O quarteto de cordas e a construção do gosto musical

Quarteto de Cordas,de Joseph Wollin
Quarteto de cordas, Joseph Wollin, 1941

Durante um período de aproximadamente 60 anos, que compreende desde a última década do século XVIII até a primeira metade do século XIX, os diversos gêneros, estilos e práticas musicais (a sinfonia, a ópera, o concerto, o virtuosismo, a canção, etc) foram classificados conforme uma hierarquia de gostos e desempenharam papéis distintos ao longo deste processo. Dentre os gêneros que contribuíram à hierarquização dos gostos musicais, o quarteto de cordas encontra um espaço de destaque.

Haydn interpretando um de seus quartetos
Haydn interpretando um de seus quartetos

O quarteto de cordas surgiu num ambiente diverso das salas de concerto. Geralmente reservado a apresentações mais privadas e para um público seleto, este gênero foi, no entanto, fundamental na estruturação da programação de concertos como conhecemos hoje. Sempre ligado a um grupo de amantes da música com interesses mais profundos na arte dos sons, o quarteto se estabeleceu no século XIX como um paradigma do que seria chamado de “bom gosto”.

Os concertos públicos no século XVIII se caracterizavam pela miscelânea de gênero e de gostos. Árias de ópera conviviam com movimentos isolados de sinfonias, danças orquestrais e peças solo. A classificação hierárquica do gosto ainda não era um elemento regulador das práticas musicais da época. Embora distinções de gosto sejam frequentemente encontradas ao longo do século e anteriormente, a distinção entre um gosto “sério” ou “ligeiro” ainda não estava plenamente estabelecida. No século XIX tudo muda e o quarteto de cordas tem um papel preponderante nesta mudança.

Conforme aponta o musicólogo William Weber, os concertos de quarteto introduziram uma mudança efetiva na vida musical do período (Weber, 2011, p. 164). Tais concertos foram os primeiros a não incluir música vocal num programa. Toda uma tradição de elaboração de programas de concerto estava pautada numa miscelânea de estilos e de formações musicais. Um concerto público que excluísse a voz seria algo impensável no século XVIII, produzindo um profundo impacto nos primeiros anos do século XIX.

Os concertos organizados por Ignaz Schuppanzigh em 1804 foram os primeiros do gênero a aparecer, seguidos dos concertos organizados por Pierre Baillot em 1814 na França e das séries londrinas e de Leipzig nos anos de 1835 e 1836, respectivamente (Weber, 2011, p. 164). Apenas nos concertos londrinos o repertório permitia a entrada de gêneros diferentes ao camerístico.

Quarteto Joachim Berlin se apresentando na Singakademie.
Quarteto Joachim Berlin se apresentando na Singakademie.

Outro fato importante é que o concerto de quarteto de cordas rapidamente centraram-se em repertórios canônicos, principalmente das obras de Haydn, Mozart e Beethoven. Não seria exagero dizer que a imagem da primeira escola de Viena nasce com profunda contribuição desses concertos. Somente a sinfonia, como veremos, estabelecerá a preponderância desta espécie de trindade. Os demais gêneros ainda demorariam mais tempo até estabelecer o seu cânone.

O público desses concertos, no entanto, era pequeno. O gênero era extremamente reservado e necessitava de um grande capital cultural cultivado para uma dita “apreciação correta”. O grande público era mais afeito a apresentações virtuosísticas ou de grandes formações. Em Viena, por volta da década de 1830, um concerto de quarteto de cordas não ultrapassava a soma de 150 pessoas no público (Weber, 2011, p. 165). Nesta cidade, esses ambientes estão entre os primeiros onde se verificou uma integração maior e progressiva entre a aristocracia e os burgueses amantes da “música séria”. Dentro do repertório camerístico, o quarteto estabeleceu-se como jóia maior. É interessante notar que, por exemplo, sonatas para violino e piano eram na época destinadas a um público menos “distinto” (Weber, 2011, p. 167). Um outro fator curioso é que compositores contemporâneos tinham pouca possibilidade de serem interpretados. Num universo onde a música canônica era a regra, o espaço para novidades era menor. Schubert, por exemplo, demoraria a ser consagrado dentro do repertório, fato que só começou a acontecer por volta de 1850 (Weber, 2011, p. 167).

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Referência

WEBER, W. La gran Transformación en el gusto musical: la programación de conciertos de Haydn a Brahms. Buenos Aires: Fondo de Cultura Economica, 2011

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É o idealizador, criador e proprietário do Música e Sociedade, resultado de uma ampla e densa pesquisa acerca do universo musical pelo prisma da sociedade. Estudou licenciatura em música no Instituto de Artes da UNESP. É também professor nas áreas de composição, piano, história da música e trilha sonora, ministrando uma série de cursos e palestras nestas áreas. É autor de dezenas de trilhas sonoras para as mais diversas mídias, tais como teatro, cinema e dança, além de compositor de música de concerto em uma extensa variedade de gêneros.