Liberdade musical e as condições de trabalho anteriores ao século XIX

A liberdade musical
Quadro de Januarius Zick

Ao pensarmos na vida profissional de um compositor anterior ao século XIX, geralmente vislumbramos esta questão com um olhar moderno da condição do artista criador sem percebermos que estamos cometendo um anacronismo. O fato de o criador artístico  possuir plena liberdade musical, ou seja, obedecer às suas vontades, necessidades e caprichos é uma conquista que só se consuma no século XIX, mesmo à custa de muitas dificuldades, inclusive de ordem material. Antes disso, a vida profissional do músico era bem diferente: preso dentro de uma estrutura social muito mais restritiva, sua criação deveria obedecer a fatores mais externos e imediatos que o “simples chamado das musas”.

A liberdade musical de um compositor nos séculos que antecederam a autonomia do campo musical, alcançada no século XIX, era muito mais restrita. A produção de música estava destinada a cumprir uma necessidade objetiva e uma função específica. Como qualquer outra função a serviço da corte, o compositor era visto como um serviçal qualquer e não contava com privilégios especiais, salvo em alguns casos raríssimos. Ser músico numa sociedade aristocrática não era razão para privilégios.

Se algo gozava de um mínimo prestígio social era a música e não o músico. O músico, como um simples serviçal, era obrigado a seguir ordens de seus superiores que hoje consideraríamos ultrajantes para um artista. Muitos eram proibidos de se casar ou mesmo de empreender viagens sem o prévio consentimento de seus superiores. As obras compostas ficavam condicionadas ao bel prazer das exigências aristocráticas ou às necessidades dos serviços religiosos, como pode atestar o contrato de Joseph Haydn junto aos Esterházy, citado pela filósofa Lydia Goehr,  que contava com os seguintes termos:

“(Haydn estava) sob a obrigação de compor música ao comando de Sua Serena Majestade, e não comunicar suas composições a ninguém nem permitir delas cópias, e sim… retê-las para absoluto uso de sua majestade, além de não compor para qualquer outra pessoa sem o conhecimento e permissão de sua majestade”(Goehr, 2007, p. 180).

Joseph Haydn
Joseph Haydn

Tal contrato nos aponta um dado importante: o direito de propriedade da obra musical. Naquela época, o controle sobre as apresentações e os direitos comerciais eram de propriedade do contratante (Goehr, 2007, p. 181). O compositor não possuía sua própria música. As restrições eram tão severas que a escolha no tocante a quem seria dedicada a obra ficava, na maioria das vezes, a cargo dos seus contratantes aristocratas, da Igreja ou mesmo das editoras de partituras. Tal restrição era importante uma vez que quem gozava do prestígio da música nunca era o compositor, mas sim aquele a quem a música era dedicada (Goehr, 2007, p. 179).

Somente com o passar do tempo, os compositores foram ganhando terreno na autonomia de suas criações. Tal autonomia não veio, no entanto, sem uma dose de incerteza e preocupação por parte dos criadores musicais. Mesmo em um universo extremamente restritivo como o da música nos ambientes religiosos e aristocráticos, muitos músicos preferiam a prisão a um sistema coercivo à instabilidade que a liberdade musical trazia. Com a queda dos regimes antigos, o compositor se viu numa encruzilhada: como sobreviver agora que os empregadores desapareceram? A resposta a isto será dada na progressiva separação entre música séria e ligeira.

Enquanto alguns apostavam na independência às amarras externas que coibiriam sua liberdade criativa, mesmo a preço de uma vida material extremamente incerta, outros preferiam o conforto da estabilidade material, pagando o preço das novas restrições que surgiam àqueles que iriam compor amarrados às exigências de um público.

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Referência

GOEHR, L. The immaginary museum of musical Works. An essay in the philosophy of music. New York: Oxford university press, 2007

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É o idealizador, criador e proprietário do Música e Sociedade, resultado de uma ampla e densa pesquisa acerca do universo musical pelo prisma da sociedade. Estudou licenciatura em música no Instituto de Artes da UNESP. É também professor nas áreas de composição, piano, história da música e trilha sonora, ministrando uma série de cursos e palestras nestas áreas. É autor de dezenas de trilhas sonoras para as mais diversas mídias, tais como teatro, cinema e dança, além de compositor de música de concerto em uma extensa variedade de gêneros.