Os oito batutas: jazz band nacional na terra dos hermanos

Oito batutas na terra dos hermanos!

Várias pesquisas acadêmicas sobre a música popular brasileira já se interessaram em analisar a importância de músicos como Alfredo da Rocha Vianna Filho (o saudoso Pixinguinha), Ernesto Joaquim Maria dos Santos (Donga), Jacó e Raul Palmieri, China, Nelson Alves, Luís de Oliveira, J. Thomaz etc. Aliás, quando o assunto são esses batutas, sempre vale lembrar que esta foi uma das bandas mais importantes no processo de proliferação pelo país do som híbrido que caracterizaria as jazz bands brasileiras – antes chamadas de conjuntos regionais.

Pixinguinha, um dos oito batutas
Pixinguinha, um de os oito batutas

Após a famosa viagem à Paris em 1922 – patrocinada pelo milionário e mecenas Arnaldo Guinle cujo filho, Jorge Guinle, seria curiosamente um dos primeiros historiadores de jazz brasileiros – e a adoção de novas sonoridades, além daquelas tipicamente regionais como choros, cateretês, maxixes e variados batuques, Os oito batutas, como se sabe, se tornou um conjunto muito requisitado no Brasil, alçado àquela altura a uma sonoridade moderna. Em Jazz em Porto Alegre de Hardy Vedana, há relatos de conjuntos que adotaram a postura e a musicalidade de uma jazz band, entre outras razões, por causa de Pixinguinha e companhia. Em Curitiba, da mesma forma, como nos indica as pesquisas da pianista Marília Giller. Assim surgiram bandas como a Jazz Espia Só, Tupynambá Jazz Band, a Jazz Band Real e muitas outras. O formato jazz band se tornou, nas palavras de Hardy, “a coqueluche do momento”.

Donga, outro inesquecível nome desta Jazz Band
Donga, outro inesquecível nome de Os oito batutas

Pelo país, a banda excursionou por cidades como Santa Catarina, Bahia, Pernambuco, Paraná, São Paulo e Minas Gerais entre 1919 e 1927. Entretanto, o livro Os músicos transeuntes: de palavras e coisas em torno de uns Batutas, interessantíssima obra de Luís Fernando Hering Coelho que é mestre e doutor em Antropologia Social pela PPGA/UFSC e professor dos cursos de graduação em música da UNIVALI e UDESC, intenta colaborar ainda mais com a trajetória e as trajetórias desses músicos, refazendo suas trilhas pela Argentina entre dezembro de 1922 e março/abril de 1923.

O pesquisador em questão demonstra a importância do trânsito para a construção da musicalidade do conjunto, que recolhia em suas viagens o material sonoro que lhe interessava. Como indica logo no prefácio o Professor Rafael de Menezes Bastos, eles foram “os verdadeiros fundadores da etnomusicologia entre nós”.

Ainda segundo Rafael de Menezes: “O sentido de viagem, trânsito, entretanto, não se evidencia apenas no plano dos deslocamentos físico-espaciais dos músicos e grupos estudados. O que o livro mostra é que a música popular brasileira – vale generalizar esta reflexão para as músicas populares nacionais como um todo – é um universo sociocultural ele mesmo em trânsito, os modelos que o procuram congelar devendo ser superados, a favor de outros que o desenhem em movimento” (COELHO, 2013, p.11).

O livro "Os músicos transeuntes"
O livro “Os músicos transeuntes”

É sobre essa noção de movimento que o rico conteúdo de Os músicos transeuntes se fundamenta: trata-se de um rígido e criterioso levantamento de fontes primárias oriundas da Biblioteca Nacional, da Hemeroteca del Congresso de la Nacíon,  da Hemeroteca del Consejo Deliberante de La Ciudad em Buenos Aires, e também em instituições de Córdoba, La Plata, entre outros tantos lugares e bibliotecas pelas quais Luís Fernando Hering passou para alcançar os resultados que se veem. Esse livro interessa, sem dúvida, a todos aqueles que se interessam pela história da música popular brasileira e suas trocas permanentes. Mas não para por aí: através dessa obra se pode ter contato com imagens históricas da banda Os oito batutas bem como da Argentina na época. E mais: há uma abordagem sobre as turnês argentinas de Sam Wooding e a famosa Josephine Baker, também em 1923. Com todo esse itinerário não é à toa que este livro tenha sido contemplado com o Prêmio Funarte de Produção Crítica em Música.

REFERÊNCIAS

COELHO, Luís Fernando Hering. Os músicos transeuntes: de palavras e coisas em torno de uns batutas. Itajaí : Casa Aberta Editora, 2013.

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Colaborador do Música e Sociedade. Mestrando no Programa de Pós-graduação em Cultura e Sociedade (Mestrado Interdisciplinar - UFMA) onde elabora dissertação a respeito do jazz no Brasil nos anos 60. É autor do livro "O lugar do jazz na construção da música popular brasileira (1950-1956)", graduado em História pela Universidade Estadual do Maranhão, baterista e escritor.