Platão e os perigos da música à cidade

A obra escrita pelo filósofo Platão é uma das principais fontes da filosofia ocidental. Pode-se dizer que seus escritos têm sido continuamente estudados desde o século IV a.C. aos nossos dias. Suas proposições nunca foram unânimes entre os filósofos, porém, a própria refutação do platonismo funcionou como um combustível à produção filosófica ao longo da história ocidental. Ele não discutiu sobre música diretamente, porém, esta aparece em meio a outras discussões, principalmente ao que tange sua intrínseca relação com a pólis, a cidade-estado grega, e os possíveis perigos de sua prática.

Platão
O filósofo Platão

Antes de discutir sobre a relação entre música e a pólis em Platão, é imprescindível entender o conceito de música para os gregos e sua intrínseca relação com a educação. Em nossos dias, música conceituada como a arte de manipular os sons, entretanto, a mousiké, música em grego, tinha uma ampla significação como o domínio das Musas, sendo função destas divindades inspirar os homens nas atividades. Curiosamente Hesíodo propõe em sua Teogonia que as musas sejam filhas de Zeus com Mnemósine, a qual representa a memória por evitar o risco do esquecimento, de certa maneira, o que já associa as Musas a inspirar os artistas para evitar o esquecimento de sua própria tradição. Dentre elas, Euterpe é a mais próxima do que compreendemos como música. Dessa maneira, a mousiké abrange outras artes para além da música em si mesma, como os diversos gêneros da poesia, a representação das tragédias, a comédia e a dança. A Profa. Dra. Lia Tomás em sua obra Ouvindo o lógos busca compreender o sentido de música entre os pensadores pré-socráticos, propondo que o termo abrange:

  • Quando associado ás Musas, é portador da inspiração poética e do conhecimento
  • Extensivo à cultura, e, no caso contrário, como sua negação a-mousos, “inculto”, “ignorante”.
  • Também extensivo à música (em sentido estrito), poesia, filosofia.
  • No grego moderno encontra-se a palavra “música”, porém entendida no sendo “europeu” (isso atesta a diferença de significados que esta palavra adquiriu posteriormente com relação à sua concepção original).
  • A explicação etimológica mais provável associa a palavra mousa a manthanein (manthano), “aprender”, sendo essa última também raiz da palavra matemática. (TOMÁS, 2002, p. 40)

Essa concepção ampla é compreensível ao verificarmos que a educação antiga tinha como método a ginástica para o corpo e a declamação de poesia, principalmente de Homero e Hesíodo, em que os rapsodos não somente as declamavam, mas as cantavam. Tanto a métrica do canto como as escolhas modais e melódicas advinham do ideal de levar os ouvintes a desenvolverem suas potenciais virtudes, já que estas obras, e suas derivadas, trariam os valores do povo grego e seu modo de vida.

Pitágoras
Pitágoras

Esta é, em linhas gerais, a teoria do éthos, o pensamento de que a música teria a capacidade de influenciar a alma dos ouvintes. Os pitagóricos propunham uma ação direta da música sobre a alma do ouvinte, havendo uma lenda em quem Pitágoras ao tocar uma peça musical pode acalmar uma briga. Damon, conselheiro de Péricles, foi um dos primeiros a articular a função formativa da música e a plena relação desta com a política, pois “[…], forma o espírito dando-lhe a noção de virtude e de estabilidade política; que diz respeito, portanto, a vida em comunidade e do Estado” (MOUTSOPOULOS, 1959, p. 216). Damon terá influência direta sobre a maneira como Platão pensa a relação entre a música e a cidade.

No entanto, é preciso ter em mente a seguinte proposição de Edward Lippman:

Conceitos da potência ética da música são elementos característicos da visão de mundo da Grécia, antes deles tornarem-se explícitos na filosofia, foram expressos tanto em mitos da magia musical e em vários campos da prática musical, que envolve mais propriamente a ética do que efeitos espetaculares. Mito, religião, medicina, e cerimônia todos unidos para trazer a conceitos morais sua força e diversidade, e estas formulações não desapareceram simplesmente com o advento do pensamento filosófico; sua contribuição para a teoria ética é especialmente significante porque se mantém ao longo da filosofia, dando profundidade e relevância social. (1964, p. 45)

O historiador e especialista em Antiguidade Henri-Irénée Marrou, em sua obra clássica História da Educação na Antiguidade, explica que

[…] segundo nos aparecem através de nossa própria cultura clássica, os gregos são para nós, antes de tudo, filósofos e matemáticos; jamais pensamos em sua música: a esta arte, nossa erudição e nosso ensino concedem menos atenção do que sua cerâmica! E, no entanto, eles eram, pretendiam ser, precipuamente, músicos. Sua cultura e sua educação eram mais artísticas que científicas, e sua arte era musical, antes que literária e plástica. (MARROU, 1975, p. 74)

De forma que a música era o meio essencial de transmitir a cultura helênica às novas gerações. Sendo o modo de vida da pólis advinda do conjunto de valores éticos, concepções sobre o homem e o cosmos, e este é repassado as novas gerações através da música, surge a pergunta: Poderiam as mudanças na prática musical influenciar diretamente os modos de vida na cidade?

Platão escreve sua obra como quem vê a contínua queda de Atenas com a condenação de Sócrates, o fim da democracia e ascensão da tirania, e da tentativa de retorno a antiga democracia ateniense. Sua perquirição filosófica busca compreender os motivos desta queda e a maneira de possibilitar uma cidade efetivamente justa, porém, para isso é necessário compreender a própria ideia de justiça. Neste percurso é que Platão pensa sobre música e política.

Acrópole em Atenas

Para Platão, a educação visa que a alma contemple as ideias puras. Como no exemplo de justiça, ela visa ir além dos exemplos justos que a cidade apresenta para a própria ideia em si mesma de justiça. Enquanto a educação tradicional propunha um processo de imitação das virtudes cantadas na tradição, por ser somente imitação não daria condições de reflexão no verdadeiro sentido das virtudes. Somente com a apreensão das ideias puras das virtudes é que o cidadão poderia efetivamente analisar suas ações na pólis. Por isso Moutsopoulos nos lembra que “a educação musical tem, em Platão, o sentido de uma propedêutica ao estudo da dialética, do Logos” (MOUTSOPOULUS, 1959, p. 198). Dessa forma, a música teria uma função preparatória para a prática da dialética, do método de apreensão das ideias em si.

No diálogo A República, Platão propõe que os ritmos e harmonias escolhidos para a composição musical – tendo em mente que harmonia aqui significada a escolha do modo musical adequado e a construção melódica – devem obedecer ao texto e o bom caráter que este almeja desperta, por isso recomenda “[…] não os procurar variados, nem pés de toda a espécie, mas observar quais são os correspondentes a uma vida ordenada e corajosa” (PLATÃO, A República, 400a). Tudo isso visando despertar no ouvinte o “[…] caráter na bondade e na beleza” (PLATÃO, A República, 400e).

Uma representação de performance musical na Grécia

Platão condena a prática musical visando o prazer. Ao propor isto, ele não pretende dizer que a música jamais deva provocar prazer no ouvinte, mas que essa não deve ser a finalidade de sua prática, e sim uma preparação para posteriormente desenvolver a racionalidade. Em sua época, estão ocorrendo inovações na prática musical, como ampliação das escalas e do uso do cromatismo. O seu receio que estas novas práticas coloquem em risco o desenvolvido dos cidadãos, já que estas novas práticas poderiam tanto fixar o ouvinte no mundo sensível, quer dizer, no mundo material, o que dificultaria este buscar o mundo sensível, o das ideias puras; via dizer que “[…] deve-se ter cuidado com a mudança para um novo gênero musical, que pode pôr tudo em risco. É que nunca se abalam os gêneros musicais sem abalar as mais altas leis da cidade, como Damon afirma e eu creio” (PLATÃO, A República, 400c).

Ele enfatiza a crítica sobre as novas práticas instrumentais que surgem em seu tempo pois estes “[…] procuram os números nos acordes que escutam, mas não se elevam até o problema de observar quais são os números harmônicos e quais não o são, e por que razão diferem” (PLATÃO, A República, 531c), afinal essa tarefa é “útil certamente, para a procura do belo e do bom, mas inútil, se se levar a cabo com outro fim” (PLATÃO, A República, 531c).

Dessa forma, a música valorizada por Platão é o seu aspecto teórico, no qual a música apresenta a realidade do número enquanto elemento estrutural não só da música, como do cosmo como um todo, graças a sua influência pitagórica. De certa maneira, Platão funda a hierarquia de valores na qual o músico teórico é visto como alguém superior e o músico prático como inferior, já que a primeira é processo da razão, enquanto no segundo é um processo manual.

Houveram contraditores em sua época, tanto sobre a real possibilidade de influência ética da música sobre o ouvinte, como no próprio problema de classificar o que é a música, já que, como visto, a mousiké grega é extremamente ampla.

No entanto, o pensamento platônico tem sido lido e relido continuamente ao longo da história, muitas vezes sem ter clareza da própria ideia de mousiké entre os gregos, com que Platão trabalha. O próprio senso comum assimilará elementos do platonismo, muitas vezes de maneira quase caricatural. Retomar o que Platão articula dentro do seu contexto é uma tarefa importante para ver a gênese de certos discursos musicais.

Esse texto apresenta uma visão panorâmica da questão, no entanto, no momento singular em que Platão elaborou seus diálogos, este criou a base conceitual da complexa hierarquia entre o músico prático e o teórico ao longo da história, quiçá ainda presente no meio musical. Ao mesmo tempo, esse aviso do perigo que a mudança nas práticas musicais também reverbera aos nossos, e por consequência, a confiança em que inovações musicais podem transformar a própria realidade também têm seu germe aqui.

Referências

FUBINI, Enrico. La estética musical desde la Antigüedad hasta el siglo XX. Tradução Carlos Guillermo Pérez de Aranda. Madrid: Alianza Edittorial, 2005.

LIPPMAN, Edward. Musical Thought in Ancient Greece. Nova York: Columbia University Press, 1964.

MARROU, Henri-Irénée. História da Educação na Antiguidade. 4. ed. Tradução Mário Leônidas Casanova. São Paulo: E.P.U., 1975.

MOUTSOPOULOS, Evanghelos. La musique dans l´ouvre de Platon. Paris: PUF, 1959.

PLATÃO. A República. 11. ed. Tradução Maria Helena de Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2008.

TOMÁS, Lia. Ouvir o lógos: música e filosofia. São Paulo: Editora Unesp, 2002.

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Violonista clássico e filósofo. Fez a graduação em Filosofia pela UMESP. É mestrando no Pós-Graduação em Música do Instituto de Artes da Unesp, na área de Musicologia sob orientação da Profa. Dra. Lia Tomás, em que elabora a dissertação intitulada “Compendium Musicæ de Descartes: Possíveis fontes musicais”, com bolsa da Capes. É parte do Grupo de Pesquisa “DE MUSICA: Estética, Filosofia e História da Música” na Unesp.