Resenha: O triunfo da Música, de Tim Blanning

O triunfo da Música. O triunfo da Música

O historiador britânico Timothy C.W. Blanning, atualmente professor convidado do Sidney Sussex College, lecionou História moderna europeia na Universidade de Cambridge até 2009, e sua produção concentra-se nos aspectos políticos e culturais daquele período, com trabalhos que abordam temas como o Iluminismo, Reformas, o Antigo Regime na Europa, a Revolução Francesa e algumas biografias de monarcas.

Originalmente publicado em 2008, O triunfo da música é, fundamentalmente, uma obra de síntese, cujo tom, descontados alguns momentos cômicos, é essencialmente épico. A tentativa de narrar a consagração da música como arte suprema, cobrindo do início do século XVIII aos dias de nosso tempo, deve ser louvada em sua ousadia porque é cada vez mais rara, já que há especialistas à granel para criticar cada aspecto que está sendo abordado. Seu propósito básico é percorrer a história para demonstrar a ascensão da música ao topo da cultura ocidental e explicar como os músicos – ao menos um certo número deles – puderam deixar condições de trabalho subalternas e até degradantes para alcançar fama, prestígio e riqueza em patamares que superaram até aos dos monarcas europeus cujos antecessores alguns séculos antes os mantinham sob o julgo de seus desejos e caprichos.

Tim Blanning
O historiador Tim Blanning, autor de “O triunfo da Música”

Trata-se de um “exercício de história social, cultural e política” (p.20), como ele nos esclarece na introdução, que principia de uma análise bem sacada de eventos musicais promovidos para celebrar o Jubileu de Ouro de 3 monarcas britânicos. Embora demonstre nas devidas ocasiões que domina bem o suficiente o vocabulário da musicologia, a proposta de Blanning é atingir um público mais amplo e ele deixa claro que não é necessário ter conhecimento técnico de música para ler o livro. As poucas partituras que ilustram o volume ali estão pelo caráter documental. Diga-se de passagem, uma pena não haver um encartado colorido, pois há muitas imagens significativas, competentemente escolhidas e integradas às reflexões do autor. Sem grandes digressões teóricas, como bem convém a um livro que busca um público além dos especialistas, é preciso ir pescando ao longo das páginas observações que revelem sua perspectiva. Para ele, produzir música é um processo social e “praticamente toda a música ocidental consiste em uma interação trilateral entre criadores, intérpretes e público” (p.87).

Conjugando habilmente o comentário e a informação numa escrita elegante e fluente, detalhista, mas sem recair na trivialidade, ele nos conduz, por 5 capítulos temáticos que abordam “Prestígio”, “Propósito”, “Lugares e espaços”, “Tecnologia” e “Libertação”. Demonstrando aqueles predicados que se espera de um historiador competente, como o manejo das fontes, o domínio da bibliografia pertinente, a erudição necessária sem frivolidade, a argúcia para o questionamento e a habilidade para urdir a trama entre a sincronia e a diacronia, manobrando habilmente suas análises entre episódios em planos curtos que focalizam alguns dos personagens que povoam um relativamente eclético panteão musical (ainda que essencialmente canônico) e os longos travelings que passeiam pela paisagem europeia e até em alguns voos transatlânticos rumo à América do Norte, para abordar importantes mudanças sociais, políticas, culturais, econômicas e tecnológicas que permitem constatar como a música rompeu barreiras, desafiou hierarquias, alcançou plateias incontáveis, aproximou os ouvintes do divino ou tornou-se ela própria objeto de culto. Nesse plano ambicioso, a marca distintiva do livro é a intenção de não separar os universos da música de concerto e da música popular, com resultados eventualmente instigantes, mas muito aquém do que seria necessário, como irei apontar adiante. Inevitável notar aqui que o farei na condição de um historiador brasileiro da música popular. Obviamente o autor se antecipa, se desculpando precavidamente com os admiradores dessa ou daquela figura que tiver sido evitada, salientando que se concentra entre o final do XVIII e o XIX porque teria sido o período de muitas das grandes mudanças que discute, e assume o risco do reducionismo.

O Triunfo da Música"
O livro “O Triunfo da Música”

Não há como lhe poupar eventuais críticas por generalizações, predileções por determinados compositores e intérpretes, espaços geográficos e momentos históricos a que dedica mais páginas e pormenores por serem aqueles sobre os quais detém maior conhecimento. Se o leitor estiver preocupado com preconceitos velhos de guerra, talvez seja melhor nem se aventurar a ler o livro. A experiência imperialista, absolutamente indispensável para entender o período que ele aborda e a posterior expansão da indústria fonográfica, para não falar na sua importância no próprio desenvolvimento de um circuito internacional da música de concerto, por exemplo, simplesmente não é abordada.  O grosso da narrativa corre na Europa ocidental, com destaque para o Reino Unido, a França, a Alemanha e às vezes a Itália (com incidentais concessões ao Centro e ao Leste europeus) e boa parte de seus protagonistas são homens, brancos e bons cristãos. O leitor pode me acompanhar numa rápida incursão pelo índice remissivo para constatar, por exemplo, que Beethoven, J.S. Bach ou Haydn são mencionados dezenas de vezes, em diversos capítulos, enquanto um Coltrane recebe 5, 6 menções, um pouco mais que o recém ganhador do Nobel, Bob Dylan. Um ídolo pop como Michael Jackson apenas uma. Jobim ou Miles Davis, Violeta Parra, nenhuma. Villa-Lobos? Léo Brouwer? Gêneros como o Reggae, a Bossa-Nova ou o Fado não são abordados em momento algum. Música popular sem ser em expressão anglo-saxã não existe. Seria possível prosseguir numa longa lista de negligências, mesmo me restringindo àquelas que seriam úteis – e por vezes indispensáveis – a provar a tese lançada na obra. Especialmente quando trata da música popular e adentra o século XX acredito que o autor patina. É melhor quando ele dá pequenas pinceladas malandrinhas, como quando repara que o termo Lisztmania antecedeu de muito a Beatlemania.

Beethoven funeral
A análise de Blanning acerca dos funerais de Beethoven é um dos pontos altos de O triunfo da Música

Ele nos leva muito bem, claro que dentro do cânone, enquanto trata da ascensão social e de prestígio simbólico dos músicos do XVII ao XIX, mostrando como se elevaram os nomes de compositores e instrumentistas consagrados como Beethoven, Wagner, Paganini, e o já citado Liszt. Mobiliza sempre uma farta documentação, em especial a epistolar, revelando ângulos inusitados e por vezes aquele detalhe picaresco que alegra o leitor amador e diverte o profissional. Como quando menciona que D. Pedro II, comparecendo à estreia de O anel dos nibelungos, ao registrar-se no hotel escreveu “Pedro”, profissão: “Imperador”. Ao final do primeiro capítulo o leitor terá seguido o fio da meada que leva dos perrengues de Mozart aos grandes rendimentos de Rossini e à influência política e cultural de um Wagner ou Bono Vox. No segundo capítulo Blanning avança abordando o tema do “propósito”, enfatizando aí que a maior mudança foi a música deixar de representar o poder do patrocinador e passar a expressar os sentimentos do músico. Se a música foi sacralizada, seus criadores se tornaram seus sumos sacerdotes (p.126). Um dos seus grandes momentos, como bom historiador da cultura que efetivamente é, é sua análise do enterro de Beethoven. A forma como utiliza as fontes para construir as diferentes leituras sobre os significados produzidos em torno do funeral do compositor, e retorna ao evento em diferentes pontos da obra para ir construindo uma explicação abrangente de sua representação como herói e gênio é realmente empolgante. Ao final ele concede algum destaque a músicos populares que foram alçados ao patamar das divindades, inclusive através de seu comportamento autodestrutivo, tão bem retratado na pichação que tomou conta dos muros de Londres no final da década de 1960: “Clapton is God”.

Brian May toca no Jubileu da rainha da Inglaterra em 2002: um exemplo do triunfo da música pop no livro de Tim Blanning
Brian May toca no Jubileu da rainha da Inglaterra em 2002: um exemplo do triunfo da música pop no livro de Tim Blanning

Para o leitor pouco familiarizado com a história da música de concerto europeia o livro guarda muitas boas surpresas e aprendizado. Descobre-se aqui e ali nomes que acabaram desaparecendo dos repertórios, ou mesmo que obras hoje vistas como sublimes em seu tempo foram deixadas de lado, que repertórios inteiros se perderam ou que aquilo que se convencionou chamar de “música clássica” foi uma invenção do XIX. Quase sempre a peteca cai nos finais dos capítulos, em que ele resolve que mais que de repente a música popular merece ser mencionada. Ele perde, por exemplo, a oportunidade de comentar que o primeiro-ministro trabalhista britânico Harold Wilson, que ele demonstra ter se aproveitado politicamente de uma associação com os Beatles, inclusive pela atribuição dos títulos de MBE, recebeu em retribuição a menção nada honrosa “Mr. Wilson” na letra de Taxman, sarcástico protesto de Harrison (with a little help from John Lennon) aos considerados excessivos impostos ingleses. Estão talvez menos afeitos ao problema os capítulos 3 e 4, em que o foco se desloca para um universo material talvez um pouco menos propenso a ênfases e predileções, mas mesmo assim há esquecimentos absurdos. No terceiro, após percorrer igrejas, teatros e casas de concerto pela Europa, mostrando em detalhe a propagação de verdadeiros templos para a música e destrinchando belamente suas dimensões estéticas e sociais, auxiliado por iconografia escolhida a dedo, ele falha ao não dar um retrato com a mesma vivacidade dos espaços por onde a música popular vicejou, ainda que conceda algumas páginas ao salões de baile e às salas de cinema. Nem mesmo o Carnegie Hall e as casas noturnas de jazz nova-iorquinas pintam na narrativa. Fora os grandes festivais, importantes espaços de revelação e consagração de ídolos populares. Woodstock não poderia faltar, ou San Remo. Os brasileiros, seria pedir demais. Pra não falar de lugares muito menos glamourosos, bordéis, espeluncas e fundos de quintal onde germinaram em seus primórdios vários gêneros populares importantes. E um fenômeno digno de nota, e que justamente corrobora sua interpretação, é que há alguns anos tornou-se aceitável que apresentações desses gêneros, às quais afluem quem tem poder aquisitivo para pagar ingressos caros, ocorram em teatros e casas de concerto que antes não lhes abririam as portas. O quarto capítulo talvez seja um dos mais equilibrados do livro, pelo fato da tecnologia jogar um papel muito nítido na produção da música popular na forma como esta ficou definitivamente consagrada, ou seja, a partir da fonografia. Ele trata da invenção e fabricação dos instrumentos, com destaque para o piano (merecedor de belas páginas sobre sua história sociocultural) e a guitarra elétrica, dos meios de reprodução e circulação, com destaque para a sinergia entre a música popular e a televisão. Num dos momentos mais bem humorados de todo o livro ele descreve em detalhes a sequência de vinhetas musicais de desenhos animados exaustivamente exibidos em um canal de TV a cabo.

O livro até que se redime num de seus melhores momentos, o 5° e último capítulo, “Libertação: nação, povo, sexo”, que se dedica a estudar o papel político da música desde grandes conflitos armados na Europa setecentista, passando pela história d’A marselhesa e dos temas nacionais e populares em óperas, hinos e outras obras, até chegar ao movimento pelos direitos civis nos EUA e a influência direta da música popular nas questões comportamentais desde os anos 1960. Mas falta-lhe o mesmo domínio ao tratar da música popular. Quantas considerações o autor poderia ter feito sobre a questão nacional, em diferentes momentos e países… Há trabalhos sobre isso, inclusive em língua inglesa. A conexão entre meios massivos e afirmação de identidades nacionais seria um prato mais que cheio.

Tom Jobim, Miles Davis e Villa Lobos: importantes nomes omitidos em "O triunfo da Música".
Tom Jobim, Miles Davis e Villa Lobos: importantes nomes omitidos em “O triunfo da Música”.

Se a ascensão da música, nos termos propostos por Blanning, não é difícil de constatar, o defeito crônico do livro parece ser não colocar devidamente à prova a sua própria tese, em termos teóricos e empíricos. No cerne desse problema está a eminência parda do mercado, que comparece sob diferentes vestimentas ao longo do livro, e que deixa de ser tratado em suas contradições inerentes. A consagração de determinados artistas não pode simplesmente obliterar as dificuldades porque passam tantos outros, por exemplo. O sucesso massivo e a recompensa material propiciada a determinados artistas advém de uma lógica que propaga formas estandartizadas e fórmulas repetidas à exaustão, esvaziando qualquer pretensão de contato com o sublime. Na junção entre meios massivos, cinema e música, testemunhamos também o emprego por regimes totalitários e autoritários de propaganda política que promoveu preconceitos e legitimou a violência. A ascensão mercadológica de determinados artistas e gêneros se faz pelo descarte de outros. Se alguns músicos notórios podem mobilizar seu público para apoiar causas humanitárias e mudanças comportamentais, outros podem fazê-lo para justificar comportamentos racistas ou simplesmente envolve-los numa espiral interminável de consumo de mexericos e bugigangas. A Conclusão reflete bem a hesitação do autor em abordar esses aspectos conflituosos que exigem reflexão e autocrítica. Escolhendo como estopim a querela entre os críticos William Mann e Paul Johnson, respectivamente exaltando e depreciando os Beatles no auge de sua explosão comercial em 1964, Tim Blanning encontra uma saída relativamente fácil, até por ter escolhido para exemplo o grupo de músicos populares mais cultuado da história. Ele proclama Mann o vencedor baseando-se num critério que alega ser objetivo, de durabilidade, de agradar sucessivas gerações além de critérios estéticos que são passageiros, o que ele afere através de enquetes de opinião pública sobre a influência dos músicos e estatísticas de regravação que demonstram o inegável sucesso da banda. Por esses mesmos critérios é simplesmente inaceitável que ele tenha ignorado Garota de Ipanema, Jobim e a Bossa-Nova, uma ressalva que independe do fato dessa resenha ser feita por um pesquisador brasileiro. Mas vou além porque metodologicamente é imperativo colocar a pergunta: num mundo em que tudo se converte em mercadoria, qual o significado de triunfo? Sendo assim, encerro afirmando que a tese de Blanning passa ao largo na esperança de que seu leitor não note esse lapso. Ainda que tenha esse grave defeito, trata-se de um livro valioso por seu escopo ambicioso, capaz de sugerir temas de análise estimulantes a serem aprofundados dentro dessa sugestiva tentativa de suspender as separações impostas entre música popular e de concerto, de resto postas à prova pelos músicos, pelo público e pela própria Música. Nada mais justo do que isso ser feito também por mais pesquisadores.

Referência

BLANNING, Tim. O triunfo da música: a ascensão dos compositores, dos músicos e de sua arte. São Paulo: Cia. das Letras, 2011, 424 páginas.

O triunfo da Música Tim Blanning. O triunfo da Música. O Triunfo da Música. O triunfo da Música