemplo de Schoenberg, ao atentarmos para sua produção dodecafônica, é inevitável pensarmos que o compositor que adota Wagner como modelo está defasado frente à posição adotada pelo pai da segunda escola de Viena. Portanto, esse fenômeno obriga-nos a datar aquele compositor em relação a Schoenberg, empurrando aquele criador contemporâneo paradoxalmente para o passado. Desta forma, ocorre um dos mais importantes fenômenos existentes dentro de um campo: ao produzir sua obra, o compositor fabrica a história. Em outras palavras, são as diversas e constantes tomadas de posição, objetificadas em obras musicais, que produz o próprio tempo histórico do campo.

Desta maneira, o envelhecimento é muito diferente de um simples afastamento para o passado: ele engendra-se no embate daqueles que marcaram época e os que não podem marcar época sem expulsar para o passado “aqueles que tem interesse em deter o tempo, em eternizar o presente” (Bourdieu, 1996, p. 181). Logo, Schoenberg, assim como Beethoven e Wagner, também foi “superado” por outras escolas. O profeta que traz a boa nova musical está paradoxalmente condenado pela própria história que ajuda a produzir. A mesma intenção de marcar sua época, que inspirou suas ações, será o que irá legá-lo ao passado.

Não há como escapar desta condição. Nós sabemos: o mar da história é agitado.

Referência

BOURDIEU, P. As regras da arte. São Paulo: Companhia das Letras, 1996 

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