Viver na era do capitalismo artista, segundo Gilles Lipovetsky e Jean Serroy

Viver na era do capitalismo artista

Gilles Lipovetsky é um filósofo controverso. Autor de obras como O Império do Efêmero e Os Tempos Hipermodernos, profundamente difundidas e ao mesmo tempo extremamente elogiadas por uns e criticadas por outros, Lipovetsky é um pensador que não nos permite permanecer passivos diante de seu pensamento. Grande parte deste fenômeno se deve ao fato de sua visão buscar algo entre a crítica e o elogio da sociedade contemporânea. Ora pesando os prós e ora os contras da sociedade pós-moderna e  neoliberal, sua obra é alvo tanto dos defensores quanto dos críticos de nosso sistema político, econômico e cultural. Sendo assim, A Estetização do Mundo: Viver na Era do Capitalismo Artista, escrito em conjunto com o professor da Universidade de Grenoble, Jean Serroy e publicado no Brasil pela Companhia das letras, certamente não escaparia desta condição.

Antes de prosseguirmos, no entanto, faz-se necessária uma pequena digressão. A princípio, esta obra não costuma suscitar o interesse específico do músico ou do amante da música, pois Lipovetsky não trata aqui diretamente desta arte, mas sim dos fenômenos artísticos culturais em suas mais diversas  expressões. No entanto, este livro deve interessar a todos que percebem viver nestes tempos interessantes de grandes transformações culturais. Desta maneira, todos aqueles que se interessam por música devem dar atenção para esta obra capaz de gerar estimulantes debates. Feito este breve apontamento, continuemos.

Gilles Lipovetsky
Gilles Lipovetsky

Nesta obra, o filósofo discorrerá especificamente sobre um tema já colocado de maneira parcial em outras obras, como A Cultura-Mundo, ou seja, o surgimento de uma sociedade transestética, onde a arte volta-se definitivamente para a lógica de mercado, sendo incorporada categoricamente pelo capitalismo e pela lógica de consumo, levando à estetização das mais variadas esferas de nossa vida. Para, no entanto, começarmos a compreender seu pensamento, é preciso frisar que, para Lipovetsky, vivemos a era da hipermodernidade que intensifica de maneira global os fenômenos sociais mais marcantes da pós-modernidade: a efemeridade, a individualidade, a perda de autoridade das estruturas socializantes. Assim, esta nossa era se caracteriza pela intensificação da fluidez, da flexibilidade, do hiperindividualismo (ou hipernarcisismo)  e do hiperconsumo (Lipovetsky G. 2004, p. 26).

Segundo o filósofo, esta nossa era hipermoderna desperta o que ele chama de capitalismo-artista, ou seja, uma era onde a estética está plenamente a serviço do lucro, transformando este capitalismo numa espécie de “empreendedor das artes” e “motor estético”. Desta maneira, rompe-se as fronteiras que separam a arte do comércio, a cultura da indústria, a alta cultura da cultura de massas. Marcado pela necessidade de integrar a aparência, o afeto e a arte em busca do lucro, o hipercapitalismo artista acaba por inflacionar a estética para dentro de nossa vida cotidiana (Lipovetsky & Serroy, 2015, p. 21). Lipovetsky e Serroy dão o tom desta inflação ao pintar o cenário contemporâneo envolvido por este fenômeno. Segundo os autores, estamos em um mundo cercado por “arquiteturas-espetáculo de tirar o fôlego que redesenham museus, estádios e aeroportos, ilhas artificiais que compõem uma palmeira gigante, galerias comerciais que competem em luxo decorativo, lojas que parecem galerias de arte, hotéis, bares e restaurantes cada vez ‘tendência’ (…) filmes e música em profusão” (Lipovetsky & Serroy, 2015, p. 39). Neste sentido, ao invés da padronização e do enfeamento do mundo apontados por alguns sociólogos e filósofos, o capitalismo contribuiria, antes, para a explosão e a pluralidade da estética.

Capitalismo Artista
A Estetização do Mundo: Viver na Era do Capitalismo Artista é editado no Brasil pela Cia. das Letras

Para os autores, este fenômeno surge numa fase do capitalismo onde as barreiras econômicas que ainda caracterizavam a economia até a década de 70 se desregulamentam acelerando a penetração do econômico em todos os campos de nossa sociedade. A partir da década de 80, vemos, portanto, a globalização de uma lógica que inflaciona a economia para outras esferas anteriormente não econômicas, criando mercado para todas as esferas das coisas e da vida (Lipovetsky & Serroy, 2015, p. 131). Assim sendo, dependente de uma artealização da produção que leve o econômico a se transmutar em  estético, gerando o impulso para o consumo, o hipercapitalismo, este capitalismo artista, transforma a realidade do mundo em um caleidoscópio de fenômenos estéticos. Obviamente, esta não é uma lógica sem passado: não sendo exclusividade de nossa era, pois o próprio século XIX já nos mostra esta tendência, nossa época se difere, no entanto, no que tange à dimensão do fenômeno. Para os autores, a era hipermoderna desenvolveu a face artística do capitalismo ao ponto de necessitar deste elemento como jamais havia necessitado na história. O capitalismo artista se tornou fundamental no desenvolvimento das empresas, do crescimento e dos empregos. Nem as profissões escapam mais a esta lógica. Difundindo uma imagem artista de seus atores, o capitalismo-artista estetiza, inclusive, as mais diversas atividades humanas: um jardineiro torna-se um paisagista, os cabelereiros, hair-designers (Lipovetsky & Serroy, 2015, p. 29). Em suma, o próprio domínio estético se torna tão hiperbólico quanto a economia. A atividade estética do capitalismo torna-se finalmente estrutural.

Não devemos, no entanto, pensar que esta estetização do mundo e da vida está a serviço da beleza. Como dito anteriormente, esta estetização está a serviço do lucro, a tal ponto que a busca de harmonia e beleza pode ser confrontada com a realidade desta lógica que acaba, também, por produzir o “mau gosto”, o “banal” e a estereotipia (Lipovetsky, 2015, p. 34). Se o capitalismo artista tem o mérito de ampliar a dimensão e a variedade do estético, a própria pluralidade de estilos leva à saturação, à indiferença. Além disso, a vida nesta “sociedade estética” não corresponde, segundo o filósofo, ao sonho vendido, pois torna gritante a diferença entre a utopia dos incluídos e a realidade dos que passam à margem (Lipovetsky & Serroy, 2015, p. 33).

Jean Serroy
Jean Serroy

Este fenômeno opera também em outras camadas do mundo social e do indivíduo. Na sociedade, a estetização do mundo realiza uma verdadeira desregulamentação dos gostos, uma desvalorização dos processos de hierarquias da cultura e da arte. Na era do capitalismo artista, as estruturas socializantes como as encontradas nos campos sociais – e no campo da música – perdem a sua função frente o surgimento do que Lipovetsky irá chamar de Homo Aestheticus, o ser humano consumidor superabundante de estilos, que vive as regras do seu próprio prazer e não mais as imposições externas da representação social através da cultura. Assim, o Homo Aestheticus é livre para ler, vivenciar, ouvir o que quiser, definindo dentro dos parâmetros de sua própria opinião o universo estético que elegerá exclusivamente para si. De Paulo Coelho a Beethoven, de Michel Teló a Nirvana, os universos do gosto cruzam-se desprovidos de hierarquia e diferenciação. Somando-se aos fenômenos já mencionados, um terceiro se impõe: a escalada do efêmero. Se na primeira modernidade a moda se elevava como o paradigma deste efêmero, hoje esta lógica ganhou todos os outros setores. Nada mais escapa às “tendências”; da gastronomia, ao esporte, dos cosméticos ao “artista da vez”, todas as atividades humanas respondem constantemente a esta condição (Lipovetsky & Serroy, 2015, p. 54).

Quanto à música, Lipovetsky frisa que o que vivemos é a intensificação de fenômenos criados pelos sistemas de reprodução técnica do som. Estão vivas as lógicas do star-system, da apropriação individual da música, da idolatria por um gênero ou um artista. O que aconteceu seria, tão somente, uma intensificação destes fenômenos, que transformariam o mundo em um Mundo Disco (Lipovetsky, 2015, p. 215). Desta forma, a reprodução técnica do som não eliminou a aura musical, apenas inverteu sua lógica. A idolatria está na reprodução, no artista cada vez mais reproduzido e ouvido. Desta maneira, esta lógica não seria quebrada pelo MP3 ou o streaming; assim como o capitalismo artista tem em seu antepassado, a loja de departamento, o embrião do universo dos shoppings, a música de nossa era teria no rádio e no gramofone o embrião da híperdistribuição musical possibilitada pela rede virtual.

Deve-se notar, no entanto, que a parte dedicada à música é uma das menos cuidadosas do livro. O olhar dedicado à música é de relance e merecia maior dedicação para evitar generalizações e leituras apressadas dos fenômenos que envolvem a música no século XXI. De qualquer maneira, este livro não deve ser ignorado pelo músico e nem pelos amantes da música. Certamente, é impossível concordar plenamente com a visão cultural trazida por Lipovetsky e Serroy. Antes de ser obra para se concordar, é uma obra estimulante justamente por ela suscitar debates e até indignações. Entre o elogio e a crítica de nossa era, a obra de Lipovetsky certamente se apresenta como fundamental para todos aqueles que, de uma forma ou de outra, sentem os desconfortos de nossos tempos.

Referências

LIPOVETSKY, G. & SERROY, J. A estetização do mundo. Viver na era do capitalismo artista. São Paulo: Companhia das letras, 2015

LIPOVETSKY, G. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Barcarolla, 2004