Para além do cânone musical alemão: a busca de uma visão desmistificadora e a obra de David Gramit

Cânone musical
Bruckner chega no céu, de Otto Böhler

A tradição do estudo e do ensino de história da música possui algumas particularidades excludentes. Em primeiro lugar, esta abordagem afasta grande parte dos fatores sociais que estão presentes desde a produção até a apreciação da obra musical. A visão de história da música que estamos mais acostumados busca, por exemplo, na chamada primeira fase de Beethoven, a influência da obra de Haydn, bem como procura em Bruckner aspectos da obra de Wagner. Um campo autônomo possui sua própria história, que se justifica internamente. Um dos resultados da autonomia do campo musical no século XIX é a herança de uma história concebida como uma eterna sucessão de “obras primas dos grandes mestres”.

Uma outra característica desta abordagem da história, especialmente a partir do classicismo, é insistir em analisar os fenômenos através de um ponto de vista da história da música alemã. Este discurso advoga pela superioridade do cânone musical surgido em terras alemãs, relegando a segundo plano outros universos musicais. Assim sendo, este enfoque busca tecer uma história que conecte esteticamente Haydn, Mozart, Beethoven, Schoenberg e Stockhausen, minimizando, ou simplesmente ignorando uma história que vai, por exemplo, de Lully à Debussy ou mesmo – para ficar em terras alemãs – de Johann Strauss a Andre Rieu. Considerados durante muito tempo um campo de estudo inferior, a história da música popular no século XIX, as relações entre música, política e economia, bem como a cultura musical de outros povos foram eclipsados pela hegemonia do discurso alemão. Sem ignorar a forte coerência interna deste discurso e também sua legitimidade específica, é importante termos em mente que este se estabelece operando com uma fortíssima dose de exclusão o que limita muito seu campo de análise.

David Gramit
Capa do livro “Cultivating Music”, de David Gramit.

Nas últimas décadas, no entanto, a musicologia vem adotando uma visão cada vez mais ampla dos fenômenos musicais. A etnomusicologia, por exemplo, vem resgatando progressivamente a importância de outras culturas musicais. Além disto, uma visão cultural da história da música vem buscando encontrar as relações que a história específica do campo musical possui com as práticas e ingerências externas, alheias aos seus interesses específicos. O resultado desta análise do campo musical vem produzindo descobertas importantes acerca dos diversos fenômenos socioculturais da música nos apresentando uma leitura de sua história onde as tomadas de posição no seio do campo encontram amplas relações com tomadas de posição e interesses específicos de outros campos sociais. Um importante objeto de estudo atual tem como interesse os aspectos históricos e sociais da construção do cânone musical e do discurso de superioridade da cultura musical alemã. Nesta questão, o livro “Cultivating Music: The aspirations, interests and limits of german musical culture”, do musicólogo David Gramit, apresenta-se como uma obra reveladora.

Gramit busca neste livro analisar as raízes históricas e os interesses omitidos de uma ideia que passou a professar a importância da música como um cultivo humano além de professar a superioridade de uma determinada cultura musical alemã frente às demais culturas. Para o musicólogo, este discurso “toma força em um panorama social no qual o argumento ajudou a garantir a música como uma atividade legítima e a manter a sobrevivência dos músicos” (Gramit, 2002, p.2). As profundas transformações políticas e sociais dos últimos anos do século XVIII e durante boa parte do século XIX, causaram instabilidades e inseguranças também no mundo musical. As incertezas do músico lançado ao livre mercado, tendo que lutar diariamente pela sobrevivência, exigiram destes músicos uma posicionamento que professasse a importância da música enquanto prática humana. Assim sendo, ele identifica uma mudança de comportamento e de discurso com relação à música que surge nas últimas décadas do século XVIII e adentra o século XIX.

É importante salientar que os interesses alheios aos interesses puramente musicais em nada afeta os interesses sinceros do artista com a arte. Não se deve, partindo do pressuposto que o discurso da importância da música possui outros interesses não musicais, acusar o artista de qualquer insinceridade quanto ao seu posicionamento artístico. Para isso, Gramit recorre ao sociólogo francês Pierre Bourdieu, lembrando que os “investimentos” simbólicos no interior do campo da arte está profundamente enraizado e comprometido com os valores sinceros do jogo (Gramit, 2002, p. 18). O que Gramit busca é a leitura de outras camadas do discurso, inconscientes, inclusive, aos seus defensores.

Deste modo, o musicólogo analisa os diversos aspectos do cotidiano musical alemão do início do século XIX através de sua perspectiva ideológica. A desconstrução da ideologia, esta “ilusão interesseira”, como dizia Pierre Bourdieu (Bourdieu, 2013, p. 73), é aqui alcançada através da análise de alguns aspectos específicos da vida musical alemã que vão desde questões acerca do ensino musical até os interesses sociais por trás do discurso da superioridade musical alemã em relação às demais culturas, trazendo luz à construção de um discurso que insiste, até os dias de hoje, em considerar a história da música através da perspectiva do cânone musical alemão.

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Referências

BOURDIEU, P. A distinção: crítica social do julgamento. Porto Alegre: Zouk, 2013

GRAMIT, D. Cultivating music. The aspirations, interests and limits of geman musical culture, 1770-1848. Los Angeles: University of California Press, 2002