Uma introdução à vida e obra de Mozart

Vida e obra de Mozart. Nannerl, Leopold e Wolfgang
Wolfgang, Leopold e Nannerl

Nesta introdução à vida e obra de Mozart, abordaremos alguns apontamentos feito pelo sociólogo alemão Norbert Elias, em sua obra inacabada “Mozart, a sociologia de um gênio”. Tendo falecido antes de poder completar a empreitada, Elias nos legou um conjunto de textos e apontamentos muito relevantes sobre as questões sociológicas do compositor austríaco. No entanto, não tendo havido tempo para a conclusão do material, o sociólogo deixou algumas lacunas em sua pesquisa, além de não ter podido enriquecer seu material com descobertas da musicologia posteriores à sua morte em 1990. Mesmo assim, sendo autor de toda uma teoria sociológica extremamente consistente – quem há de negar a importância de obras como “Os alemães” ou os dois volumes de “O processo civilizador?” – e tendo sido influência para sociólogos do nível de Pierre Bourdieu e historiadores como Roger Chartier, Elias nos legou uma prévia análise sociológica do “gênio de Mozart” que pode ser tomada como uma espécie de espinha dorsal na busca da relação entre o compositor e a sociedade.

O sociólogo Norbert Elias
O sociólogo Norbert Elias

Elias abre seu estudo falando sobre o que chama de “tragédia de vida” do jovem compositor. O sociólogo inicia sua pesquisa afirmando que “aos poucos (Mozart) foi se sentindo derrotado pela vida. Suas dívidas aumentavam. A família mudava de um lugar para o outro. O sucesso em Viena, que para ele talvez significasse mais que qualquer outro, jamais se concretizou. A sociedade vienense deu-lhe as costas. O rápido avanço de sua doença fatal pode muito bem estar ligado ao fato de que, para ele, a vida perdera o valor. Sem dúvida alguma, morreu com a sensação de que sua existência social fora um fracasso” (Elias, 1995, pg. 9).

Elias tenta, num esforço de análise sociológica, entender os mecanismos sociais que teriam levado Mozart a uma profunda depressão na fase final de sua vida, acarretando em sua morte. Para isso, busca evidências sociais tanto na formação da psique do compositor quanto no seu sucesso infantil, sua carreira ao longo da fase adulta e seu fracasso final.

Para entendermos a vida e obra de Mozart e sua “tragédia pessoal”, no intuito de ilustrar as relações entre a música e a sociedade, devemos buscar em quais pontos a relação entre o compositor e o mundo social torna-se mais evidente. Como mostra Elias, toda a carreira de Mozart ocorreu numa era de crescente tensão entre a aristocracia e as camadas populares, e toda a vida de Mozart ocorre sob as condições desta crescente tensão. Se, como aponta, as questões culturais e econômicas ainda são comandadas pela corte, a força da aristocracia já não consegue impedir todos os protestos (Elias, 1995, p.16). Elias mostra que o conflito social da época existia não só no campo social como também no interior de cada indivíduo e aponta como essa dinâmica pôde criar condições tanto para o surgimento do talento de Mozart quanto as dificuldades que atravessará ao longo da carreira. Para isso, recua até a infância do compositor e sua relação com o pai.

Leopold Mozart
Leopold Mozart

O pai de Mozart era uma pessoa meticulosa. Tendo vindo de uma família de artesãos, Leopold constrói sua carreira de músico enfrentando grandes dificuldades. Ressentido de sua condição social, vendo como irrealizável o desejo de chegar a ser mestre de capela da corte de Salzburg, Leopold vê nos filhos a sua chance de realizar seus mais profundos desejos. Eclipsando sua própria carreira, educa os irmãos Wolfgang e Marianne nas artes de música. Elias salienta que Leopold, apesar de extremamente severo, era um excelente educador musical. É através dos filhos que ele consegue sair da humilhante situação que se encontrava para uma realidade onde era recebido por imperadores e aristocratas de muitos países da Europa. Como lembra Solomon em sua biografia do compositor, Leopold era um músico ambicioso, decepcionado com a carreira e rancoroso de sua posição social (1995, p. 28). É no encontro do “seu chamado (na) criação e educação, tornando-se o empresário de seus filhos” que Leopold irá se realizar. (1995, P.33).

Mozart quando criança
Mozart quando criança

Podemos ver, portanto, na origem das relações entre pai e filho e na decisão de Leopold de investir na educação musical de seus filhos, um profundo contingente social servindo de catalizador para o desenvolvimento musical futuro de Mozart. Encontrando nos desejos de realização profissional de Leopold e na educação musical do jovem Mozart uma complexa rede de afetos que tentam, como aponta Elias (1995, p. 76), sublimar necessidades individuais complementares, podemos chegar a entender até que ponto questões sociais estão também presentes nas demais relações. O sociólogo vê numa intricada relação entre as decepções sociais de Leopold Mozart e a necessidade extrema de amor por parte de seu filho, uma “mola propulsora” do espantoso talento musical de Mozart. É, de fato, importante notar como a relação entre o desejo da criança e sua realização através da música foi estimulada desde a infância: como demonstra o sociólogo, os avanços musicais de Mozart eram recompensados com demonstrações de afetos e outras compensações. A relação profunda que os dois desenvolvem e o afeto criado por essa relação passa incondicionalmente pela música.

O efeito do impacto do pai passa longe de questões meramente musicais, de uma certa forma contribuindo até para o sentimento de abandono que o filho vivenciará em seus últimos anos. Buscando na psicologia um instrumento de análise, Elias tenta compreender como a figura austera e extremamente dominadora do pai moldou um adulto de certa forma incapaz de compreender a realidade social à sua volta, sua incapacidade para administrar questões financeiras básicas e a sublimação de suas angústias através da válvula de escape que a música propiciava (1995, p. 83).  Grande parte da tragédia de Mozart seria fruto justamente desta incapacidade para entender o mundo social. Acostumado na infância às recompensas por seu extraordinário talento musical – Mozart ganhou uma longa série de presentes de imperadores e altos aristocratas por seus dotes musicais – teve de enfrentar a vida real de um músico subordinado às condições sociais muitas vezes humilhantes.

Elias sustenta que Mozart tinha consciência de seu talento e se sentia superior aos aristocratas (1995, p. 23). O que jamais conseguiu entender, no entanto, era uma sociedade que ainda não estava preparada para entender nem o conceito de genialidade, nem o conceito de artista do modo como hoje conhecemos. Sua tragédia está fincada no anacronismo do seu entendimento de arte, artista e genialidade, numa era que ainda encarava a música como mero entretenimento. Mozart tentou criar um espaço dentro do campo musical que ainda não havia sido socialmente preparado para recebê-lo.

Pierre Bourdieu
Pierre Bourdieu

Como mostra o sociólogo Pierre Bourdieu (1996, p. 266), uma tomada de posição dentro do campo artístico (coisas a ser feitas, como compor e apresentar uma música)  acontece mediada pelo o que ele chama de “espaço dos possíveis”, espaço que nada mais é que uma herança acumulada pelo trabalho coletivo – no caso, de outros músicos. Esta herança circunscreve um conjunto de espaços onde o agente (no nosso caso, Mozart) pode tomar uma posição. Para que uma posição seja assumida, mesmo uma nova posição, é preciso que esta seja recebida, aceita e reconhecida como razoável. Assim torna-se possível ver como o entendimento da realidade social limitada por parte de Mozart, mais o desejo do reconhecimento da sua genialidade, produziu aquilo que Norbert Elias vai chamar de tragédia de vida. Numa sociedade preparada para entender suas peripécias musicais da infância como uma espécie de entretenimento praticamente circense e sua música como fonte de entretenimento e diversão, Mozart naufraga na expectativa do reconhecimento como um grande músico – ao menos no seu conceito pessoal de grande músico. Enfrentando dificuldades adicionais devido à reestruturação da vida musical aristocrata em Viena, o que fez fracassar muito de suas empreitadas musicais (e um problema adicional na vida afetiva com o afastamento de sua esposa Constanze), Mozart finalmente sucumbe em 1791. Sua música só seria louvada pelas qualidades que o compositor enxergava meritórias alguns anos depois. Como demonstra a experiência de Beethoven, é somente a partir da década de 1790 que o gosto musical começa a ser tocado por valores estéticos intrínsecos e pela busca de uma apreciação e reconhecimento cada vez mais sério por parte do público.

Como podemos perceber nesta breve introdução, uma analise sociológica da vida e obra de Mozart pode explicitar uma série de elementos que contribuíram na carreira e na produção musical do compositor. Com a vida agitada por profundos desejos eclipsados por fatores sociais impossíveis de serem domados por um indivíduo, sua vida pode ilustrar muitos aspectos da relação entre música e sociedade no século XVIII.

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Demais textos sobre Mozart

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REFERÊNCIAS

BOURDIEU, P. As regras da arte. São Paulo: Companhia das Letras, 1996

ELIAS, N. Mozart: sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995

SOLOMON, M. Mozart: a life. New York: Harper Perennial, 1995

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É o idealizador, criador e proprietário do Música e Sociedade, resultado de uma ampla e densa pesquisa acerca do universo musical pelo prisma da sociedade. Estudou licenciatura em música no Instituto de Artes da UNESP. É também professor nas áreas de composição, piano, história da música e trilha sonora, ministrando uma série de cursos e palestras nestas áreas. É autor de dezenas de trilhas sonoras para as mais diversas mídias, tais como teatro, cinema e dança, além de compositor de música de concerto em uma extensa variedade de gêneros.

Comentários

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